Uni, duni, tê, salamê, minguê...

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Materiais a partir de textos da tradição oral

quinta-feira, 11 de junho de 2015

E a catacrese?

Oi, gente!
Fiz dois posts comentando sobre a catacrese, figura de linguagem muito usada na nossa língua cotidiana. Por isso, senti necessidade de fazer um post dedicado a ela. 

O primeiro post em que a citei, foi aqui. E o segundo foi esse anterior, aqui, ontem mesmo.

Como comentei lá no post anterior, muitas vezes, as palavras têm um sentido que revela o uso de uma figura de linguagem chamada catacrese, que é uma espécie de metáfora que se cristalizou pelo uso. Quando usamos, por exemplo, "pé da mesa", “braço de mar”, “olho do furacão”, tomando de empréstimo as palavras “pé”, “braço” e “olho”, usando-as fora do seu sentido habitual, estamos fazendo uso da catacrese. Muito frequentemente, essa transposição tem relação com uma vaga semelhança entre um conceito e outro, como o pé da mesa ser algo que se remete, de algum modo, aos pés humanos. 

Expressões com pé são inúmeras! Aqui no blog tem um post com expressões com pé, vejam lá: aqui.

Haja partes de nosso corpo para virar catacrese! Mesmo em enunciados bem sérios, olha só: “Isso é a cara desse país”, “o desenvolvimento é corpo do trabalho acadêmico”... Quer ver como usamos muitas catacreses no nosso dia a dia? 

Pé de mesa, pé de página, braço de cadeira, batata da perna, orelha de livro, dente de alho, cabeça de alho, asa da xícara, fio de azeite, coração da floresta, maçã do rosto, coroa do abacaxi, casa de botão, boca da noite, céu da boca, cabeça de prego, raiz do problema, folha do livro, cabeça de repolho, olho do furacão, olho da rua, boca do túnel, banana de dinamite, cabelo de milho, pele de tomate, leito do rio, trânsito engarrafado, embarcar no avião...

Vejam o caso da expressão “embarcar no avião”. Originalmente usada para a entrada em um barco, hoje é utilizada para entrar em qualquer meio de transporte: avião, metrô, trem, ônibus... E engarrafar? Já pensou nisso?

A catacrese é uma espécie de metáfora esquecida...

A metáfora é um recurso fundamental da poesia...mas não é usada só em gêneros poéticos, lógico! Ela é uma das ferramentas essenciais para desembolorar as palavras, dar a elas novos usos, refrescá-las! Na metáfora há uma transferência da significação própria de uma palavra para outra significação, como uma comparação implícita que o autor faz, criativamente. 

Mas pense: se a metáfora é essa figura de linguagem que consiste em empregar uma palavra em um sentido que não lhe é comum ou próprio numa relação de semelhança entre os dois termos, então, a catacrese é uma espécie de metáfora!

Sim, mas é uma metáfora repetida, gasta, diferente da metáfora poética que desembolora as palavras – que é o ofício do poeta! É uma metáfora que foi usada por falta de uma palavra específica para designar um termo, havendo então um desvio de sentido. A catacrese ocorre quando, por falta de um termo específico ou melhor para designar um conceito, toma-se outro por empréstimo. Trata-se de termos inicialmente usados apenas para suprir uma lacuna de um termo específico para tal, mas que foram usados tantas vezes que seu uso se cristalizou, passando a constituírem expressões que têm significados bem próprios. Por isso é como uma metáfora esquecida... Esquecida de seu papel de uso inusitado, conotativo...

Tendo a metáfora como referência de figura de linguagem emblemática da poesia, uns dizem que a catacrese é uma metáfora “obrigatória”, imperativa. Usa-se a palavra fora de seu significado usual, mas, pelo uso, ela se impõe, e já não é percebida como se empregada em um sentido figurado – isso que é próprio da metáfora. Assim, a catacrese é metáfora por nascer do princípio da comparação, da similaridade; é esquecida por já não ter a força conotativa; e é "obrigatória" por ceder antes a um imperativo de uso do que a necessidades expressivas e intenções poéticas

Quando dizemos, então, que a catacrese é uma metáfora gasta, usada por falta de termo específico ou melhor, há aí um sentido negativo dessa figura de linguagem. Esse sentido negativo é reiterado pela própria origem do termo catacrese: a palavra vem do latim catachresis, que tem origem no grego katakhresis, que significa “mau uso” – e no caso aqui, mau uso das palavras! Guardemos essa ideia, mas para a desconstruirmos em seguida...

Entretanto...(e aqui vamos começar a desconstruir e nuançar um pouco essa ideia negativa...retirar a catacrese desse lugar de “mau uso”...) ...ela pode voltar à poesia... como podemos ver nos poemas de José Paulo Paes, Inutilidades, Atenção Detetive e Pura Verdade. São poemas que brincam, essencialmente, com as catacreses. Duas delas estão no post já citado acima - e estão aqui. Outra, aqui:

PURA VERDADE

Eu vi um ângulo obtuso
Ficar inteligente
E a boca da noite
Palitar os dentes.

Vi um braço de mar
Coçando o sovaco
E também dois tatus
Jogando buraco.

Eu vi um nó cego
Andando de bengala
E vi uma andorinha
Arrumando a mala.

Vi um pé de vento
Calçar as botinas
E o seu cavalo-motor
Sacudir as crinas.

Vi uma mosca entrando
Em boca fechada
E um beco sem saída
Que não tinha entrada.

É a pura verdade,
A mais nem um til,
E tudo aconteceu
Num primeiro de abril.

Além de seus usos poéticos possíveis, temos que lembrar que a língua e as figuras de linguagem não estão a serviço apenas da poesia, mas da língua, da língua de todo dia...

Por exemplo, é bom reparar que a catacrese tanto pode acontecer ocupando o lugar de uma palavra faltante (como em "embarcar no avião") quanto substituindo um termo exato ou técnico por um menos formal ("barriga da perna" em vez de panturrilha, "céu da boca" em vez de palato). Vê como a linguagem é danada e, no dia a dia dos falantes, vai ganhando asas?!

Então, precisamos não nos apegar ao sentido negativo dessa figura de linguagem.

Acontece que a catacrese, com seus neologismos semânticos, funciona, de todo modo, como um mecanismo de formação de novos sentidos para as palavras, de ampliação do léxico. Hoje usamos "encaixar" com o sentido de colocar algo em um espaço onde ele cabe perfeitamente, mas originalmente, encaixar significava colocar em caixas... Há assim também um enriquecimento da língua, de seu dinamismo, pelos usos “gastos de metáforas esquecidas”!

O que seriam os engarrafamentos se não houvesse a catacrese? E dos pés de galinha, que seriam só rugas como tantas outras... a língua precisa da catacrese... e mesmo a poesia a acolhe de volta! 
Vejam vocês: a catacrese não é matéria bruta para muitas brincadeiras com as palavras e para a poesia? Muitos autores não brincam, justamente, com as catacreses? Falamos de José Paulo Paes, mas ele não é o único.

Eva Furnari, mestra em brincar com as palavras, traz uma lista baseada em catacrese em seu livro “Listas Fabulosas”. É a lista da personagem Olfa, que brinca com essas inutilidades, entre o sentido real e a catacrese. Já postei sobre isso, também aqui.
Outro exemplo é a canção “Composição Estranha”, de Ronaldo Tapajós e Renato Rocha, que usa ao mesmo tempo metáforas e catacreses:


Usei a cara da lua
As asas do vento
Os braços do mar
O pé da montanha
Criei uma criatura
Um bicho, uma coisa
Um não-sei-que-lá
Composição estranha

O coração da floresta
Batia em seu peito
E a sua voz
Boca da noite
Para sua voz
Boca da noite
Para sua voz

Reparem que na primeira estrofe, nos versos 1 e 2, ocorre uma metáfora, pois há aí uma relação de similaridade novidadeira entre os termos "cara" e "lua" e os termos "asas" e "vento". Nos versos 3 e 4, apesar de pressupor o mesmo processo metafórico, as palavras "braços" e "pé" foram empregadas fora de seu contexto próprio a partir de outro recurso, a catacrese. No verso 1, 4 e 6 da segunda estrofe também ocorre a catacrese. 

Tem até cordel para explicar a catacrese! 


Catacrese
De falar de catacrese
chegou a vez afinal:
é palavra usada fora
de seu sentido real,
mas que, por falta dum termo
próprio, se torna usual. 

Uma cabeça de prego
eu encontrei na madeira;
Esse menino se senta
só no braço da cadeira;
Rasgou-se a manga da blusa
vou atrás de costureira.

Ontem na perna da mesa
uma topada levei;
Me tremi de medo quando
no avião embarquei;
Nessa sopa tão gostosa
um dente de alho botei.

É um cordel do livro "As figuras de linguagem na linguagem do cordel", de Janduhi Dantas, Editora Vozes. Já no livro "Crônicas da Norma: pequenas histórias gramaticais", de Blandina Franco e José Carlos Lollo, Ed. Callis, os autores explicam a catacrese assim:

" - Quebrei a catacrese!
Putz, não pode ser! Justo a catacrese? Ela era a minha menina dos olhos!
- Pois é...
- Mas você é desastrado mesmo! Semana passada quebrou o braço da cadeira, na outra o pé da mesa...
- Mas o pé da mesa quebrou porque você não martelou direito a cabeça do prego que prendia ele.
- Ah, então a culpa é minha! E a asa da xícara, você quebrou por quê?
- A asa da xícara eu quebrei porque o chá queimou o meu céu da boca!
E a catacrese? Quebrou por quê?
- A catacrese foi sem querer!  Você acha que eu ia quebrar a catacrese de propósito?
- De propósito não, porque você sabe que se fosse de propósito eu dava um soco na boca do seu estômago!
- Você não teria coragem!
- Teria sim! E quebrava a maçã do teu rosto!
- Duvido!
- Duvida? Eu ainda mordia a tua batata da perna!
- Ah, é? Então vem! Vem!

E os dois se engalfinharam e começaram a brigar e quebraram tudo o que ainda estava inteiro naquele lugar. Não sobrou nem um dente de alho, nem uma orelha de livro, nem uma boca de fogão ou de garrafa pra contar a história."

Acho que agora deu pra entender, né?
...e sigamos brincando com a linguagem...
Abraço,
Lica


P.S. Se não entendeu, precisa de mais um exercício. E se entendeu, mesmo assim, mostre que está sabido(a) em catacrese, marcando todas as que aí aparecem no texto acima.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Desembolorando palavras...

Olá, minha gente!
Finalmente volto timidamente a postar umas coisinhas por aqui. Andei muito ocupada, mas vamos lá, retomando, aos poucos. Quero voltar os posts dando uma dica de livros e, ao mesmo tempo, oferecendo outra sobre o trabalho da, com e sobre a linguagem.Trata-se de uma coleção de três livros, de autoria de Renata Bueno, com ilustrações de Sinval Medina, da Editora do Brasil. A coleção chama-se “Não é a mesma coisa?”, e os três livros são Tubarão toca tuba, Manga madura não se costura e Cachorro tem dia de cão.

Podem ver sobre a coleção no site da autora, aqui

São livros que propõem jogos de linguagem que desemboloram as palavras, brincando com elas, vendo-as de jeitos diferentes. Como diz a própria autora: A coleção “brinca com as palavras e expressões combinadas e reconstruídas, mostrando outras formas de ver, perceber e sentir o universo de nossa língua”.

Brincando com a língua, os três livros trazem breves textos poéticos que brincam ora com a ordem das palavras, ora com sua composição por outras palavras, ora com os significados diferentes de uma mesma palavra. Favorecem, assim, uma rica reflexão sobre a língua, ao mesmo tempo em que oferecem a poesia da linguagem.

O livro TUBARÃO TOCA TUBA traz palavras dentro de uma palavra, ou palavras formadas por duas outras, como a palavra “soldado”, que é formada pelas palavras “sol” e “dado”. Nem sempre se trata de dois substantivos, então podemos encontrar coisas interessantes como “uma claraboia” e “a clara boia”.


Por vezes é assim, essa justaposição “sol” + “dado”, por outras um encaixe, como “tuba” e “barão”, em “tubarão”, um verdadeiro mot-valise. Tem também o brincar pareado com a decomposição de palavras compostas, como “guarda” e “chuva” em “guarda-chuva” e, ainda, outros modos de associação, como a de palavras como “palhaço”, na qual ressoa a expressão “palha de aço”.


Além dessas brincadeiras com a decomposição das palavras, que são, em si mesmas, muito interessantes para a reflexão dos que se iniciam na alfabetização, tem os textos poéticos que brotam dessas brincadeiras, geralmente pareando as duas ideias – ou seja, o soldado, por um lado e o dado e o sol, por outro. Histórias também podem brotar!


Esse tipo de procedimento de linguagem está presente também em outros livros. Cito aqui o ACHEI! de Ângela Lago, que traz também brincadeiras de esconde-esconde das palavras dentro de outras, além de outras descobertas trocando letras de lugar! Brinca com coisas assim: “Boia, jiboia! Quero ver quem acha joia”, “Briga de lombriga me dá dor de barriga”...

Ao falarmos desse procedimento de encontrar palavras dentro de palavras, vale lembrar aqui dos jogos de linguagem do TRILHAS e do PNAIC, que trazem esse tipo de proposta. São dois jogos semelhantes nesse sentido, o Nomes Escondidos e o Palavra Dentro de Palavra.  Em ambos trata-se de parear cartas em que há uma palavra dentro da outra... Trata-se de um desafio de consciência fonológica.

No jogo do PNAIC aparecem figuras com as palavras correspondentes escritas (ex. Luva), e outra carta, que é par desta, apenas com a figura (ex. uva), que está dentro da outra. Nesse caso, o jogo favorece a reflexão fonológica tanto em presença da escrita (a palavra completa, onde você deve encontrar a palavra inserida), quanto em ausência da escrita (dá para fazer apenas referindo-se ao significante sonoro de ambas).


No jogo do Trilhas, por sua vez, as duas cartas contêm a palavra escrita. Ex. Uma carta tem a figura de um fivela, acompanhada da palavra escrita, e a outra a figura de uma vela, também acompanhada da escrita da palavra. 

Note-se que o mesmo tipo de jogo pode ser jogado sem as palavras escritas, apenas com as figuras, em um desafio fonológico sem presença da escrita. Todas essas possibilidades são interessantes e favorecem a reflexão fonológica, a atenção à dimensão sonora da língua - importante para a alfabetização. 

Vale fazer aqui uma digressão para lembrar que essa coisa de palavra dentro de palavra ou pedaço de palavra dentro de palavra nos remete a um procedimento que esteve bem presente também na história da escrita, com o REBUS, que unia pictografia com informação fonológica. Trata-se de um procedimento usado inicialmente pelos sumérios e logo pelos egípcios, na passagem da escrita pictográfica e ideográfica para a fonética.  

A escrita cuneiforme suméria e a escrita hieroglífica dos egípcios, que usavam inicialmente pictogramas para representar objetos concretos através de sua imagem, num certo momento da história, passaram a utilizar signos para representar ideias abstratas. Como não era possível representar ideias abstratas com pictogramas, pela própria natureza desse tipo de signo, para fazer isso, essas escritas passaram a empregar duas estratégias, basicamente.


Inicialmente os signos pictográficos que eram usados para designar coisas concretas, como ovo e pássaro, usados juntos, lado a lado, passaram a significar fecundidade, já com algum grau de convenção.

Os símbolos passaram, depois, a corresponder aos sons das palavras da língua falada. Essa outra estratégia era, então, o REBUS.

O princípio do rebus consistia em decompor as palavras em sons e representar cada som por uma imagem. Como diz o professor Claudemir Belintane, se por um lado o rebus é composto de imagens, por outro, ele se dá a ler como som, ele se compõe de sinais com valores fonéticos usados juntos para formar uma nova palavra. Um pictograma designava, assim, não mais o objeto por ele representado, mas outro objeto cujo nome ou partes dele lhe era foneticamente semelhante.

O melhor exemplo que pode ser dado é, justamente, o da palavra “soldado”, que poderia ser representada da seguinte maneira:


A palavra aí não tem nada a ver com a imagem do sol e do dado (como no pictograma), e tampouco tem a ver com a ideia de sol e dado (como no ideograma). A palavra faz uso apenas da mesma sequência sonora que aparece nas palavras “sol” e “dado”. Ao dissociar o som e o significado das palavras de origem – o que constitui o princípio básico dos sistemas fonéticos, quer silábicos quer alfabéticos – o rebus, embora se constitua como uma escrita icônica, não é pictográfica nem ideográfica, mas fonográfica. É uma espécie de pictograma em que o signo representa o som, como se fosse um fonograma.

Assim, embora não seja ainda um sistema fonográfico que associa signos arbitrários a fonemas, é fonético, usa ícones de objetos que existem no mundo (pictogramas) não por seus valores semânticos, mas para evocar o nome, o significante, a pauta sonora de uma terceira palavra.


No caso do exemplo com “soldado”, usou-se as palavras inteiras, mas o rebus pode ser formado também da pauta sonora de partes de outras palavras representadas iconicamente. Digamos que pudéssemos escrever chuva juntando CHU de “chupeta” e VA de “vaso”:

O rebus foi, ao longo da história, aos poucos dando lugar a uma escrita mais analítica, até os sistemas convencionais e fonéticos – sejam silábicos ou alfabéticos. Entretanto, podemos notar que é um recurso ainda usado em cartas enigmáticas, presente em jornais, livros de crianças, revistas, como um passatempo. Muitas vezes, nessas cartas, já se usa o princípio alfabético, pois as palavras são formadas somando-se ou subtraindo-se letras da palavra original representada pela figura. Mas encontramos também, algumas vezes, o recurso do rebus nesse contexto.

E mais, o princípio do rebus é muito interessante para pensar sobre a língua, em suas composições e recomposições de palavras e partes de palavras, e brincar com a linguagem, aprendendo mais e mais sobre ela. Um recurso interessante para a alfabetização, como ressalta Belintane.

Bom, gente, feita essa digressão na história, que serve para nos lembrar que brincar de decompor e recompor palavras é um recurso que, com o uso de imagens, está na longa história da nossa escrita, voltemos aos livros da coleção “Não é a mesma coisa?”. Mas agora já bem lembrados que sol + dado pode não ser nem sol nem dado, mas soldado! Não é a mesma coisa!!! 

Vamos, então ao outro livro da coleção. 

No MANGA MADURA NÃO SE COSTURA, a brincadeira é com a polissemia das palavras, os sentidos diversos que uma mesma palavra pode ter, combinado e reconstruindo expressões, a partir da mistura desses diferentes significados: o próprio título já diz: "manga madura não se costura?", misturando manga de mangueira e manga de camisa... No geral, são palavras homônimas, que se pronunciam e se escrevem do mesmo jeito, mas com sentidos diferentes, como “macaco” que aparece como o mamífero primata e como ferramenta de consertar pneu de carro, galo que canta e galo de pancada na cabeça... 


A polissemia, que é a propriedade que uma mesma palavra tem de apresentar vários significados, é motor do dinamismo da língua permitindo que uma mesma palavra possa assumir distintos significados, de acordo com o contexto em que se encontra inserida. Se formos ao dicionário, verificamos que há muitas e muitas palavras que são polissêmicas, mas algumas, em especial, têm significados bem distintos, que se prestam bem ao brincar, à poesia... Vejam alguns exemplos usados no livro:



Por vezes as palavras têm mesmo, originalmente, significados diferentes, por vezes têm significados denotativos, literais, e outros, figurados, conotativos. E por vezes, essas conotações têm caminhos especiais de aparecer na língua. A linguagem se oferta a invenções e criações diversas...e à brincadeira... E o poeta é o artesão que não apenas desembolora as palavras por usá-las de modo inusitado, como também joga, justamente, com essa multiplicidade de sentidos, fazendo disso matéria prima para suas criações. Inclusive as palavras emboloradas, metáforas gastas...

Assim, é interessante destacar que, muitas vezes, as palavras têm um sentido que revela o uso de uma figura de linguagem chamada catacrese, que é uma espécie de metáfora que se cristalizou pelo uso. Usamos, por exemplo, "pé da mesa", “braço de mar”, “olho do furacão”, tomando de empréstimo as palavras “pé”, “braço” e “olho”, usando-as fora do seu sentido habitual. Muito frequentemente, essa transposição tem relação com uma vaga semelhança entre um conceito e outro. A catacrese é uma espécie de metáfora esquecida... e o poeta a retoma para nos relembrar, nesse jogo de brincar com a polissemia das palavras.

Aliás, vou fazer um post sobre a catacrese em breve!

Bom, gente, o livro traz palavras homônimas brincando de polissemia, de catacrese, mas, além disso, podemos lembrar, igualmente, que brincar com palavras homógrafas e homófonas também pode ser outra festa, não é?  

E assim, vamos ao terceiro livro da coleção "Não é a mesma coisa". É o CACHORRO TEM DIA DE CÃO. Neste, a brincadeira é com a ordem das palavras, criando expressões inusitadas, malucas...

Esse livro é bem maluquinho! A autora brinca de inverter as frases e criar situações engraçadas e inusitadas a partir disso. Na inversão, geralmente desembolora termos e expressões comuns, como o comum pé de pato (olha aí o pé de novo!!!), que vira pato de pé!!! Brincadeira que pode seguir com outros termos, outros tantos textos que podem ser ciados, outras tantas brincadeiras que podem ser inventadas!

Leite de vaca todo mundo toma, mas como será uma vaca de leite? 
Mosca na sopa, ninguém quer, mas todo mundo sabe o que é. Mas como será a sopa na mosca?

Sem esquecer que para cada brincadeira dessa, nasce um textinho poético, que faz toda a graça na brincadeira, dando corpo a ela.


Como diz o título da coleção, “Não é a mesma coisa”, de fato... aqui, ali e acolá, todas essas transformações que torcem as palavras, dão polimentos a elas, estica-as, apresentam outra coisa, não a mesma – são palavras e expressões de cara nova!

Isso tudo para mostrar que por trás de livros singelos de poesia e de jogos de linguagem, há muitas coisas riquíssimas da língua a aprender, a observar, a explorar. Não para ensinar sistematicamente esses recursos às crianças, mas para brincar com eles de um modo mais ampliado e diversificado.

Confundir e desconfundir palavras que têm mais de um significado apesar de iguais, desmontar palavras, sua composição, e brincar de inverter a ordem das palavras em expressões pode ser muito engraçado e divertido... é isso que a Coleção “Não é a mesma coisa?” propõe.

E com esse último livro, deixo o convite:
Vamos brincar!?
Lica

BELINTANE, Claudemir. "Matrizes e Matizes do oral". Revista Doxa – Revista Paulista de Psicologia e Educação, Vol 9: Araquara: SP, 2005 (pp.23-45).
BELINTANE, Claudemir. Abordagem da oralidade e da escrita na escola a partir da tessitura interdisciplinar entre a psicanálise e a lingüística. In Proceedings of the 6th Psicanálise, Educação e Transmissão, 2006 [online]. 


quarta-feira, 9 de julho de 2014

Brincagem com a linguando

Oi, gente!
Vou falar hoje sobre um poema, um poema que se oferece a deleites com a linguagem e a explorações da língua no contexto de alfabetização. E com ele, pretendo também mostrar que coisas simples e singelas podem esconder ricas possibilidades de exploração, ampliando a fruição do texto.
“Quem gosta de lixo levanta a mão” é um poema de Ricardo Azevedo, que está em um livro chamado “Ninguém sabe o que é um poema” (São Paulo: Ática, 2005). O poema fala sobre o lixo e seu conteúdo é apresentado de um jeito diferente, inusitado, engraçado.
Mas o mais interessante nele é a forma. Ricardo Azevedo propõe nesse poema um interessante jogo com as palavras. Nele, encontramos palavras que não existem, são formadas pela mistura de duas palavras existentes. Aparece, assim, no poema, essa espécie de neologismos, nos quais ressoam – em suas sonoridades –  palavras que evocam o universo do lixo.
Essas novas palavras são criadas pela mistura das palavras de um par, e essa mistura ocorre em todas as estrofes, ao longo de todo o poema. As estrofes são sempre as mesmas, repetidas, salvo pela mudança das palavras em questão.  A estrofe é sempre essa:
Quem gosta de _______
Quem gosta de _______
Quem gosta de lixo
Levanta a mão! 
O par de palavras de cada estrofe deve ser analisado de modo pareado para que se descubram as palavras dicionarizadas que se escondem naquelas inventadas. Assim, realizando alterações fonológicas no par, seja por trocas de fonemas/letras ou de troca de uma sílaba inteira, as palavras se revelam:
Veja um das estrofes:
Quem gosta de cuspa
Quem gosta de caspe
Quem gosta de lixo
Levanta a mão!

Fazendo as alterações necessárias, entre o fonema/letra U e o fonema/letra A, na sílaba inicial, ou, em outro modo de ver, trocando as sílabas iniciais, encontramos cuspe e caspa: cus-pe e cas-pa.

Quem gosta de caspa
Quem gosta de cuspe.
Quem gosta de lixo
Levanta a mão!

Cria-se assim um jogo de descobrir as palavras escondidas no poema, que pode se constituir em uma interessante atividade de reflexão fonológica e fonográfica sobre a língua. Quer tentar? Vamos lá!
Quem gosta de lixo levanta a mão
Ricardo Azevedo

Quem gosta de trelha
Quem gosta de traco
Quem gosta de lixo
Levanta a mão!

Quem gosta de respa
Quem gosta de rasto
Quem gosta de lixo
Levanta a mão!

Quem gosta de gruma
Quem gosta de gosde
Quem gosta de lixo
Levanta a mão!

Quem gosta de cuspa
Quem gosta de caspe
Quem gosta de lixo
Levanta a mão!

Quem gosta de mocha
Quem gosta de manfo
Quem gosta de lixo
Levanta a mão!

Quem gosta de lomo
Quem gosta de lido
Quem gosta de lixo
Levanta a mão!

Quem gosta de virme
Quem gosta de verus
Quem gosta de lixo
Levanta a mão!

Quem gosta de sabo
Quem gosta de serro
Quem gosta de lixo
Levanta a mão!
                          
Quem gosta de mosta
Quem gosta de berda
Quem gosta de lixo
Levanta a mão!
E aí? Encontrou todas as palavras?
Uma interessante abordagem da substituição de fonemas e grafemas ou de troca de sílabas pode ser feita com as crianças na leitura e fruição deste poema, um trabalho rico de reflexão fonológica sem e/ou com a presença da escrita. Depois de ouvir o poema, de conversar sobre ele, de ver o quanto se descobriu só por ler (observaram que tem palavras sem sentido? Conseguiram perceber que palavras parecidas sonoramente poderiam ressoar naquelas lidas?), podemos explorar mais esses pares de palavras. Inicialmente, explorar as trocas sonoras, pela reapresentação oral das estrofes e um jogo de adivinhação das palavras “escondidas”, misturadas. Depois, fazê-lo por escrito também, reorganizando as palavras originais, que geraram os neologismos. Dependendo do grupo, pode-se fazer diretamente pela análise do poema escrito, embora ouvi-lo e prestar atenção às sonoridades faça parte da descoberta do enigma das palavras. E aliás, poemas têm a ver com sonoridades, não é? Então vamos explorar nos poemas essas sonoridades oralmente e não apenas mentalmente, via escrita, via leitura silenciosa, “pelos olhos”...
A repetição das estrofes facilita também a leitura das crianças, que precisam identificar apenas as palavras finais dos dois primeiros versos, já que as outras se repetem sempre. Assim, leituras compartilhadas são favorecidas.
Listar as palavras, os pares, brincar com elas armando-as com letras móveis e fazendo suas mudanças, inventar outras estrofes, com outras palavras e suas misturas, criar um poema novo com mesma estrutura, mas novas misturas e novo conteúdo (que não o lixo), conversar sobre o lixo e sobre essas palavras e o porquê de estarem associadas a lixo no poema, enfim, essas e tantas outras coisas podem ser feitas para durar brincando com o poema de Ricardo Azevedo, ampliando sua fruição, explorando sua riqueza em termos das astúcias da linguagem que revela e explora.
O autor é craque em brincar com a linguagem, criar obras poéticas diferentes, lúdicas, fugindo de utilitarismos, da previsibilidade. Aqui ele inova com algo simples e apresenta, por trás da repetição, um poema delicioso e cheio de surpresas!
Inté!