Uni, duni, tê, salamê, minguê...

Uni, duni, tê, salamê, minguê...
Materiais a partir de textos da tradição oral

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Sobre materiais, produção de materiais e o que é antigo...

Raimunda era o nome dela...Dava pra se perder nos seus longos cabelos, tão compridos que eram. Enquanto dava suas aula, não dava para não nos perdermos em algum fio preso no coque, imaginando se, soltos, iam até os joelhos. As letras e os números se embaralhavam constantemente, interrompidos por esses pensamentos...
Raimunda tinha uma tesoura. Uma tesoura grande, de picote. Cortava bordas de pequenos papéis coloridos que se revelavam cheio de dentes, diante de nós, igualmente cheios de dentes em sorrisos de perplexidade... Chegavam assim os enunciados matemáticos ou as consignas de interpretação de textos, sempre embalados por cores e formas que os tornavam mais desejados, esperados, mais bem-vindos.
Os papeizinhos, que chegavam, às vezes, a nós, davam notícia de que as tesouras de Raimunda trabalhavam bastante (mas as de cortar papel, não a de cortar cabelo...esses insistiam em serem longos e misteriosos).

Eu adorava Raimunda. Eu adorava aqueles papeizinhos. Talvez eu adorasse Raimunda, porque eu adora ardorosamente aqueles pedacinhos coloridos, cobertos de palavras. 
Eu era boa aluna. Sempre fui. Nunca precisei de banca. Mas, com Raimunda, eu fazia banca. Malandra! Era na banca que os papeizinhos nos frequentavam mais vezes. E mais coloridos. Podíamos, lá, observar as linhas retas se transformarem, diante de nossos olhos e ouvidos, em lindos picotes que formavam quadrados, retângulos, círculos, embalados pela melodia forte da tesoura deslizando no papel: crec, crec... Era uma tesoura pesada, o som que fazia era potente. E eu... eu observava atenta aquela transformação, que acontecia emoldurada por meus olhos ávidos de admiração e um desejo enorme de saber fazer tamanhas delicadezas.
Não sei nada de Raimunda...tanto tempo se passou...mas quando vejo hoje no que deu a menininha, aluna na escola e na banca, fico quase com certeza de que tem um pouquinho de Raimunda em mim. 
...
Ao menos vejo olhos ávidos, embora já crescidos, diante de cores e formas, palavras e imagens, dentinhos e ondinhas, nas beiradas das coisinhas que faço. Não é só isso, claro, não é só sensorial. Expressa um trabalho de alfabetização ali. O que esses olhos ávidos dizem para mim sobre mim, eu não sei ao certo...é como se eu soubesse fazer uma mágica, que só quem me olha, vê... Eu mesma não sei bem ver. Só fazer...só faço... é muito natural... O sensorial tem peso nessas coisas de afeto pelas artes e fazeres e na memória do que foi bom de nossa passagem pela escola.

Mas é fato. Quer saber? Mesmo que eu não saiba ao certo se tudo o que lembro e conto foi mesmo exatamente como lembro e conto, tenho agora certeza, mais do que absoluta, de que trouxe um pouquinho de Raimunda em mim. 
E esses adultos de olhos ávidos também sabem da mágica que podem operar pequenos detalhes no dia a dia de uma sala de aula...valorando os gestos de fabricar coisinhas coloridas para seus alunos. São esses que vejo chegar perto de mim, querendo aprender a fazer esses materiais, deslumbrados quando percebem que podem mais do que pensavam; felizes de se verem em suas produções, pois mesmo materiais idênticos saem muito diferentes pela arte de cada um; surpresos de aprender alguma técnica bem simples, mas que nunca tinha ocorrido antes; atentos para tudo o que pode ajudar na beleza e funcionalidade do material para o uso na sala cheia de meninos e meninas aprendendo a ler e a escrever...
Mas eis que, vez por outra, encontramos um que – mesmo que com certo encanto no canto do olho – avalia essas produções como algo “meio antigo”...E aí vamos falar sobre isso de antigo.
Se antigo é esse fazer do professor, que como Raimunda cortava coisinhas para suas crianças, digo “que pena”! Que pena que a necessária profissionalização docente, combinada com condições de trabalho frequentemente sufocantes, tirou essa fabricação de materiais das agendas do professor. Que pena que não se tem mais tempo para fazer isso, que pena que há muitas patrulhas sobre a produção autoral dos professores, que pena que muitos esperam que tudo já venha pronto, padronizado... e com menos chance de despertar a lembrança de um professor por aquele ato singelo que só ele tinha de cortar o papel e de nos tirar um sorriso... Tá, se sou antiga? Sou...e sou com certo orgulho de mim por isso. Ponto!
Mas se antigo é porque são materiais feitos com papel, essa “coisa antiga”, diante de um mundo cada vez mais tecnológico, quanto a isso, também há muitos argumentos, mas estou com preguiça de desenvolver. Quem vive a sala de aula e quem experimenta os materiais, sabe bem do que estou falando. De todo modo, já escrevi um pouco sobre isso aqui, há muito tempo atrás, e lá já trago alguns desses argumentos. Por ora bastam. AQUI
Por último, e mais grave de todas as observações (e por isso desenvolverei mais detalhadamente), é de quem faz muxoxo, por julgar antigo um material que traz palavras, letras, reflexão sobre sons – essas unidades da língua menores que o texto, tão mal compreendidas em um modo tradicional de alfabetizar, e tão maltratadas quando encontramos modos mais amplos de compreender a questão da linguagem.
Ora, ninguém está negando o fundamento de base de que a apropriação da escrita se dá no contexto das práticas letradas, no convívio com a cultura escrita. Tomar o texto, e mais, os gêneros discursivos, como unidade de ensino, foi um avanço enorme nas propostas e concepções de ensino e aprendizagem da língua escrita. Mas não podemos “jogar o bebê fora com a água do banho”, como se diz. Virou quase heresia propor atividades em que a reflexão foca em letras, sons, palavras, sem o contexto de um texto (como se, aliás, jogar e brincar com sonoridades e palavras não fossem também, por si só, práticas socioculturais). A alfabetização, ainda que seja um processo discursivo, associado aos aspectos mais amplos da cultura escrita, relativos aos usos da linguagem, precisa focar também nos aspectos linguísticos, sejam esses notacionais ou fonológicos – não podemos esquecer que a notação alfabética é de base fonológica, ou seja, não é possível alfabetizar sem que essa dimensão esteja presente de algum modo. E ortográfica, ou seja, é preciso ir dando conta das convenções da escrita, perverso é esperar que descubram isso sozinhos.
Então, é preciso que se possa compreender a importância da faceta linguística (como diz Magda Soares), junto às facetas socioculturais e interativas – e nisso não há nada de antigo. As crianças são capazes de explorar inteligentemente o mundo da linguagem, dos textos, das palavras, mas também das letras, dos sons da língua, de palavras e parte de palavras... Trata-se de cognição, não de percepção. De metacognição. Refletir, construir conhecimentos na interação com os outros e com o objeto de conhecimento é diferente de treinamento mecânico, descontextualizado. 
Não há porque deixar as unidades menores que as palavras de fora das possibilidades de reflexão na alfabetização. A criança pensa – e pensa sobre tudo! Desse modo, é preciso rediscutir certas práticas e didáticas que ignoram a reflexão fonológica e o ensino sistemático de aspectos linguísticos do sistema como situações produtivas para a criança avançar nas suas construções e apropriações do funcionamento da escrita. Já viu banir as letras como algo meio “pouco” e menor no ensino da escrita? Já viu que absurdo tomar unidades como sílaba, fonema quase que como “palavrões”? Claro que a questão é COMO se faz isso. Não precisamos sair do oposto de uma alfabetização mecânica, baseada no ensino descontextualizado e repetitivo de letras e sílabas para o extremo de banir essas unidades do processo de ensino da língua escrita. É perverso não abordá-las, ou abordá-las muito assistematicamente em situação de uso dos textos, mas esperar das crianças que construam sozinhas esses conhecimentos. As situações de usos de textos podem ser também sistematizadas para se refletir sobre a notação escrita. Aliás, não é justo isso que propomos ao partir de textos da tradição oral? 
E aí, justamente, é que os jogos e materiais diversos para a alfabetização entram, como possibilidade metodológica produtiva de reflexão sobre a língua em contextos lúdicos e letrados. Assim, longe de antiga, a concepção que embasa os usos desses materiais é muito contemporânea, pois, assumindo a escrita como prática social e sistema complexo de notação da língua, busca caminhos para articular as aprendizagens linguísticas às socioculturais e discursivas, já liberta de concepções hegemônicas que, ao questionar os velhos métodos, jogaram fora junto aspectos importantes para a alfabetização. 
De qualquer modo, embora possibilitando situações de reflexão sobre a escrita baseadas em concepções contemporâneas de alfabetização, esse momento de fabricação e conversa, de recorte e picote, de colagem e bricolagem, me lembra, sim, um viés de tempo mais antigo, mas bem produtivo e positivo, em que as professoras faziam manualidades para levar aos seus alunos, num gesto jeitoso que, certamente, deixa marcas. Como Raimunda me deixou.
Se há algo de antigo relativo aos materiais que proponho nas oficinas, não é o seu uso ou as concepções subjacentes a eles. Talvez sim (ou não) os próprios materiais – artesanais na contramão de um mundo cada vez mais pré-fabricado – e a sua produção pelos próprios professores – que já não têm tempo, que “querem tudo pronto”. Eu ainda acredito em professores que querem ser autores de sua prática, que não querem tudo pronto, que querem sua marca e de suas turmas em recursos pedagógicos que selecionam, utilizam e produzem. Desse antigo outro - ah, desse - eu quero sim que falem, desse tenho orgulho!
Lica  

Texto escrito no período das Oficinas de produção de material para alfabetização na FACED/UFBA, em maio de 2017.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Pesquisa sobre Jogos e materiais pedagógicos na alfabetização

Como vocês que me acompanham sabem, tenho pesquisado e desenvolvido, já a algum tempo (desde 2001), um acervo de materiais e jogos de apoio ao trabalho de alfabetização. De início, eu usava esses materiais em alguns contextos de formação de professores, mas especialmente em minhas aulas de didática da alfabetização, na Unijorge, onde eu lecionei por 8 anos. 

Foram os próprios alunos que me pediram para que eu os ensinasse a produzir esses materiais...E assim surgiram as oficinas de produção de material. Fiz oficinas na Faced, no curso de formação que a UFBA desenvolveu com professores da Rede Municipal de Salvador – o Projeto Salvador – e em muitos outros contextos. Já são muitos anos de produção, divulgação e envolvimento com jogos e materiais pedagógicos para a alfabetização.

Já intencionando tornar esse trabalho mais acadêmico, procurei sempre apresentar e produzir artigos com essa temática, durante minha pós-graduação, ao lado das produções e apresentações da tese, que não focam a alfabetização inicial.

Desde 2014, quando ingressei na Universidade Federal da Bahia como professora concursada, venho me organizando para tornar esse trabalho com jogos, materiais e oficinas articulado tanto ao ensino, quanto à pesquisa e extensão. No ensino, está presente em minhas aulas de Alfabetização e letramento – componente pelo qual fiquei responsável na Faculdade – e eventualmente, também no Estágio Supervisionado – componente em que estou igualmente envolvida. Cabe ressaltar que, por esse interesse em especial, também orientei, durante esse período na UFBA, alguns Trabalhos de Conclusão de Curso sobre jogos na alfabetização.

A partir de 2015, comecei a esboçar a pesquisa “Jogos e materiais pedagógicos na alfabetização”, apresentando um primeiro esboço no Geling - Grupo de pesquisa do qual faço parte na Faculdade de Educação, e ao qual a pesquisa se filia.

Em 2016, organizei o projeto e consegui dois bolsistas pelo Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC), bem como se juntaram a nós algumas estudantes voluntárias – geralmente alunas minhas dos componentes Alfabetização e letramento ou de Estágio. E, assim, começamos a desenvolver a pesquisa.

A pesquisa tem como objetivo maior discutir o papel da dimensão material da ação e na formação docentes, buscando identificar, analisar, desenvolver e divulgar jogos e materiais pedagógicos (bem como seus usos e as concepções subjacentes) nas práticas alfabetizadoras da Educação Infantil (4 a 5 anos) e do 1º ao 3º anos do Ensino Fundamental (com foco, especificamente, na Rede Municipal de Ensino de Salvador), ampliando o conhecimento sobre esses recursos pedagógicos nas instituições escolares e também no contexto de formação inicial de professores, na Universidade, a partir da pesquisa, produção permanente e mobilização de acervos.

Nas escolas da rede, propomos fazer um levantamento de acervos, discursos e práticas referentes a jogos de linguagem e materiais pedagógicos na alfabetização, bem como uma intervenção nas salas de aula – numa perspectiva de pesquisa etnográfica colaborativa. Apostamos no fato de que conhecer esses discursos e práticas possa desencadear uma discussão importante sobre a problemática da pesquisa, tanto no contexto escolar, quanto na instituição formadora.

A equipe de pesquisadores irá produzir jogos e materiais de acordo com as turmas em que a intervenção será desenvolvida, em oficinas que serão também abertas aos professores da rede e a interessados em geral, constituindo-se como atividade de extensão. A ideia é que cada participante saia com seus kits e, no caso das pesquisadoras, kits que serão usados na intervenção nas escolas.

A intervenção nas salas de aula se desenvolverá em colaboração com as professoras regentes, numa perspectiva de pesquisa com a escola, com os professores, e não sobre a escola e sobre os professores. Pesquisas e mais pesquisas são feitas sobre a escola, como se os seus efeitos naturalmente pudessem chegar  a elas. O intuito aqui é trabalhar junto com a escola, favorecendo a construção compartilhada de saberes e fazeres dos pesquisadores e professores. 

Ao lado de seus acervos pessoais, os bolsistas da pesquisa confeccionarão, igualmente, materiais para uso na Faculdade – por docentes e discentes, em contextos diversos (aulas, estágios, pesquisas discentes etc), constituindo-se um Laboratório de Acervos Pedagógicos (LAP). Essa ação favorece, a reflexão sobre essa dimensão material no contexto da formação de professores, a partir da ideia da constituição de uma "paleta metodológica" do futuro professor, como sugere Meirieu, em seu livro O cotidiano da escola e da sala de aula.

Ressalta-se, no entanto, que essa dimensão material da ação docente, e toda essa ideia de produção de material em contexto de formação de professores, longe de estarem ancoradas em uma perspectiva instrumental e tecnicista, apoia-se em firmes concepções de alfabetização, de linguagem, de aprendizagem; na compreensão do papel dos aspectos notacionais e fonológicos na apropriação da escrita; nos aspectos didáticos relativos aos objetivos de aprendizagem; considerando igualmente, as etapas necessárias à produção de materiais didáticos produtivos. Essa discussão tem relação com a problemática da pesquisa, tal qual fundamentada e discutida no projeto.

Recentemente, inclusive, a pesquisa foi beneficiada pelo Programa de Apoio a Jovens Doutores (PROPESQ) e terá direito, além de a mais um bolsista,  a recursos financeiros para itens de capital e custeio, favorecendo o desenvolvimento dos materiais do LAP. Com isso, contaremos com equipamentos e todo o material necessário para a produção e manutenção do acervo de jogos e materiais da Faculdade de Educação.

Além da constituição do acervo, novos artigos foram e serão escritos para divulgar a pesquisa e todas essas ações a ela articuladas.

Há, assim, em todas essas ações, uma intenção de alçar tanto a dimensão material da ação docente, quanto os aspectos linguísticos da alfabetização, a um lugar mais prestigiado nas práticas alfabetizadoras. A intenção da pesquisa é, justamente, argumentar que os jogos e materiais pedagógicos podem constituir, junto com outras estratégias, em recursos importantes e interessantes nas metodologias que enfatizam os aspectos linguísticos da apropriação da escrita, ao lado dos aspectos sociodiscursivos e interativos, em contextos lúdicos, reflexivos e letrados. Porque não se trata, evidentemente, ao enfatizar os aspectos linguísticos, de manter e/ou retornar a práticas mecanicistas, reducionistas, mas de considerar as especificidades das aprendizagens da notação alfabética, numa perspectiva de linguagem escrita como prática social e sistema complexo de notação, que é preciso se apropriar para participar mais amplamente da cultura letrada. A questão é como trabalhar esses aspectos, e aí entram os jogos e materiais e a discussão sobre o seu alcance, limites e possibilidades no ensino da língua escrita.

Desse modo, creio que concretiza-se, nesse momento, minha intenção de trazer as oficinas e os acervos – no âmbito dessa discussão maior sobre a dimensão material da ação e formação docente – para a minha vida acadêmica, articulando pesquisa, ensino e extensão.

Tudo isso para dizer que esse trabalho ganha agora essa dimensão e estou feliz dessa trajetória, aqui bem resumidamente relatada. 

Por ora, é isso!


Lica

domingo, 18 de setembro de 2016

Oficina Eva Furnari

Oi, gente!
No ano passado fiz uma oficina, que chamei de Eva Furnari e a brincadeira com a linguagem oral e escrita, na Ciranda do Brincar, evento da Faculdade de Educação da UFBA, por ocasião da Semana Mundial do Brincar. Postei fotos da oficina no Facebook e Instagram do Blog e, vira e mexe, me perguntam sobre a oficina e sobre as caixinhas com os materiais a partir dos livros de Eva. Pois bem, resolvi contar um pouquinho aqui sobre isso, tá? Mas só um pouquinho, para não perder a graça de quem vai, ainda, participar...pois pretendo, sim, fazer mais vezes. 

Como vocês podem ver, para começar, tento cuidar do clima, arrumando as coisas para remeter ao universo de Eva... Uma toalha de bolinhas ali (mesmo eu de blusa preta de bolinhas brancas...), coisiquinhas, elementos para trazer o universo até a sala de aula da Faced. Espalhei os nomes dos personagens de Eva pela sala toda...um jeito de trazer essas sonoridades e esse universo já na chegada... E é cada nome!!!  


Então...Depois de entrarmos no universo da autora, com seus personagens engraçados e seus nomes cheios de trocadilhos e sonoridades, de nos apresentarmos à moda de Eva, como ela se apresenta em Pandolfo Bereba, com alguns de seus defeitinhos e qualidades - que dialeticamente são os mesmos - nós entramos, enfim, no mundo das narrativas. Fomos conhecendo Pandolfo através do acionamento de estratégias de leitura várias, fomos descobrindo as estratégias narrativas da autora com livros como Umbigo Indiscreto... e passeando por diversos gêneros textuais, que são fonte de brincadeiras em alguns livros dela - como Felpo Filva, Operação Risoto, dentre outros, de forma mais eventual. Para isso Felpo Filva é imbatível! Adoro! E, assim, entrando pelas histórias e seguindo pelos gêneros de texto, chegamos às listas!

E chegamos pela via do livro Listas Fabulosas, que já comentei aqui e aqui.  O livro traz várias listas engraçadas, sempre com sete itens, cada uma sendo a lista de um personagem... Tem lista das profissões mais difíceis do mundo (tipo dentista de jacaré, babá de onça...), de coisas que não sevem para nada, de nomes preferidos de duplas caipiras inventadas, dentre várias outras. Tudo isso é contextualizado em uma narrativa que conta sobre o clube das listas de uma cidade inventada. Inventa é coisa, essa Eva! 
 
Para explorar o livro na oficina, fiz uma caixinha (caixona) que contém as listas (que dei uma para cada dupla ou trio), um dado gigante com os personagens (escolhi só 6, pois dados com mais faces é mais difícil de confeccionar - mas chegarei lá!). E tem também carteirinhas de sócios do clube das listas - aí só firula para ajudar formar os grupos. Pois bem, a ideia é simples, mas correu de forma muito bacana. Pedi que cada grupo (dupla ou trio) produzisse mais um ou dois itens de sua lista e, depois, pedi a um assistente para lançar o dado. O personagem que saísse no dado indicaria a lista que deveria ser lida, pois cada uma delas tem o nome de seu dono-personagem. E assim foi...fomos achando graça das listas - que ainda não tinham sido lidas para o grupo - e das propostas de itens dos colegas. Rimos bastante. E foi um jeito diferente de ler o livro...

Inacreditável! Das listas, passeamos ainda pelos problemas matemáticos...é... teve quem se remexeu na cadeira ou amoitou, matemática sempre parece assustar um pouquinho a quem muito se interessa por literatura. Não, não é a oficina errada, Eva também brinca com a matemática, em seus livros. São eles: Os Problemas da família Gorgonzola e Problemas Boborildos. No fim, estava todo mundo relaxado brincando com operações e situações esdrúxulas a resolver. 

A famosa Bruxinha finalmente chegou com Truks, para apresentar as narrativas sem texto de que Eva muito gosta. Depois de explorar o livro, assistimos a um vídeo em que a autora conta de suas criações e da Bruxinha em especial (aqui). E a bruxinha chegou fazendo muita a-tra-pa-lha-ção! Espalhou as letras e as sílabas por toda a sala... Mas não conto o que a gente fez para catar tudo, senão perde a graça da oficina, ok? Mas garanto que foi uma surpresa só! 

E não é que, de repente, a bruxinha apareceu em pessoa? Ganhei essa Zuzu (quando ela ganhou um nome, era esse...mas continuo preferindo Bruxinha) de uma amiga querida, Ana Lúcia Antunes. Ela não podia faltar, né? Surgiu de repente, também de dentro de uma caixinha...(caixona). E veio fazer parte da brincadeira!

E como a bruxinha tem muitos amigos, trouxe uma caixinha antiga que tenho, do livro O Amigo da bruxinha. É um livro sem texto, com historinhas curtas em imagens, cada qual, na sua maioria, com 6 tiras. Para a caixinha, as tiras foram fatiadas, cada história com sua cor (calma! não cortei o livro, escaneei e imprimi...ou fiz cópia colorida, não lembro mais...). Para cada grupo dei uma história embaralhada, para montar a história. Depois conferimos para ver se ficou diferente da do livro... Tudo isso, pano para muita manga e conversa...

Remontar a história é muito bom para fazer um pouquinho de fumacinha na cabeça pensando na estrutura  da narrativa. É ótimo para depois produzir os textos por escrito, seja com as crianças, seja em outros contextos - eu mesma faço isso às vezes para, depois de fruir das histórias criadas, discutir sobre coesão textual, estrutura da narrativa e sobre a diferença entre história e discurso. Bom, mas nessa oficina, mais vapt vupt, apenas montamos as histórias e brincamos com os enredos, sem escrever.

Daí saímos das narrativas e fomos para a tradição oral e o texto poético...para brincar com as palavras... 


O kit Adivinhe se puder foi feito a partir do livro de mesmo nome e trata-se de um livro de adivinhas da tradição oral, que Eva selecionou e ilustrou. Eva é ilustradora também, vocês sabem, né? O kit conta com as cartelas com as perguntas-adivinhas e as respostas escritas. Um grupo fica com as perguntas, outro com as respostas. Uma folia para descobrir! Sabendo oralmente as respostas a cada uma, mesmo quem não sabe ainda ler com autonomia pode achar as palavras escritas que respondem à adivinha, seja por meio de dicas (começa com a letra A...Tem 5 letras...), seja por meio de indícios, de pesquisa inteligente sobre letras, seus sons, pedaços da palavra... Ver sobre isso aqui nesse post. 


Brincar com as palavras é com Eva mesmo!!! Seus 4 livros mais marcantes nesse sentido, são o Não confunda, o Você troca?, o Assim assado e o Travadinhas. De três deles eu fiz caixinhas, com a proposta para a oficina. São coisinhas simples, mas que quando apresentadas assim, bonitas, guardadinhas, com a surpresa prontinha para sair da caixa, vira festa! Começamos com o Não confunda - o livro que diz o avesso do que diz, porque a coisa mais certa a fazer aí, é confundir para brincar... Ela diz, na verdade: confunda! Confunda para brincar com os sentidos e as sonoridades... Então, aceitamos o desafio! 

Na caixinha Não confunda, forrada com tecido de bolinhas, tem só pares de palavras rimadas e papeizinhos para cada um escrever seu "não confunda"... Para quem conhece o livro, sabe do que eu estou falando. Para quem não conhece, segue um exemplo. No livro diz, por exemplo: "Não confunda...ovelha abelhuda...com abelha orelhuda...". Criar "não confundas" é isso aí mesmo, achar pares de rimas, trocadilhos, graças com as palavras. 

Para dar uma forcinha, a caixinha tem alguns pares de rimas, para ajudar... como: "metida/fedida", "robótico/estrambótico" "amarelado/empinado", "nojenta/briguenta", "remela/janela"...e por aí vai... Mas depois que o sujeito pega o jeito, nem precisa mais das sugestões. A mente já vai logo vasculhando palavras e confundindo-as para criar pares espertinhos de "não confundas"... Experimentem! As crianças amam!!! Com elas, geralmente, se começa com coisas simples, sem cobrar tanta burilação, seja de ritmo, seja na construção da graça. Mas algo que rime. Por exemplo, pode até começar com o nome: "Não confunda Gabriel com pastel". É simples, mas pra fazer com mais graça e burilação, dá trabalho...tem que pensar na coisa que vai trocar e pelo quê, achar algo interessante, pensar no ritmo dos versos e nas sonoridades, achar trocadilhos produtivos. Um trabalho poético e tanto! Exercitem!

O Assim, Assado só fizemos ver...não tem caixinha, por enquanto. O livro é de pequenas situações sapecas... Não achei jeito de provocar uma produção de "assim assados"... Mas uma possibilidade que pensei...mas não fiz ainda...é dar o mote, ou seja, dar o Era uma vez + o personagem...e aí cada um criar sua situação. Exemplos da autora: "Era uma vez, um médico aprendiz...quando operava a paciente, aumentava-lhe o nariz", "Era uma vez, um time da pesada...jogava futebol, com bola quadrada"... 

Agora, o Você Troca?...ah, esse sim, tem caixinha. Colei papeizinhos com linhas e o título Você Troca? em um bloco maior de Post-it e pronto! Tá pronta a caixinha do Você troca?. O livro é isso aí mesmo...coisas engraçadas e rimadas para trocar, uma espécie de classificados poéticos, tipo assim: "Você troca um mamão bichado...por um bichão mimado?". E assim foi. É simples, mas dá trabalho...Como no Não confunda, tem que pensar na coisa que vai trocar e pelo quê, no ritmo dos versos, nos trocadilhos, se for o caso, e nas sonoridades, especialmente as rimas, mas não apenas... Depois da leitura, cada um foi fazer seu "você troca", que montamos em um mural...

É preciso lembrar que as ilustrações dão um sentido a mais e uma graça toda especial aos "não confundas", "você trocas" e "assim assados" nos livros da autora... Não podemos deixar de chamar a atenção a esse elemento ao ler e fruir desses livros. 
Travadinhas...falta esse. Tenho chamego por todos, mas esse gosto há muito tempo, quando eu ainda trabalhava em escola e tinha uma versão diferente do que é editado agora (só acha em sebo, agora). Mas falo disso daqui a pouco. O Travadinhas é um livro com pequenos textos que são verdadeiros trava-línguas, com situações com a graça peculiar de Eva Furnari. Tipo: "O monstro branco tem tromba preta e o monstro preto tem tromba branca", "Chilique de bicho de luxo é um lixo, e chilique de bicho de lixo, é um luxo" - tente falar rápido!!!  Pois é, a caixinha das Travadinhas compõe-se, justamente, desses textinhos da autora, para cada um retirar e ler o mais rápido que conseguir... Não precisa dizer que demos muitas risadas, não é? Simples assim! 

As travadinhas, como os trava-línguas, são isso, né? Travar e destravar a língua, para brincar com as palavras, que, do modo em que estão organizadas nos textos desafiam a pronúncia. Trava-línguas (e as travadinhas, nisso) são ótimos contextos para a reflexão fonológica, no nível dos fonemas e unidades intrasilábicas (como os encontros consonantais, por exemplo), seja no nível epilinguístico (só brincar, sem controle deliberado e consciência plena das unidades fonológicas), seja no nível metalinguístico (refletindo de forma mais consciente e deliberada, observando a relação entre a escrita e o oral: que sons parecem se repetir e desafiam nossa pronúncia? Vamos observar no texto, que letras grafam esses sonzinhos que se repetem?). Os fonemas consonantais são unidades mentais e muito abstratos para uma cabeça não alfabetizada. É difícil pensar neles separados dos sons das vogais, que se ligam a eles na emissão sonora, pois a fala é co-articulada. E um jeito de se prestar atenção a eles é justamente no contexto dos trava-línguas e de textos poéticos que recorrem a essas aliterações (repetições de fonemas consonantais). Sim, gente! É preciso entender um pouquinho de fonologia e do trabalho lúdico com a consciência fonológica para alfabetizar!

Mas voltando ao livro Travadinhas antigo, nesse, os textos eram maiores e usávamos, na escola em que eu trabalhava, para brincar com essas aliterações e para trabalhar com a ortografia. Exemplo de texto: 

Xavier se queixou pro chefe da cozinha:
- Poxa! Chega de chucrute murcho com chuchu! 
Quero churrasco de salsicha 
e bolacha de chocolate com chantilly!
O xucro do chefe trouxe churrasco de chantilly 
e biscoito de salsicha com chuchu.

Viram que os textos são bem maiores? Pois é. Esse dava pra brincar com o fonema /x/, que pode ser grafado com X ou CH, dava uma ótima situação para trabalhar a ortografia.

Pois bem... Depois de brincar com tantos textos e palavras, com sonoridades e ritmos, e depois de falar sobre aprender sobre a língua em situações lúdicas e letradas, não podíamos deixar de lembrar que é preciso não perder de vista o texto literário, quando o tomamos para refletir sobre aspectos linguísticos da apropriação da linguagem escrita. Precisamos discutir sobre a função estética não ser engolida pela função pedagógica. A função primordial da literatura é encantar, fruir, sua natureza é estética, artística. Não podemos abordar pedagogicamente os textos, matando justamente essa natureza literária - tomando o texto como pretexto, como dizem... Mas defendo muito que a análise da língua pode ser - a depender de como fazemos - muito produtiva para ampliar, inclusive, a fruição literária...para durar nos textos...fruir mais amplamente deles... Afinal, as sonoridades, as rimas, as aliterações são matéria da poesia tanto quanto da alfabetização. 

É isso gente! A oficina termina com uma festa da Bruxinha - que nem deu tempo de a gente preparar - mas que deixo como curiosidade para a próxima, ok? Próxima oficina, próxima postagem... 

Espero que tenha dado uma ideia (só uma ideia...) da oficina e inspirado vocês, seja a ler mais Eva Furnari, seja a brincar com seus textos...e, quem sabe, a fazer umas caixinhas...

Um beijo e um queijo,

Lica

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Oficinas...

Ando com muita, muita saudades das oficinas... Por conta do doutorado, depois do concurso, depois do tanto de coisa que fazemos na Universidade, ainda não consegui retomá-las...Nos últimos tempos têm acontecido apenas de forma pontual, breve, em um ou dois encontros, sem aquele tempo de dedicação que faz toda a diferença... "Uma terapia" diziam os participantes! 


Mas retomarei em breve, no contexto mesmo da UFBA, como Extensão, em diversos formatos.

Seja para os nossos estudantes, atividade ligada aos componentes de Estágios Supervisionados e de Alfabetização e Letramento - estou envolvida em ambos - seja para os estudantes interessados em geral, sejam ainda oficinas abertas ao público em geral, quero fazer esse compromisso comigo mesma e com vocês que me perguntam, escrevem, me provocam nos corredores da Faced...

Além disso, estou elaborando um projeto de pesquisa sobre jogos e materiais para alfabetização, ligada a meu grupo de pesquisa na Faced/UFBA, e articulada a essa pesquisa haverá também ações de Extensão nesse sentido. Falarei mais em breve. Já a apresentei em alguns eventos científicos, falta detalhar as ações e mandar ver!

Por ora serão oficinas presenciais - não há outro jeito para produzir material - mas quem sabe penso depois em um formato para contemplar quem está longe, não é? 

Enfim...o post é só um desabafo, uma promessa, um modo de me comprometer mais em fazer acontecer logo!

Ando muito, muito saudosa das oficinas! 

Abraço,
Lica

quinta-feira, 11 de junho de 2015

E a catacrese?

Oi, gente!
Fiz dois posts comentando sobre a catacrese, figura de linguagem muito usada na nossa língua cotidiana. Por isso, senti necessidade de fazer um post dedicado a ela. 

O primeiro post em que a citei, foi aqui. E o segundo foi esse anterior, aqui, ontem mesmo.

Como comentei lá no post anterior, muitas vezes, as palavras têm um sentido que revela o uso de uma figura de linguagem chamada catacrese, que é uma espécie de metáfora que se cristalizou pelo uso. Quando usamos, por exemplo, "pé da mesa", “braço de mar”, “olho do furacão”, tomando de empréstimo as palavras “pé”, “braço” e “olho”, usando-as fora do seu sentido habitual, estamos fazendo uso da catacrese. Muito frequentemente, essa transposição tem relação com uma vaga semelhança entre um conceito e outro, como o pé da mesa ser algo que se remete, de algum modo, aos pés humanos. 

Expressões com pé são inúmeras! Aqui no blog tem um post com expressões com pé, vejam lá: aqui.

Haja partes de nosso corpo para virar catacrese! Mesmo em enunciados bem sérios, olha só: “Isso é a cara desse país”, “o desenvolvimento é corpo do trabalho acadêmico”... Quer ver como usamos muitas catacreses no nosso dia a dia? 

Pé de mesa, pé de página, braço de cadeira, batata da perna, orelha de livro, dente de alho, cabeça de alho, asa da xícara, fio de azeite, coração da floresta, maçã do rosto, coroa do abacaxi, casa de botão, boca da noite, céu da boca, cabeça de prego, raiz do problema, folha do livro, cabeça de repolho, olho do furacão, olho da rua, boca do túnel, banana de dinamite, cabelo de milho, pele de tomate, leito do rio, trânsito engarrafado, embarcar no avião...

Vejam o caso da expressão “embarcar no avião”. Originalmente usada para a entrada em um barco, hoje é utilizada para entrar em qualquer meio de transporte: avião, metrô, trem, ônibus... E engarrafar? Já pensou nisso?

A catacrese é uma espécie de metáfora esquecida...

A metáfora é um recurso fundamental da poesia...mas não é usada só em gêneros poéticos, lógico! Ela é uma das ferramentas essenciais para desembolorar as palavras, dar a elas novos usos, refrescá-las! Na metáfora há uma transferência da significação própria de uma palavra para outra significação, como uma comparação implícita que o autor faz, criativamente. 

Mas pense: se a metáfora é essa figura de linguagem que consiste em empregar uma palavra em um sentido que não lhe é comum ou próprio numa relação de semelhança entre os dois termos, então, a catacrese é uma espécie de metáfora!

Sim, mas é uma metáfora repetida, gasta, diferente da metáfora poética que desembolora as palavras – que é o ofício do poeta! É uma metáfora que foi usada por falta de uma palavra específica para designar um termo, havendo então um desvio de sentido. A catacrese ocorre quando, por falta de um termo específico ou melhor para designar um conceito, toma-se outro por empréstimo. Trata-se de termos inicialmente usados apenas para suprir uma lacuna de um termo específico para tal, mas que foram usados tantas vezes que seu uso se cristalizou, passando a constituírem expressões que têm significados bem próprios. Por isso é como uma metáfora esquecida... Esquecida de seu papel de uso inusitado, conotativo...

Tendo a metáfora como referência de figura de linguagem emblemática da poesia, uns dizem que a catacrese é uma metáfora “obrigatória”, imperativa. Usa-se a palavra fora de seu significado usual, mas, pelo uso, ela se impõe, e já não é percebida como se empregada em um sentido figurado – isso que é próprio da metáfora. Assim, a catacrese é metáfora por nascer do princípio da comparação, da similaridade; é esquecida por já não ter a força conotativa; e é "obrigatória" por ceder antes a um imperativo de uso do que a necessidades expressivas e intenções poéticas

Quando dizemos, então, que a catacrese é uma metáfora gasta, usada por falta de termo específico ou melhor, há aí um sentido negativo dessa figura de linguagem. Esse sentido negativo é reiterado pela própria origem do termo catacrese: a palavra vem do latim catachresis, que tem origem no grego katakhresis, que significa “mau uso” – e no caso aqui, mau uso das palavras! Guardemos essa ideia, mas para a desconstruirmos em seguida...

Entretanto...(e aqui vamos começar a desconstruir e nuançar um pouco essa ideia negativa...retirar a catacrese desse lugar de “mau uso”...) ...ela pode voltar à poesia... como podemos ver nos poemas de José Paulo Paes, Inutilidades, Atenção Detetive e Pura Verdade. São poemas que brincam, essencialmente, com as catacreses. Duas delas estão no post já citado acima - e estão aqui. Outra, aqui:

PURA VERDADE

Eu vi um ângulo obtuso
Ficar inteligente
E a boca da noite
Palitar os dentes.

Vi um braço de mar
Coçando o sovaco
E também dois tatus
Jogando buraco.

Eu vi um nó cego
Andando de bengala
E vi uma andorinha
Arrumando a mala.

Vi um pé de vento
Calçar as botinas
E o seu cavalo-motor
Sacudir as crinas.

Vi uma mosca entrando
Em boca fechada
E um beco sem saída
Que não tinha entrada.

É a pura verdade,
A mais nem um til,
E tudo aconteceu
Num primeiro de abril.

Além de seus usos poéticos possíveis, temos que lembrar que a língua e as figuras de linguagem não estão a serviço apenas da poesia, mas da língua, da língua de todo dia...

Por exemplo, é bom reparar que a catacrese tanto pode acontecer ocupando o lugar de uma palavra faltante (como em "embarcar no avião") quanto substituindo um termo exato ou técnico por um menos formal ("barriga da perna" em vez de panturrilha, "céu da boca" em vez de palato). Vê como a linguagem é danada e, no dia a dia dos falantes, vai ganhando asas?!

Então, precisamos não nos apegar ao sentido negativo dessa figura de linguagem.

Acontece que a catacrese, com seus neologismos semânticos, funciona, de todo modo, como um mecanismo de formação de novos sentidos para as palavras, de ampliação do léxico. Hoje usamos "encaixar" com o sentido de colocar algo em um espaço onde ele cabe perfeitamente, mas originalmente, encaixar significava colocar em caixas... Há assim também um enriquecimento da língua, de seu dinamismo, pelos usos “gastos de metáforas esquecidas”!

O que seriam os engarrafamentos se não houvesse a catacrese? E dos pés de galinha, que seriam só rugas como tantas outras... a língua precisa da catacrese... e mesmo a poesia a acolhe de volta! 
Vejam vocês: a catacrese não é matéria bruta para muitas brincadeiras com as palavras e para a poesia? Muitos autores não brincam, justamente, com as catacreses? Falamos de José Paulo Paes, mas ele não é o único.

Eva Furnari, mestra em brincar com as palavras, traz uma lista baseada em catacrese em seu livro “Listas Fabulosas”. É a lista da personagem Olfa, que brinca com essas inutilidades, entre o sentido real e a catacrese. Já postei sobre isso, também aqui.
Outro exemplo é a canção “Composição Estranha”, de Ronaldo Tapajós e Renato Rocha, que usa ao mesmo tempo metáforas e catacreses:


Usei a cara da lua
As asas do vento
Os braços do mar
O pé da montanha
Criei uma criatura
Um bicho, uma coisa
Um não-sei-que-lá
Composição estranha

O coração da floresta
Batia em seu peito
E a sua voz
Boca da noite
Para sua voz
Boca da noite
Para sua voz

Reparem que na primeira estrofe, nos versos 1 e 2, ocorre uma metáfora, pois há aí uma relação de similaridade novidadeira entre os termos "cara" e "lua" e os termos "asas" e "vento". Nos versos 3 e 4, apesar de pressupor o mesmo processo metafórico, as palavras "braços" e "pé" foram empregadas fora de seu contexto próprio a partir de outro recurso, a catacrese. No verso 1, 4 e 6 da segunda estrofe também ocorre a catacrese. 

Tem até cordel para explicar a catacrese! 


Catacrese
De falar de catacrese
chegou a vez afinal:
é palavra usada fora
de seu sentido real,
mas que, por falta dum termo
próprio, se torna usual. 

Uma cabeça de prego
eu encontrei na madeira;
Esse menino se senta
só no braço da cadeira;
Rasgou-se a manga da blusa
vou atrás de costureira.

Ontem na perna da mesa
uma topada levei;
Me tremi de medo quando
no avião embarquei;
Nessa sopa tão gostosa
um dente de alho botei.

É um cordel do livro "As figuras de linguagem na linguagem do cordel", de Janduhi Dantas, Editora Vozes. Já no livro "Crônicas da Norma: pequenas histórias gramaticais", de Blandina Franco e José Carlos Lollo, Ed. Callis, os autores explicam a catacrese assim:

" - Quebrei a catacrese!
Putz, não pode ser! Justo a catacrese? Ela era a minha menina dos olhos!
- Pois é...
- Mas você é desastrado mesmo! Semana passada quebrou o braço da cadeira, na outra o pé da mesa...
- Mas o pé da mesa quebrou porque você não martelou direito a cabeça do prego que prendia ele.
- Ah, então a culpa é minha! E a asa da xícara, você quebrou por quê?
- A asa da xícara eu quebrei porque o chá queimou o meu céu da boca!
E a catacrese? Quebrou por quê?
- A catacrese foi sem querer!  Você acha que eu ia quebrar a catacrese de propósito?
- De propósito não, porque você sabe que se fosse de propósito eu dava um soco na boca do seu estômago!
- Você não teria coragem!
- Teria sim! E quebrava a maçã do teu rosto!
- Duvido!
- Duvida? Eu ainda mordia a tua batata da perna!
- Ah, é? Então vem! Vem!

E os dois se engalfinharam e começaram a brigar e quebraram tudo o que ainda estava inteiro naquele lugar. Não sobrou nem um dente de alho, nem uma orelha de livro, nem uma boca de fogão ou de garrafa pra contar a história."

Acho que agora deu pra entender, né?
...e sigamos brincando com a linguagem...
Abraço,
Lica


P.S. Se não entendeu, precisa de mais um exercício. E se entendeu, mesmo assim, mostre que está sabido(a) em catacrese, marcando todas as que aí aparecem no texto acima.