Uni, duni, tê, salamê, minguê...

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Materiais a partir de textos da tradição oral

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Oitava provocação sobre o abecê nordestino

Nas minhas pesquisas pela internet, vi alguns comentários defendendo o nosso alfabeto nordestino (alguns, nem um, nem dois), mas sob o argumento de que a origem dos nomes (ao menos o efe, ele, eme, ene, esse, erre) seria a influência da língua inglesa, mais contemporaneamente. Nesse argumento, as letras fê, lê, mê, nê, rê, si, teriam sido substituídas pelas inglesas (ef, el, em, en, er, es)...

E para completar o argumento, alguns comentários ainda ressaltam que seria tudo culpa dos brasileiros exaltarem a cultura americana.
Ainda que esse argumento da exaltação possa fazer sentido em outros assuntos, nada é mais equivocado do que atribuir essa explicação a uma história que é bem mais antiga do que isso...

Gente, o alfabeto latino é a base dos alfabetos usados por todas as línguas europeias, ao menos da Europa Ocidental, não só as línguas neolatinas, como o português, francês, italiano, espanhol, etc... mas também o inglês, o alemão, dentre outras...

A raiz é a mesma: o alfabeto latino (...que veio do grego...que veio do fenício...). Então não tem isso de ser influência americana em nosso alfabeto, certo? Trazer a questão para tempos mais próximos de nós, desse jeito, é desconhecer não apenas a história do alfabeto como a História mesmo, do Brasil, do mundo...

Da mesma forma que a questão do uso dos dois alfabetos não deve ser posta em termos de certo e errado, tampouco ajuda usar argumentos equivocados para defender nosso abecê.

Para saber mais, que tal essas indicações?:


Por ora, é isso,
Lica

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Sétima provocação sobre o abecê nordestino

Mais uma provocação sobre o abecê nordestino, mas dessa vez para falar, de novo, mais uma vez...

Já que vejo, mesmo nos compartilhamentos de meus posts, ou em conversas sobre o assunto por aí (onde vou tenho falado disso...rsrsrsrs... virou quase uma militância), comentários que insistem em pontos que quero ajudar a desconstruir...retomo aqui alguns pontos.

O abecê chamado de nordestino - por vezes de baiano, ou do sertão - não é errado. Não, o abecê dito oficial não é o correto...o único correto. As coisas não são postas em termos de certo e errado, nesse quesito, como em vários outros, referentes aos diferentes falares regionais.



Não, ele não é antigo, iletrado e risível. Se está desaparecendo é por conta da "colonização" do outro alfabeto, que por razões não linguísticas, vem se sobrepondo ao nosso.

Sim, ele era falado no Nordeste, e ainda o é em alguns municípios do interior, nessa região. Mas na Bahia, ainda se aprende e se fala, seja no interior ou na capital, embora em muitas escolas e famílias já tenha sido substituído pelo que se considera como "oficial".

Meus avós e meus pais, assim como eu, aprenderam esse abecê. Muitas gerações, desde o fim do século XIX ou início do século XX, quiçá antes, aprenderam esse abecê. São apenas oito letrinhas com nomes diferentes - e nem tão diferentes assim, pois fazem eco com os nomes das outras letras, em que, também "se ouve tanto ê" (como diz a letra de Luiz Gonzaga).

Não, fê, rê, lê, mê, nê...não soam estranho em si mesmas...Se soam (a alguns), é apenas por costume... Não é bê, dê, tê, vê, zê? Então qual a estranheza de fê, rê, mê, lê? Só costume...Não vamos julgar algo como certo ou errado, letrado ou risível, pelo etnocentrismo de nossos ouvidos, não é? Aliás, como eu disse em post anterior, pelos critérios de nomeação das letras, se fosse lógica e não arbitrariedade, vê e zê seriam eve e eze...que soam estranho porque essas não ficaram sendo como as outras: esse, erre, efe...(Em breve vou detalhar mais sobre a origem desses dois modos de designar as letras na história do alfabeto).

E não, não e não...Embora possa parecer uma explicação razoável, seja para criticar, seja para defender o abecê nordestino, ela não é uma explicação precisa. Não! O fê, guê, ji, lê, mê, nê, rê, si não são sons - e muito menos fonemas - são NOMES dessas letras, outros nomes. Nomes usados como tal, além de dicionarizados e indicados como realizações possíveis por gramáticas e pelo Acordo ortográfico. Assim, é preciso duvidar dessa fala de que efe, esse, eme são nomes e fê, si, mê são sons, fonemas... 

Sim, são nomes mais próximos dos "sons" que as letras representam - sem nenhum juízo de valor, nem para criticar seu uso, nem para defendê-lo. Mas são NOMES!

De novo, retomando, insistindo, militando...
Lica

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Sexta provocação sobre o abecê nordestino

Oi, gente!
Não se trata aqui, propriamente, de uma provocação, mas da indicação da estrutura do estudo sobre o tema, que será postado no blog e contará também com uma pequena publicação, contendo as 4 partes iniciais do estudo. Será editado pela EDUFBA – Editora da Universidade Federal da Bahia, e terá como capa uma ilustração de um mestre nordestino...Mas é surpresa, não direi mais nada, por ora.

A parte 5 será a comunicação da pesquisa que estou fazendo com professores (minha gente! Mandem os questionários respondidos! Estou recebendo!!!) e será postada no blog e em artigos, mais adiante, quando for finalizada.

A parte 6 será só no blog, ao menos por ora, com comentários de diversas pessoas sobre a temática. Essa parte também vai demorar um pouco mais.

Vamos lá, já tem título, sumário, estrutura:

O ABECÊ NORDESTINO
E AS LETRAS NA ALFABETIZAÇÃO

Introdução

PARTE 1: As letras e o alfabeto nordestino

a.              a.  Letras...seus nomes, seus sons, seus traçados...
b.              b.  O abecê nordestino

PARTE 2: Argumentos da história do alfabeto

PARTE 3: Argumentos da história da alfabetização

PARTE 4: Argumentos das pesquisas atuais sobre o papel do conhecimento das letras na alfabetização

a.  O contexto da discussão
b. De novo...as letras...
c. O ludismo poético das letras
d. E o abecê nordestino com isso?


Considerações provisoriamente finais

PARTE 5: As letras do alfabeto na alfabetização na Bahia: mini pesquisa de campo

PARTE 6: O ABC em várias vozes: depoimentos, relatos, comentários...

É isso, minha gente...
Em breve, posto a introdução e a parte inicial...Vou postando por partes, será resumido aqui, a versão completa sairá na publicação impressa, que será também disponibilizada para download.
Aguardem!
Lica

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Abecê do sertão

Bom, já falei que prefiro a expressão abecê do Nordeste do que abecê do sertão, porque aqui na Bahia ele não é só do sertão. Mas reconheço sua identidade sertaneja, do sertão nordestino. Claro! Imagina se eu iria contradizer o mestre Luiz Gonzaga!

Posto aqui o trailer do doc Sertão como se fala, dirigido por Leandro Lopes, que viajou com o seu coletivo por 9.500 km em sete estados no Nordeste, para investigar os usos desse modo de pronunciar as letras por aqui. O doc nos ajuda a ver que ainda existe esse abecê para além da Bahia, no interior de outros estados do Nordeste. 

O documentário está rodando festivais e, espero, possa contribuir para divulgar mais essa particularidade regional de nossa identidade cultural. Como eu não sei filmar e, muito menos compor e cantar, como Seu Lua, meu jeito de contribuir com essa discussão é pesquisando, escrevendo...


É isso, gente! Vão assistir quando passar por sua cidade, ou quando for disponibilizado.
Lica

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Quinta provocação sobre o abecê nordestino

Nessa quinta provocação, vou mostrar e comentar (mas não muito, algumas dispensam comentários!) algumas falas preconceituosas que pesquei na internet sobre o nosso modo de pronunciar os nomes das letras no Nordeste, ou que revelam desconhecimento de sua natureza, mesmo pelos que o defendem. Lógico que há também comentários muito positivos na internet, defesas, saudosismos, afetos...mas, para o argumento que estou construindo, que parte da ideia de que há muito preconceito infundado e desinformação sobre isso, por ora vou apresentar mais os negativos...e só alguns positivos, que ninguém é de ferro! 

Colei os prints, mas também os links das páginas de onde os retirei. Em alguns casos, vale assistir aos vídeos.

A partir de um vídeo no Youtube, de uma criança recitando o abecê nordestino (que nomeiam de “baiano”), vejam o comentário, "salvando-nos": a culpa é da escola que ensina assim... Ainda bem que, junto, vem um outro comentário que, de fato, salva um pouco, ao menos culturalmente..mas trazendo uma ideia equivocada de "mais correto".


Nessa outra página, UtilisInutilis, embora se apresentem como um blog de humor, de inutilidade, também o é, segundo eles mesmos, de curiosidades e informação. Vejam o absurdo: 


Mas o pior é que, aos comentários revoltados com tamanha asneira, a resposta dos administradores é só a de que o blog é assumidamente um blog de humor, como se isso fosse licença e desse aval para o preconceito e a propagação da desinformação. Nas palavras deles: 

Somos piada! Uma das maiores! E o humor justifica...

Comentários kkkkkkk pululam na internet...às vezes uma graça, inclusive de nós baianos mesmos, nos reconhecendo ao modo de Seu Lua - "engraçado ouvir-se tanto ê" - às vezes uma manifestação mais debochada.



“Rir com” é muito diferente de “rir de” – podemos até rir de algumas piadas que implicam em diferenças regionais, apesar de trazerem preconceitos e estereótipos, a gente pode rir de algumas delas e rir com eles também  – de outras regiões – sobre as coisas deles lá. Não pretendo defender a patrulha radical, mas uma coisa é brincar, a gozação quase amigável nas prosas entre amigos de outros sotaques, outra é "rir de", em cima de argumentos equivocados e preconceituosos, sem fundamento algum, e achar que se esconder atrás do argumento do humor dá conta. 

Mas aí, nesse Utilis Inutilis, não é isso, não é "rir com". É preciso se responsabilizar pelo discurso que profere; não é porque é para ele engraçado que, automaticamente está liberado para propagar informações equivocadas. Chamar-se Utilis Inutilis não é desculpa para amenizar o preconceito pesado que é passado com ares de humor sem consequência.

Não bastasse a postura deles mesmos, olha o comentário de outro, que prova exatamente isso: que a "informação" é tomada por muitos não como piada, mas como verdade. E tome-lhe mais desinformação e preconceito na interpretação e "explicação"... 


Não vou nem comentar esse...não carece. Não vale meu tempo...

Sei bem que o Facebook, o Youtube e outras redes estão repletos de preconceitos e desinformação de diversas ordens – e com baianos, então, já vimos o circo dos horrores! Tem coisa que não dá nem para considerar, tamanho despautério...ou vamos parar de acreditar na humanidade. Não sou ingênua ao fazer aqui esse recorte, sei que a questão é muito mais complexa.

Mas, de todo modo, vamos a mais algumas pérolas sobre o tema em questão, em algumas postagens, vídeos e comentários. 

Diante do vídeo, que já é de zoação, vejam os posts e comentários. Essa de baiano ser preguiçoso é antiga, mas aqui reinterpretada como preguiça até de pronunciar as letras "corretamente" – e o próprio baiano (no vídeo) reforça...se defende, mas reforçando... 


Gente! Socorro, pára que eu quero descer! Mesmo diante da canção linda de Luiz Gonzaga, mestre que dispensa apresentações, vejam os comentários:


Não Giancarlo, não "era", "é" ainda ensinado, e não por analfabetos, mas por profissionais alfabetizados e letrados. Muitos baianos ilustres, da literatura, intelectuais, das artes em geral, com reconhecimento nacional e mesmo internacional, foram alfabetizados assim. Sinto lhe informar!

E outra resposta a Ingrid J.:

Outra de envergonhar Seu Lula:

Ficou com vergonha de quê? Perdeu uma chance de apresentar a rica diversidade cultural e linguística de nosso país... 



Para falar tamanha asneira, melhor ficar anônima mesmo...


Sem comentários...

A resposta ao comentário em defesa da variedade linguística é de chorar! Noção “sem noção” do que seja certo e errado, o que seja dicionário e o que seja linguagem...


O site Vida de Programador postou a seguinte tirinha, que gerou também alguns comentários. Dêlêlê se refere aos arquivos DLL. 
Comentários:

Êita, William, então DLL necessariamente se lê dê-ele-ele? Tá puxado... E Cesar, provavelmente ninguém - ou alguns, sim, quem sabe - pronuncia dêlêlê, porque siglas com pronúncias consagradas de uma forma podem ser pronunciadas nessa forma, mesmo por quem nomeia as letras de outro modo em outros contextos. Ou se pronuncia o caminhão FNM como efe-ene-eme? E FFLCH como efe-efe-ele-che? Vejam sobre isso o post da primeira provocação, aqui

E aqui um exemplo de que até pode ser que digam dêlêlê:
Pois é, isso de achar que as letras se dão a ler transparentemente, como lemos os numerais, é frequente... Por exemplo parece ser natural que L, M, R, se leia ele, eme, erre, não é? Só que não! Veja esse aqui:


É salutar, embora esse caso seja de um relato amistoso em relação à perplexidade de conhecer o nosso abecê. Mostro:




Mas vamos a mais um caso: comentários ao vídeo com Vampeta recitando o abc...não dá pra saber quais foram os comentários do apresentador e dos outros para avaliar o tom, mas, nos comentários, sim. Desinformação, deboche, preconceito pesado... Bem como defesas igualmente “bairristas”, em disputas tampouco produtivas de qual seria mesmo o alfabeto “correto”. Começaremos pelos mais leves...

Nesse comentário abaixo em defesa do modo de nomear as letras na Bahia, aparece a confusão entre letra e som e o julgamento de “correção”, que também não procede. 


Abaixo, outra ideia que não procede, mesmo de defensores, visto que a nomeação de efe, ele, eme, ene, erre, esse e etc, chegou a nós pelo alfabeto latino e não pela “americanização” posterior da cultura ocidental, em função das dinâmicas sociopolíticas e econômicas. 


Não foi só nesse comentário que já vi dizer que seria influência do alfabeto inglês, e a referência ao fato de que brasileiro gosta de imitar os americanos. Essa é uma análise sem nenhum fundamento, pois o alfabeto usado pelos anglo-saxões, base do usado no inglês moderno, tem origem, igualmente, no alfabeto latino, como o português e as demais línguas europeias. Embora as raízes da língua falada sejam diversas, em termos de alfabeto, todos têm a mesma raiz latina (...que veio dos gregos...que veio dos fenícios...). Assim, além de equivocado  o argumento, será que precisa discordar, xingar, devolver com a mesma violência para defender o outro lado? Postas dessa forma, mesmo as defesas me parecem fragilizar a discussão.

No contexto de uma discussão sobre as pronúncias que seriam corretas das vogais E e O - se abertas ou fechadas -  surge um comentário, aqui, que defende a variação de "sotaque" quanto ao nome das consoantes também, mas incorre no mesmo equívoco de achar que nosso modo de se referir às letras não é nome, mas "entonação", pronúncia, "uso":



Justamente...se P é pê, o que impede de F poder ser fê, L ser lê? Que evidência há de que L deva ser, necessariamente, éle, e F, éfe? A afirmação toma como se houvesse uma evidência nas pronúncias em si mesmas...

Desse modo, às vezes, o que se revela nos comentários é o puro desconhecimento mesmo, não resvala ao preconceito - ou desconhecimentos como os casos acima, ou desconhecimento da existência desse modo de falar, como no caso abaixo. Nessa página de um professor português, em um post sobre a pronúncia da letra G – que em Portugal parece também oscilar entre gê e guê – o comentário é assim, com resposta certeira:


O seu Brasil, então, anônimo, não é o mesmo que o meu!

Mas essas situações, que revelam apenas a desinformação, não são nada diante das críticas pesadas aos baianos e à Bahia. Talvez ainda revoltados com os rumos da política nacional atual, talvez não...Não importa. O preconceito com nossa cultura é antigo. Vamos de volta aos comentários do vídeo de Vampeta, esse rendeu! E seguiremos com eles por algum tempo... Vamos lá, tem que ter estômago...




Ufa!!! A internet possibilitou termos a noção das asneiras que se pensa por aí... deu aval ao compartilhamento de posicionamentos absurdos, pelos que se reconheceram como muitos...

Bom, mas, às vezes, os próprio baianos dão “pano pra manga” ao preconceito, reforçando a opressão sofrida por seu próprio povo...e isso devido à desinformação, à falta de firmeza quanto a nossa identidade cultural e linguística e a certa exaltação ao que vem das outras regiões, supostamente mais “correto”. Nem todos os baianos falam assim, Daniel, mas ao desconhecer sua própria cultura, é você quem está em falta.


Não gente...principalmente se estão falando da Bahia, esse não é um jeito de decorar mais facilmente as letras ou de facilitar a aprendizagem quando criança, não se fala assim apenas na infância e, muito menos, é falar “anormalmente”. Nos referimos assim às letras, mesmo adultos, letrados. Pode até ter sido, na origem, um modo de facilitar a soletração – mas, pasmem! Isso veio da França e de Portugal, nem é “coisa de nordestino” nem originalidade baiana, ou algo do gênero. E esse “facilitar” em nada está relacionado à preguiça. No passado, antes da “colonização” do nosso abecê pelo outro dito oficial, aprendia-se assim, sem nenhum problema, mesmo na capital baiana. E em outras regiões do Nordeste também. O modo de referir a essas oito letras, diferente do outro abecê, não se limitava nem se limita à infância. Seguimos nos referindo desse modo às letras mesmo adultos – seja no passado, seja ainda hoje.

Conheço muita gente, muita mesmo, que fala assim, pronunciando as letras nordestinas nas situações sociais em que nos referimos a seus nomes (salvo nas siglas já consagradas). Podemos até usar as outras letras, mas se formos recitar o abecedário, muitos de nós só o faz com destreza, se for o nosso abecê, aprendido na infância. Na Bahia, esse modo ainda vive, ainda é ensinado e usado, para além da alfabetização, embora o outro abecê tenha substituído o nosso em muitas escolas.

Temos que buscar argumentos  mais contundentes e fortalecer esse traço de nossa identidade, e não simplesmente aceitar essa “colonização”, repetindo argumentos infundados.  Vamos defender esse uso, gente, não enfraquecê-lo!

Algumas defesas, entretanto, como essa abaixo, ficam no campo de disputas bobas, em termos de certo e errado, que não levam a nada, nem para defender, nem para criticar. Variar é próprio da língua... E aliás, essa defesa ou ataque, nesses termos de certo e errado, é “bairrista”, igualmente equivocada em termos histórico-culturais, como podemos ver:


Justamente, não tem isso de certo e errado, ainda mais quando se trata de um aspecto como esse, cuja historicidade mostra que ambos os modos tiveram origens muito remotas e ambos nos servem bem. Ambos nos servem bem! Podemos aprender a ler com efe ou com fê, são ambos legítimos. Como o último comentário acima citou, trata-se do mesmo alfabeto, só oito letras têm uma nomeação diferente. Tanto barulho por causa disso? (a questão é justamente porque isso só é um pretexto para escoar preconceitos outros, de outra ordem, com baianos e nordestinos). Inclusive, para quem se preocupa com a “oficialidade”, elas já são sim dicionarizadas, bem como, no Acordo de 1990/2009, as letras efe, gê, jota, ele, eme, ene, erre, esse são SUGERIDAS e há indicação de outras formas como realizações possíveis.

Como diz o comentário abaixo, mostrem as leis que dizem que nosso abecê está errado! Vamos buscar os fundamentos para justificar nossas posições! Vamos parar de querer justificar o injustificável – e por vários caminhos e argumentos podemos provar que são posições infundadas.


Mas em vez de revolta, de devolver na mesma moeda, prefiro me engajar em informar, em discutir a questão de modo fundamentado. Vamos reposicionar a questão, buscando informação. O desconhecimento é tanto motor de preconceito quanto da falta de firmeza na defesa desse traço de nossa identidade cultural, por nós mesmos.

No site do documentário Sertão como se falacuja equipe de filmagem, justamente, passou por diversos municípios do sertão nordestino, mostrando essa diversidade do modo de pronunciar as letras e sua relação com a cultura do Nordeste, encontramos esse comentário:


Não gente, efe não é nome e fê fonema – ele é que está confundindo palavra e fonema. Fê é o nome da letra no Nordeste. É lexicalizado, está dicionarizado. Fonema não se dicionariza, fonema não se pronuncia com ê, como já discuti em outros posts e como discutiremos mais a fundo em breve.

O desconhecimento, por vezes, é grave. Temos muitos nordestinos trabalhando e se alfabetizando em outras regiões, e recebemos nas escolas da Bahia crianças de outras regiões...Porque essas pessoas precisam passar por constrangimentos relativos a um conhecimento tão simples, de que 8 letras do alfabeto podem ter dois nomes diferentes em diferentes regiões. É tão simples de resolver – para que tanta celeuma inútil?

E isso vale tanto para quem ensina o abecê “oficial” dizendo ser a única forma correta, quanto para quem ensina o nordestino e aceita apenas essa forma. Temos duas formas, gente! Esse é um conhecimento que o Brasil todo deve ter. 

Vejam o caso abaixo relatado, bastante suis generis, que envolve diferenças entre os próprios nordestinos: os baianos, que, em muitos casos, se mantêm mais fieis ao abecê que antes circulava no Nordeste, e os pernambucanos, que, ao que parece, já o esqueceram, ou ele se manteve/se mantém apenas em algumas partes do sertão pernambucano...

De qualquer modo, diferente dos casos mais frequentes, que são de baianos que aprenderam exclusivamente o fê, guê, ji, lê, mê, nê, rê, si, e se veem confusos na alfabetização com o outro abecê, nesse caso aqui a confusão é, justamente, o contrário esse abecê (aí referido como sendo apenas da Bahia) ser imposto como o único correto. 


Percebem que a questão posta em termos de certo e errado não é favorável a NINGUÉM? Nem para assumir um abecê, nem o outro? Para ver outro relato interessante, ver aqui. Falar de diferenças regionais para aplacar o riso já instalado, como a autora do relato coloca, realmente não é bem o que resolve, mas se a diversidade for objeto de conhecimento desde sempre nas escolas, talvez possamos evitar tais constrangimentos.

Como as pessoas de diferentes regiões (e mesmo na mesma região) se deslocam por inúmeros motivos, o conhecimento, por todo Brasil, de que temos em nosso país dois modos de nomear algumas letras, é fundamental para que ninguém sofra esse tipo de constrangimento. Se nem no contexto do próprio Nordeste estamos imunes a isso, imagina entre diferentes regiões! Muita gente nem sabe que existe outra forma. Temos que, inclusive, desmistificar essa imagem do Nordeste como uma região culturalmente homogênea, tendo uma identidade única. Não é.

Agora, achar que o abc do sertão só existia na canção de Luiz Gonzaga, aí também já achei um pouquinho sem noção... e é uma nordestina! Nunca pensou no que a canção do conterrâneo queria dizer? Precisamos conhecer mais os nossos falares.

Pensando agora não em termos culturais, mas em termos linguísticos, um comentário a esse post traz, novamente, a confusão entre nome e som. Lógico que as letras nordestinas se aproximam mais do som – e por isso mesmo, tendem a facilitar a alfabetização – mas elas são nomes, não som, muito menos fonemas. Então, não tem nada a ver com método fônico. As letras, seja que nomes tiverem, representam fonemas  – isso é do funcionamento da notação da língua, não de um método específico de alfabetização, certo? 


Bom, continuando minhas pesquisas em blogs, Face, # diversas...fui achando outras coisas...
Aqui, o próprio baiano do interior diz:

Em uma postagem da página Sou mais Bahia, no Facebook, ressaltando positivamente nosso jeito diferente de pronunciar as letras, vê-se, nos comentários, ao lado da exaltação do nosso abecê, coisas assim, que passeiam entre preconceito, desconhecimento...e reações:




É isso, gente... Diante de meu interesse pelo tema, fui pesquisando na internet e colecionando alguns prints, que me davam notícias de que, sim, há muito desconhecimento e preconceito quanto ao abecê usado em algumas partes do Nordeste. Usado antigamente de forma mais ampla e, em alguma medida ainda hoje, no sertão, mas usado especialmente na Bahia, mesmo hoje, onde ainda é ensinado em muitas escolas – geralmente simultaneamente ao outro – e mesmo na capital (a pesquisa que estou fazendo com professores de municípios baianos trazem notícias concretas sobre isso, em breve vamos conhecer os resultados).

A ideia de postar esses prints foi reforçada pela professora Dinéa Maria Sobral Muniz, da Faced/UFBA, quando apresentei esse estudo para uma turma dela de estágio supervisionado em língua portuguesa. É que, embora eu tenha os colecionado em minhas pesquisas pela internet, de início, fiquei reticente em postá-los, por receio de parecer que eu estaria entrando nessa disputa, nesses termos que questiono – o que não é o caso e o que não vejo sentido.

Meu intuito ao mostrá-los é apenas argumentar, a partir de dados concretos, que essa é, sim, uma questão importante de se discutir, embora aparentemente secundária nas pautas do campo da alfabetização. E é importante tanto pela questão cultural e sociolinguística envolvida, quanto devido ao fato de que, linguisticamente, nosso abecê faz todo o sentido, por nomear as letras de modo mais próximo a seus sons, usando o princípio acrofônico de forma direta – o que é tido como favorável ao estabelecimento de relação entre grafemas e fonemas, por vários estudiosos contemporâneo – como veremos em breve.

Esse princípio, aliás, como nos ensina o linguista Luiz Carlos Cagliari, está na origem mesma do nosso sistema alfabético, desde os fenícios. Retomado pelos romanos, foi essa ideia de os nomes dar pistas mais diretas dos sons das letras que, inicialmente, estruturou o alfabeto latino. Depois, como expliquei no post anterior, é que veio o jeito de nomear com o –e antes (efe) e não depois () da consoante.

Então vamos pesquisar mais, não é gente?

E para terminar, vejam que interlocução fantástica: o desconhecimento e o conhecimento em diálogo mais cortês, aqui. E voltemos aos ensinamentos de nosso querido Gonzagão:



Saudações alfabéticas,
Lica

Quarta provocação sobre o abecê nordestino

Muita gente – não nordestinos e nordestinos – acha que o modo de pronunciar as letras no alfabeto oficial é que é a correta, a certa.
O que é certo? Será que o certo é medido pela suposta precedência, na história? Ou por, mesmo não sendo o modo usado desde as origens, ficou sendo o certo, por motivos nobres e lógicos? Ou só repetimos, sem refletir, sobre essa "última palavra": “é o certo”?

É certo porque é o que foi definido como certo pela gramática? (e na Gramática cabe tudo? Cabe a língua viva?). 

Enfim...convido-os a refletir sobre o que é isso de “certo” que se teima em repetir (até em bradar aos quatro ventos), muitas vezes sem pensar.

Bom, se for pela precedência, digo que não é: no início do alfabeto romano, a pronúncia das letras F, L, M, N, R, era definida pelo som da letra mais um som “ê” APÓS esse som consonantal, ou seja fê, lê, mê, nê, rê, como dizemos por aqui até hoje. O ef, el, em, em, er, es vieram depois, ainda no alfabeto latino, e por decisão bem arbitrária (e, depois, ficou sendo efe, ele, eme...). Ou seja, também não “é certo” por alguma lógica esquecida no tempo...Se fosse lógico, aliás, seguindo o sistema proposto inicialmente, também o V e o Z deveriam ser ev e ez e não vê e zê. Veremos como é isso em breve!

Será que saber mais sobre essas origens, tanto de uma forma de pronunciar as letras quanto da outra, nos ajudará a começar a ver a questão de outra forma? Torço que sim! Por ora, o importante é entender que se o “certo” vem de precedência ou de lógica, não é!

E se é porque a Gramática diz, e pronto, advirto, relembrando a provocação anterior: o Acordo Ortográfico, assinado em 1990 (reafirmado em 2009 e recentemente tornado obrigatório), admite que os nomes das letras SUGERIDOS "não EXCLUEM outras formas de as designar”.

Então...desconhecimento não pode ser motivo de fechar questão. Vamos buscar outros argumentos, né gente? Porque o “porque é o certo” não dá mais!

terça-feira, 11 de julho de 2017

Terceira provocação sobre o abecê nordestino

Para quem segue achando que fê, guê, ji, lê, mê, nê, rê, si são sons e não nomes das letras (outros nomes) lembro que essas formas são lexicalizadas, registradas em dicionário (Houaiss, Aurélio e outros).

Não aparecem (salvo uma delas) assim nomeadas no Novo Acordo Ortográfico (1990/2009), mas este indica a possibilidade de outras designações, após a apresentação do alfabeto convencional: “os nomes das letras acima sugeridos não excluem outras formas de as designar”.

Ah, mas o nosso guê, ah esse, sim, tem reconhecimento oficial, e não é de hoje! Consta lá no Acordo gê ou guê, podem conferir! Também em Portugal há certa alternância na nomeação da letra G (você leu gê ou guê aqui?), não há consenso, e há referências a essa questão bem antes de o Acordo a oficializar.

E para isso tudo há um motivo, uma história, que tem, justamente, a ver com o duplo valor sonoro que a letra pode ter no sistema, e com o uso do G, inicialmente, apenas com valor oclusivo, como em gato, gota, gula.

Então, sim, o som das letras guiam, também, historicamente, os seus nomes...Desde o início da história do alfabeto, como veremos em breve. Mas são nomes, não sons!
Aguardem!