Uni, duni, tê, salamê, minguê...

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Materiais a partir de textos da tradição oral

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Sertão como se fala

Esse post é apenas para registrar o lançamento on-line do filme realizado por Leandro Lopes e o Coletivo Adiante, já bastante referido aqui no blog e no Face. 

Para ver o filme em tela grande, clique no ícone de aumento da tela, no título abaixo ou aqui: Vimeo


É isso, gente.
Assistam!
Para saber mais sobre a realização do filme, ver aqui no Blog e no Face do filme.
Lica

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

PARTE 1: As letras e o alfabeto nordestino

Antecede esse texto a parte da Introdução, já postada.
Discutir sobre o abecê nordestino no contexto da alfabetização, requer tanto uma abordagem de cunho cultural, quanto linguística e pedagógica. Nessa primeira parte busca-se contextualizar a questão da nomeação das letras nesse abecê, esboçando o posicionamento quanto ao lugar do aprendizado das letras na apropriação da escrita alfabética, bem como introduzir as questões culturais e linguísticas que envolvem os usos e o ensino do abecê nordestino, apresentando, em especial, o argumento sociolinguístico que perpassa a problemática posta nesse estudo.
No post aqui no blog, irei apenas trazer notícias do que será discutido nessa parte, no estudo que será publicado em breve, tanto devido ao tamanho do texto, quanto para manter a surpresa. 
a. Letras...seus nomes, seus sons, seus traçados...
Nessa parte, vamos discutir sobre o lugar das letras na alfabetização. Entre perspectivas que negligenciam a aprendizagem das letras, pois enfatizam que a alfabetização se dá na imersão nas práticas letradas, e, no outro extremo, a perspectiva que aborda o ensino das letras, seus traçados, seus nomes e/ou seus sons, de forma mecânica e descontextualizada das práticas de leitura e escrita, é preciso, e possível, achar um caminho outro que não essa oscilação entre extremos. Aprender os elementos da notação alfabética também faz parte das aprendizagens relativas à cultura escrita e aprender as letras não se resume a aprender uma lista de caracteres. As letras são os signos da escrita! Signos de um sistema complexo. As crianças que convivem com a cultura escrita, desde bem pequenas, sabem disso, podem saber disso, querem saber. Elas têm contato com letras de diversos tipos, traçados, presentes em diversos materiais, em diferentes situações socioculturais, apresentando, desde cedo, um interesse crescente por esses signos, principalmente aquelas letras presentes em seus nomes próprios, de seus familiares e colegas.
Exemplo de atividade mecânica tradicional.
Para superar práticas de alfabetização que se construíram operando um apagamento das práticas de leitura e escrita, que investiam na cantilena do alfabeto inteiro, na grafia de letras individualizadas, descontextualizadas, na soletração de letras e/ou na junção delas em sílabas soltas, foi preciso radicalizar, tivemos que nos armar contra isso, que era igualmente maltratar os signos da escrita alfabética. Mas será que, para defendermos as perspectivas com foco nos textos e discursos, é necessário nos armar contra as letras em si mesmas e seu aprendizado, operando igualmente um apagamento dos aspectos linguísticos da notação alfabética? É preciso aprender as letras, claro! Aprender a reconhecê-las e grafá-las, aprender seus nomes, para podermos nos referir a elas e ir aprendendo as relações com seus “sons”,– são aspectos que fazem parte das aprendizagens linguísticas e da metalinguagem envolvida no aspecto notacional da linguagem escrita.
Aprender os nomes das letras, discutiremos mais adiante, é importante também porque os nomes dão pistas de seus “sons”, no caminho de apropriação da notação alfabética.
Os estudos históricos e linguísticos de Cagliari e Massini-Cagliari (1999) nos ensinam sobre a constituição e a beleza do alfabeto, suas possibilidades e limites, sobre a configuração gráfica e funcional das letras e a relação entre essa configuração gráfica e a configuração funcional, na alfabetização,  bem como nos ensinam sobre o princípio acrofônico (CAGLIARI, 2009a, 2009b), que usamos para decifrar os valores sonoros das letras, e sobre o qual falaremos muito aqui ainda.  Com Cagliari (2009a, 2009b, 2011) aprendemos tantas coisas interessantes sobre as letras e o alfabeto, através dos tempos e espaços, na história da constituição dos sistemas de escrita pela humanidade. Essa história mostra a importância das letras na constituição histórico-social da escrita, do sistema alfabético, e em sua aprendizagem pelos sujeitos. É a essa potência que nos referimos aqui ao falar das letras. 


As letras não negam os textos! Elas são os seus tijolos. Assim, reafirmo as letras e a sua aprendizagem como aspectos importantes no campo da alfabetização, signos que interessam às crianças – mesmo às pequenas, quando convivem com a escrita no dia a dia. Trata-se de um conhecimento que é social, que precisa ser ensinado às crianças, no contexto da apropriação da cultura escrita.
Bom, mas essa história toda sobre letras é, também, para justificar a conversa sobre o alfabeto nordestino – ou do  abecê do sertão, como dizem. Ao menos, por ora, por isso. Ou seja,uma conversa sobre o jeito de chamar as letras, atribuído ao falar do Nordeste, do sertão. E vamos então ao abecê nordestino.
b. O abecê nordestino
O jeito de falar as letras no Nordeste é referido, muitas vezes, como uma variedade linguística do nordestino, outras vezes como vício de linguagem, curiosidade exótica, às vezes com uma tolerância regional quase romântica, outras vezes sendo alvo de chacota e preconceito, como vimos aqui. Como nos ensina Maurizzio Gnerre (1985, p. 4)“[...] uma variedade linguística ‘vale’ o que ‘valem’ na sociedade os seus falantes, isto é, como reflexo do poder e da autoridade que eles têm nas relações econômicas e sociais”, e nesse quesito, o preconceito com o Nordeste extrapola as questões linguísticas, o preconceito linguístico é, pois, antes de tudo um preconceito social. Em vez de tomar todas as formas como variações, um modo de falar, nessa perspectiva, é visto em comparação com uma forma tomada como a correta – que o é por razões históricas, políticas, sociais, não propriamente linguísticas. Como nos lembra Bagno (2002a, p. 180), Fontes, referindo-se ao português do Brasil em relação ao lusitano,  já denunciava, em 1945, que o “desprezo de nossa língua anda sempre irmanado ao descaso por tudo o que ela representa: a gente e a terra do Brasil”. O mesmo se dá entre os falares, as gentes e as terras de diferentes regiões do Brasil.
Como pano de fundo sociocultural em que a questão do abecê nordestino está ancorada, e fazendo coro com o campo científico de estudos sobre as variedades linguísticas e sobre o preconceito social envolvido nessas questões, trago aqui a voz de Marcos Bagno, no prefácio do Dicionário do Nordeste, de Fred Navarro, que diz que, apesar de todo o avanço científico na área da linguística, especialmente da sociolinguística, continua circulando na sociedade concepções de língua falada e escrita que são arcaicas. O autor, de certo modo, ressalta o papel da mídia brasileira, que não parece estar interessada em dar um tratamento científico aos fenômenos de linguagem, tratando do tema a partir de caricaturas dos falares regionais. Diz Bagno (apud NAVARRO, 2004, p. 12): “Em suas manifestações sobre a língua, a mídia brasileira perpetua uma série de crenças infundadas, baseadas numa visão estreitamente normativista e estereotipada dos conceitos de ‘língua certa’ e ‘língua errada’” que “ajudam a preservar e a nutrir um tipo de preconceito profundamente arraigado na nossa cultura, o preconceito linguístico, fator de exclusão social”.
Dialogando com essa perspectiva de fundo – mas não apenas essa – é que vou me debruçar aqui sobre o abecê do nordeste, ou seja, o jeito de nomear as letras fê, guê, ji, lê, mê, nê, rê, si. Lembro, inclusive – como já postei aqui numa das provocações que iniciaram essa discussão – que essas formas estão registradas em dicionário (Houaiss, Aurélio e outros) e indica-se outras possíveis designações no Acordo Ortográfico de 1990, reiterado em 2009. O argumento – tal qual ouvi ou li aqui e ali – de que esse abecê “oficial” seria o certo porque “está na gramática”, nas normas para a língua, não tem lastro nos estudos sociolinguísticos e nem mesmo nesses documentos descritivos ou normativos. Para nós, da área de linguagem, não há nenhuma dúvida de que gramática não é sinônimo de língua – que é muito mais ampla e apresenta variações – para o senso comum, no entanto, esse poderia ainda se constituir em um argumento para defender o alfabeto “oficial” como o correto e basear posicionamentos preconceituosos. Vemos no entanto, que nem isso se sustenta. Precisamos, pois, sair de uma posição de preconceito ou de ingenuidade, e estabelecer uma discussão realmente frutífera e esclarecida sobre o tema.
E para dar início a essa discussão esclarecida, começaremos pelos artistas nordestinos da palavra, representantes da voz da cultura popular em articulações com a cultura em geral, que muito nos ensinam nesse sentido. Luiz Gonzaga, em seu “ABC do sertão” (composta com Zé Dantas), é quem nos dá a notícia mais certeira do jeito de falar o alfabeto no sertão nordestino. Assim também é o cordel “A letra é rê e não erre”, do baiano Noédson Valois, o Nonói contador de “causos”, menos conhecido, que afirma esse abecê, defendendo-o melhor do que nós – estudiosos do campo da linguagem – poderíamos fazê-lo.

Ouvir aqui.
A canção contribuiu muito para divulgar essa prática do ensino do alfabeto, inclusive, fora do Nordeste do Brasil, mas, a despeito disso, como vimos na quinta provocação sobre o abecê nordestino, postado aqui no blog, há quem consiga até mesmo criticar a canção, sob o argumento de que “assassina a língua portuguesa”, ou que Gonzagão era analfabeto e por isso não conhecia os “fonemas”, dentre outras pérolas, que vocês podem ver aqui. Note-se, entretanto, que, de algum modo, o uso desse abecê aparece na canção como algo escolar: “pros caboclo ler, têm que aprender outro abecê”, “na escola é engraçado...”. Se Lua fala do sertão por contraste, como alguém que se encontra num entre-lugar, do qual pode ver a diferença, pode julgar “engraçado”, quase assumindo – digamos assim – certa comicidade ou atraso na situação. Ou seja, fala para uns e para outros, então.
Nonói, por sua vez, é mais explícito no seu jogo de contrastes, argumenta e contra-argumenta sem dó. Falar erre, esse, ele... seria, para ele, uma inovação sem necessidade, o abecê “oficial” seria uma espécie de “remendo”. E, para isso, brinca com as palavras: “a letra é rê e não erre!” Com Nonói, não vamos errar!
CD Bahia Singular e Plural (IRDEB, 2000) – Vol. V (faixa 6)
Ouvir aqui: 
video

No caso desse cordel, a afirmação do uso do abecê aparece para além da escola, para além do momento do ensino da leitura – “é assim que a gente lê” –, embora, evidentemente, relacione-se também com o contexto escolar. 

Essa pérola de Nonói foi José Rêgo que me mostrou, e faz parte, igualmente, do repertório da Canastra Real, junto com o “ABC do sertão”. 
Antes de seguir, quero não deixar dúvidas a respeito do lugar do qual eu mesma falo – sou nordestina e o alfabeto que aprendi, aos 5 ou 6 anos, era nordestino... (e eu não era do sertão, mas de Salvador mesmo). Falo desse lugar... Então, sigamos.
Já vi atribuírem o uso desse alfabeto no sertão ao fato de os professores, nesse contexto, serem, em grande parte, professores leigos, antes das instituições e dos programas de formação chegarem aos municípios mais distantes dos centros urbanos. Ora, podemos nos perguntar: por serem leigos, não tiveram acesso ao conhecimento “correto” do nome das letras ou, por estarem longe do discurso oficial, estavam menos sujeitos à “colonização” desse modo de falar, à hegemonia dos modos de ser da linguagem falada nas regiões sul e sudeste? Será que ele era usado só no sertão mesmo? Sou moça da alfabetizada no início dos anos 70, na capital, zona urbana litorânea, minha professora era formada, e só vim conhecer o efe, gê, jota, ele, eme, ene, erre, esse quando bem maior que isso! Até hoje oscilo entre um e outro...e pronuncio, sem pensar nem pestanejar, normalmente, as letras “nordestinas”. O alfabeto sai, de mim, mais rápido e natural assim... E então, mesmo considerando que não é tão simples discernir o alcance daquilo que venha a ser “sertão”, se no Brasil o conceito é, geralmente, associado ao interior, bem como à aridez, ao atraso, à miséria, ao iletrado, de falar chulo, e, mais objetivamente, no sentido geográfico, considerado uma subárea ou sub-região que envolve vários Estados – Alagoas, Bahia, Ceará, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe – podemos, então, questionar que seja só do sertão mesmo, ainda que reconheçamos sua forte identidade sertaneja – quem somos nós para negar Seu Lua, não é? Mas, então, por que esse alfabeto ficou sendo no Nordeste? Porque ficou sendo do sertão? É do Nordeste ou é do sertão? E é só do Nordeste? Por que será que permaneceu mais forte na Bahia? Por que será que na Bahia não é só no sertão que “se ouve tanto ê”, diferente de outras capitais que estão, efetivamente, na sub-região do sertão, mas já o “esqueceram”? Será que no processo de “invenção” do Nordeste, tal qual discute Albuquerque Jr. (2009), toda a região Nordeste ganhou um caráter sertanejo e por isso, caberia falar de abecê do sertão, mesmo havendo uso na capital, ao menos na Bahia? E mais... quem determinou o alfabeto “correto”? De onde surgiu o efe, e de onde surgiu o fê? O gê, o guê, o jota, o ji?... Qual as raízes de cada um deles?
Essas são questões que precisamos colocar, mesmo que algumas, não consigamos responder. Para tentar compreender alguns desses aspectos, ou ao menos buscar mais indícios e trazer a complexidade da questão à mostra, se faz necessário mergulhar em um campo complexo de informações históricas, que envolvem ora a história da escrita, da constituição do alfabeto,ora a história dos métodos de alfabetização no Brasil. E ainda tem a cultura do Nordeste...São muitos aspectos a considerar.
Um argumento de base nessa questão é o argumento das variedades linguísticas e suas relações com questões de ordem cultural e sociopolítica. Entretanto, mesmo se tomarmos a questão do abecê pelo viés da variação linguística regional, com todo o respaldo sociolinguístico e cultural para validá-lo, ainda me parece faltar uma discussão mais ampla sobre ouso desses dois tipos de alfabeto, suas origens, seus usos, suas funcionalidades. Assim, é pertinente situar a problemática e trazer alguns aspectos para continuarmos a pensar sobre isso, fundamentando nossa defesa do alfabeto que usávamos e ainda usamos, em alguma medida, no Nordeste, e buscando um posicionamento mais potente diante desse uso. Embora não seja uma pesquisa fácil de ser feita, e se ache pouca coisa sistematizada sobre o tema, quero levantar ao menos alguns aspectos que possam, porventura, contribuir nesse sentido. E não apenas para os nordestinos! Trata-se de uma herança cultural brasileira e da história da alfabetização no Brasil!
Nisso, saber como, historicamente, se chegou a essas duas formas de designar certas letras – o fê, guê, ji, lê, mê, nê, rê, si e o efe, gê, jota, ele, eme, ene, erre e esse – ajuda bastante a situar a questão de outro modo. Quem traz alguma informação sobre isso, desde a constituição de nosso alfabeto latino, é o linguista Luiz Carlos Cagliari, ao tratar da origem do alfabeto na história da escrita (Parte 2). Cagliari é quem nos ajuda a desmistificar, em primeiro lugar, isso de que uma forma seja mais correta que a outra (2009a), mostrando as origens remotas de ambas as formas do alfabeto.

Nada mais pertinente para combater o preconceito linguístico e o tom jocoso do preconceito social, imbricado naquele, do que passear um pouco pela historicidade dos fenômenos. Não para criar disputas, justificar-se, mas para reposicionarmos a questão em outros termos. É sobre isso que falaremos na parte 2, no próximo post
Aguardem!

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

O ABECÊ NORDESTINO E AS LETRAS NA ALFABETIZAÇÃO


Introdução

Lá no meu sertão pros caboclo lê
Têm que aprender um outro ABC
O jota é ji, o éle é lê
O ésse é si, mas o érre
Tem nome de rê

Luiz Gonzaga/Zé Dantas

Há muito tempo me interesso por alfabetização...e há muito tempo me interesso pelo alfabeto... e pelo “alfabeto” que se falava e ainda se fala em alguns lugares no Nordeste, e que ainda se ouve fortemente na Bahia. Por aqui ainda se vê ensinado nas escolas, como vamos constatar com a pesquisa que estou fazendo entre professores baianos, e cujos resultados darei notícias por aqui. O alfabeto, no sentido do sistema de notação da língua, é o mesmo, isso está claro! O que muda é apenas o jeito de nomear as letras. E talvez, por isso, fosse mais apropriado falar em “abecê no Nordeste”.

Não se trata de sotaque, mas de nomes outros. Quando essas letras são convocadas a dizer seus nomes e soam em alto e bom som, observamos que esses nomes se aproximam mais do som que lhes são correspondentes: fê, guê, ji, lê, mê, nê, rê, si, como é o caso de outras letras, como o bê, pê, tê, vê, zê, dentre outras letras ditas “oficiais”, e que ninguém estranha. Esses oito sons que se diferenciam do abc convencional dão “pano pra manga” – como se diz.

Mostrei aqui no blog inúmeras ocorrências de desconhecimento e de preconceito contra esse abecê. Um desconhecimento comum é o de que efe é nome e é o som da letra. Ora, esses nomes das letras podem ter, sim, nascido da tentativa de nomeá-las por seus sons, somando-lhes uma vogal de apoio. Mas os nomes das letras são unidades lexicais, os fonemas não. Fonemas são unidades representadas por letras (por grafemas), não são lexicalizados. Precisamos, como venho discutindo aqui, ir além dessa conclusão de que efe é nome e é fonema, som. É engraçado que esses nomes, fê, guê, ji, lê, mê, nê, rê, si, sejam associados à fonética, ao som, mas bê, cê, dê, pê, quê, tê, vê e , construídos pelo mesmo princípio, não o sejam – e tenham, sem pestanejar, o status de nomes de letras! Veremos adiante, na parte 2, que esse argumento se desfaz quando entendemos que em sua própria origem, o alfabeto trazia, em sua essência, essa ideia de o nome das letras darem pistas dos seus sons.

Para esclarecer melhor nossas ideias sobre a questão, podemos recorrer a argumentos pela via das diferenças culturais e variações linguísticas regionais, juntando essa questão às tantas outras referentes aos falares nordestinos. Os argumentos culturais e sociolinguísticos são, de fato, primordiais nessa discussão. Entretanto, eu sempre quis poder aprofundar mais a discussão sobre isso. Para além da variação e da defesa dos traços que compõem a nossa identidade cultural, eu queria compreender onde vêm esses dois abecês distintos e seus usos no Brasil, que notícias essa origem e seus usos no ensino da língua de antigamente nos dão sobre sua legitimidade, e trazer a discussão para o campo da alfabetização hoje. E esse estudo, que traz algumas luzes e muitos questionamentos, nasceu desse desejo. O abecê usado na Bahia sempre me intrigou.

Somou-se a isso, o fato de que meu marido, José Carlos Rêgo, artista da Canastra Real – Contos em cantos, tem o “Abecê do Sertão”, de Luiz Gonzaga e Zé Dantas, no repertório de algumas apresentações e, sempre que a conversa é com professores, lembra do que me ouviu falar a esse propósito, uma vez, referente ao princípio acrofônico. Voltaremos a essa questão adiante. Por ora, refiro-me a isso, pois essa conversa sobre o abecê com a Canastra – uma das conversas que temos entre nós nessa nossa parceria por temáticas afins – foi um dos empurrõezinhos que tive para, enfim, retomar essa ideia, essa vontade, e concretizar a escrita desse texto. Aliás, planejar uma aula-espetáculo para alfabetizadores, junto com a Canastra Real, é um dos planos para hora dessas....mas eu fico só com a parte aula...a parte de se “amostrar” do espetáculo, fica com eles!

http://canastrareal.wixsite.com/canastrareal/
Além das defesas e dos ataques ao nosso abecê, ouvi  contar também situações em que educadores e pessoas em geral, de fora do Nordeste, nunca tinham ouvido falar desse modo de pronunciar os nomes das letras do alfabeto. Mesmo nordestinos, salvo parte dos baianos, parecem ter certo estranhamento com essa forma de nomear as letras, bem como há baianos que atribuem esse uso a algo antigo, limitado ao momento da alfabetização. Assim, será que faz sentido mesmo denominá-lo alfabeto ou abecê nordestino, ou ainda abecedário nordestino? Ele é/foi realmente do Nordeste? Em todo o Nordeste? Só no Nordeste? Só no sertão? É abecê da Bahia? É um abecê só da alfabetização inicial ou esses nomes perduravam para se referir às letras? São questões instigantes, discutiremos sobre elas adiante, por ora, quero assumir a expressão “abecê nordestino”, mas com essas ressalvas. É bom lembrarmos que a questão da identidade cultural regional não é tão simples. É preciso, como ressalta Albuquerque Jr. (2009), desmistificar a ideia de um Nordeste culturalmente homogêneo.

Recentemente foi lançado o documentário “O Sertão como se fala”, realizado pela equipe do Coletivo Adiante, já referido aqui no blog. Revendo o trailer:


Como alguém muito interessada sobre isso, confesso que eu fui assistir ao filme esperando um pouco mais de informações sobre a nosso abecê. O filme é muito bacana e cumpre o papel que lhe cabe como “ensaio audiovisual”, apresentando e provocando esteticamente a discussão, divulgando a identidade cultural e linguística na contramão do que circula na grande mídia e no senso comum. Mas, ainda assim, me deixou com gostinho que “quero mais”. Mas isso porque eu já tinha esse interesse prévio e o desejo de entender mais as raízes desses dois abecês. Apesar de anunciar que se propunha a investigar as raízes deste modo de falar, a partir de narrativas de alunos e professores que aprenderam e ensinam as letras do alfabeto do sertão, bem como narrativas de artistas da palavra e alguns estudiosos, o documentário não mergulha muito nessas origens – visa apenas a mostrar que ele ainda está por ali seja em uso ou na memória de habitantes do sertão nordestino. Tem um mérito grande de apresentar esse modo de pronunciar as letras como parte de uma herança cultural sertaneja mais ampla, explora aspectos dessa cultura e até a relação desse falar com outros aspectos que criam a ideia – e o filme a problematiza – de um nordeste esquecido, leigo, atrasado. Aponta também o aspecto do desaparecimento dessa prática pela padronização do alfabeto, o que é bastante interessante. Uma coisa bem bonita é ver os artistas da palavra ressaltarem a poética do nosso abecê, em contrapartida ao uso padrão do abecê "oficial". 
Mas achei que há pouca investigação, de fato, com foco nas raízes e nos usos desse abecê, culturalmente e linguisticamente, talvez, justamente, pela pouca informação que temos disponível sobre o tema. No próprio site do projeto podemos ler:
Tendo em vista a falta de material de pesquisa acessível e produções que tratem sobre o tema, o “Sertão como se fala” pretende construir um registro artístico de aspectos históricos e sociais que podem estar em extinção no Brasil e propiciar uma reflexão crítica sobre o imaginário popular, social e político do povo sertanejo. Deste modo, o filme terá como característica a responsabilidade social e cultural de manter viva a memória, o pensar e também de valorizar a cultura brasileira – em especial a da região sertaneja, aquela de maior miséria e  desigualdade do país. 
Claro que entendo que se trata, aí, do registro artístico de uma questão sociocultural e histórica, e não de uma pesquisa científica e, de fato, como já sublinhei, há pouco material sobre o tema. Mas considerando a intenção dos realizadores em contribuir para valorizar e manter viva essa memória, esperei que a perplexidade das indagações sobre os usos desse alfabeto levassem a uma construção discursiva mais substantiva. Por vezes, a realidade dos professores leigos de antigamente e um uso não-padrão do alfabeto quase ficam valendo como explicações da origem desse falar, o que me pareceu muito simplório e ainda sob a égide de certa primazia cultural do outro alfabeto. O letrado? Estaria aí em jogo um anúncio de um suposto conflito entre o registro regional oral e o registro escrito, letrado, mais erudito? Está certo que o alfabeto nordestino pode ter se propagado oralmente, a partir de mutações que foram estabelecidas por certa tentativa de facilitação da alfabetização, assim como há aí também algo do conflito que se estabelece entre o ensino da escrita tipicamente escolar, fundado na norma culta, e os diferentes usos informais e populares da língua, como discute Colello (2011, p. 65). Mas a história parece que é bem mais complexa do que isso, como veremos adiante, na parte 3 do texto. Além do mais, práticas orais e práticas letradas se imbricam de formas bem mais complexas do que polaridades estanques dão conta. A professora que me alfabetizou, aqui em uma escola particular renomada de Salvador não era leiga! O ensino da escrita tipicamente escolar na Bahia, mesmo na capital, incorporou esse jeito de dizer os nomes das letras. Por isso mesmo, uso, preferencialmente, a expressão “abecê do Nordeste” e não “do sertão”. Precisamos olhar para esse fenômeno de modo mais amplo.

Claro que a produção audiovisual referida vale, e muito, por chamar a atenção a um aspecto que pode estar se acabando, devido à “colonização” do modo supostamente “correto” de pronunciar as letras e por divulgar e propiciar uma reflexão crítica sobre essa história e herança cultural do Brasil. Só por isso, já é válida. Para mim, valeu também por saber que tem outros estados em que ainda “se ouve tanto ê”... porque perguntando aqui e ali a gente da capital, em outros estados, vi pouca presença desse abecê na referência das pessoas. Temos ele ainda vivo em Salvador. E porque é muito bonito, bem realizado, instigante.

O foco do filme é esse mesmo, cultural. Linguisticamente, os argumentos ficam ainda vagos, mas isso porque é próprio ao filme trazer a questão pelas vozes dos moradores dos municípios. E nessas vozes, aparecem alguns elementos, mas não houve intenção de uma costura discursiva que desse pistas sobre esse modo de pronunciar as letras e seu uso. Com certeza, além de talvez não o intencionaram, os realizadores se esbarraram nas lacunas de informação, nos limites entre os objetivos de uma obra audiovisual e de um estudo mais aprofundado. E aí, justamente, entram outras referências... Nem tudo que era minha expectativa, era intenção deles com o filme. Claro! A vontade de entender mais era minha! Assim, como eu não sei compor nem cantar, como Seu Lua, nem fazer filmes, como Leandro o Coletivo, eu pesquiso...eu estudo...eu provoco...eu escrevo... Minha contribuição!

O lugar do qual eu falo, entretanto, reafirmo, é de educadora, interessada no campo da linguagem, da alfabetização e da cultura escrita como parte da cultura mais ampla. Assim, preocupo-me não apenas com os aspectos histórico-sociais dessa discussão, da defesa de um modo culturalmente legítimo de nomear as letras, mas também, seu aspecto pedagógico. Portanto, além de buscar entender – na medida do possível – um pouco mais sobre a questão desses dois modos distintos de pronunciar o alfabeto no Brasil, pretendo tecer considerações também a respeito do uso das letras e suas relações com as unidades sonoras da língua, como parte do processo de alfabetização e sobre a legitimidade e a pertinência, em termos linguísticos, do alfabeto nordestino na alfabetização. Disso, aí sim, eu entendo um pouco mais... Não se trata de argumentar sobre substituir o “tradicionalmente” usado, nem folclorizar a variação regional. O que quero é que ele possa ser ensinado, como foi por muito tempo – e ainda o é – em alguns lugares da região nordestina, ao lado desse, como um outro modo de designar as letras – e não como vício, erro, ignorância, como por vezes lhe é atribuído, ou mesmo como uma inventividade original – que também, provavelmente, não o é. E para deixar claro, igualmente, como ele pode favorecer, sim, o processo de alfabetização. Aliás, “tradicionalmente usado” é algo muito relativo, e, nesse caso, pode não significar precedência no uso...pois poderíamos indagar: esse uso nordestino não seria um retorno a uma lógica original do alfabeto? Essa questão será aprofundada adiante, na parte 2 desse estudo.

Estrutura

Assim, com essas intenções, o texto se organiza, aqui no blog, em seis partes (e será postado aqui por partes), conforme indicado no sumário, sendo que, na parte 1, após essa Introdução, a discussão sobre esse lugar das letras do alfabeto na alfabetização é, justamente, colocada e iniciada, seguindo-se da apresentação da questão que envolve o chamado alfabeto nordestino, trazendo um argumento de base e transversal a todos os outros que é a questão da variação linguística. As três partes que se seguem, que constituem o estudo sobre o tema, serão retrabalhadas também e publicadas em uma brochura impressa, que sairá em breve. Aqui no blog vou trazer apenas um resumo das questões que serão discutidas na publicação, que será também disponibilizada para download aqui, quando pronta.

Na parte 2 do texto (segundo post dessa série), serão apresentados alguns argumentos da história da escrita – em particular da história do alfabeto – que podem dar pistas para entendermos melhor a problemática em questão, especialmente a origem dos nomes das letras do alfabeto latino e sua evolução para o português. O efe, gê, jota, ele, eme, ene, erre, esse, têm, todas elas, data de nascimento! Isso tem, como veremos, implicações na discussão em questão, sobretudo na minimização da polêmica sobre o que seja o “alfabeto correto”. 

Já na parte 3, os argumentos serão da história da alfabetização no Brasil, da história das metodologias de ensino da escrita, que inclui a temática do nome das letras. Embora esta seja uma história repleta de lacunas, havendo pouca informação efetiva sobre essa questão em particular – ao menos pouca informação divulgada – ela pode nos ajudar, ao menos, a entender a questão como algo que vai além da regionalidade, a levantar hipóteses sobre o porquê da designação diversa de algumas letras e a compreender a origem (nada nordestina) e os motivos (nada infundados) da ideia da facilitação da alfabetização, pela nomeação das letras próxima a seus sons.

A parte 4 traz os argumentos de pesquisas atuais sobre o papel e o efeito do conhecimento do nome das letras na alfabetização, na apropriação do princípio alfabético, ou seja, no estabelecimento das relações entre fonemas e grafemas. Também aqui há fortes indícios para argumentar sobre a legitimidade da nomeação das letras no alfabeto nordestino.

O intuito de buscar esses argumentos, no entanto, ao lado da defesa das variações linguísticas, não é alegar precedência histórica para entrar em disputas, nem explicar para justificar nosso abecê, buscando aval dos que supostamente usam o abecê “correto” (não precisamos de aval para usar nosso abecê), mas para mostrar que a alternância entre as duas formas de nomear as letras existe desde a origem do alfabeto latino e, na língua portuguesa, também em Portugal, e desde o início da história da alfabetização no Brasil.

A parte 5, por sua vez, que será postada apenas aqui no blog, por enquanto, trará a comunicação dos resultados de uma mini pesquisa feita sobre o uso dos abecês por os professores de alguns municípios baianos, onde, ao que parece, esse uso ainda resiste, insiste, se faz presente, vivo. Mesmo na capital! Esses dados podem revelar muito sobre essa permanência ou não do uso do alfabeto, dentre outros aspectos, coisa que vemos assistematicamente aqui e ali relatadas. Veremos. Esses dados serão apresentados também em artigos, mas não na publicação impressa do estudo. Não por enquanto.


A parte 6 será construída aos poucos, sempre dinâmica, acolhendo novas contribuições. Serão apresentados lá os depoimentos de estudiosos do campo da linguagem, da alfabetização, depoimentos de professores, e quiçá de nordestinos em geral, com suas memórias...e de não nordestinos tocados, de algum modo pelo tema, bem como contribuições de artistas, escritores, que queiram contribuir com algum “comentário” por via de linguagens e gêneros diversos: ilustração, tirinha, cordel, crônica...o que for. Enfim, contribuição de todos que quiserem e puderem contribuir, seja com algum alinhavo ou desalinho, para a essa discussão, bonita e pertinente, sobre o nosso alfabeto. E ainda tem a parte dos comentários no próprio blog...aberta a todos!

Vamos continuar a conversa na Parte 1, aqui.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Décima provocação sobre o abecê nordestino


Essa décima provocação é para divulgar mais sobre o documentário O sertão como se fala, sobre o modo de nomear as letras no Nordeste, mas também, sempre oportunidade de rediscutir sobre a questão.

Um programa de TV da Assembleia Legislativa de Minas Gerais fez uma entrevista com Leandro Lopes, realizador do filme O Sertão como se fala. O mote do documentário é o abecedário nordestino, mas o filme é muito mais do que sobre isso! No momento está correndo festivais, mas, em breve, será disponibilizado. Assistam!

Enquanto isso, vejam a entrevista, em três partes.

Parte 1: nessa parte, o documentário é apresentado e se discute, basicamente, a questão do abecedário e as questões culturais da região.


Como estou estudando sobre o tema, não posso deixar de comentar uma ou outra coisa. Como temos visto por aqui, nos posts sobre o tema, enfatizo que, na Bahia, esse abecê não é apenas do sertão, mas também da capital. Gerações e gerações de soteropolitanos, assim como os baianos do interior, aprenderam assim. E ainda se ensina em algumas escolas... O sertão, seja em sua definição geográfica, como sub-região do Nordeste, seja em sua construção cultural identitária e imaginária, não abarca a cidade de Salvador. Por isso, tenho dito que prefiro falar em abecê nordestino, embora eu reconheça sua forte identidade sertaneja.

Além disso, como também já insisti, trata-se de nomes de letras, não de sons. Letras mais próximos dos seus “sons” – da fonética, como Leandro ressalta – mas são nomes também. Por que é engraçado que esses nomes, fê, guê, ji, lê, mê, nê, rê, si, sejam associados à fonética, ao som, mas bê, cê, dê, pê, quê, tê, vê e não o sejam...e tenham, sem pestanejar, o status de nomes de letras? Esse argumento se desfaz quando entendemos que em sua própria origem, o alfabeto trazia, em sua essência, essa ideia de o nome das letras darem pistas dos seus sons.

Parte 2: nessa parte, a conversa é mais sobre o sistema de financiamento do filme.


Parte 3: nessa parte, conversa-se sobre a viagem, a operacionalização do projeto, mas também retoma-se a questão do abecê, lá entre os minutos 6:28 a 8’. E dou essa precisão apenas porque quero fazer outra observação aqui.


Leandro defende o abecê do sertão como identidade cultural dos nordestinos sertanejos, e teve a curiosidade e a iniciativa de correr o Nordeste para mapear, em forma de documentário, a quantas anda essa questão hoje. Ainda assim, acolhe a naturalidade de seu desaparecimento, talvez por tomá-lo como um modo circunstancial de falar o abecê, apenas no sertão, apenas no momento da alfabetização.

Eu não acho que o "esquecimento", a "perda" desse abecê, seja um processo tão natural assim... Depende do que seja isso de "natural"... O processo histórico é natural? O que acho é que há forças de "colonização" e de discriminação que atuam aí, e que podemos, sim, ao menos, criar resistência, pelo conhecimento, pelo reconhecimento... como é o que eu tento aqui contribuir, com esse estudo, que é como eles também contribuem com o filme. Penso que o Doc talvez possa mais do que ele pretende – que o abecê do sertão viva como memória. Tomara!

Tudo bem defender que nosso abecê viva, ao menos, como registro histórico. Mas eu, de minha parte, quero mais! Como baiana, educadora, “alfabetizadora”, que vejo ele ainda por aí nas nossas escolas, na recitação de nossas crianças, na referência de adultos em situações cotidianas em que referir-se às letras se faz necessário, acho que, pelo menos na Bahia, ele pode ter vida para além da memória. Eu, que o vejo para além do sertão, para além do Nordeste – como um dos modos de falar o alfabeto no Brasil – torço para que permaneça vivo mais do que como história!

Precisamos, nós nordestinos, reconhecer esse modo de nomear as letras como um modo nosso, tão funcional e correto quanto o outro, conhecer sua história, sua legitimidade cultural e linguística, para que o Brasil todo também possa conhecê-lo e reconhecê-lo!

Assistam ao doc quando for lançado!
Lica

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Nona provocação sobre o abecê nordestino

Galera que está acompanhando os estudos sobre o nosso abecê, em breve teremos mais notícias, certo? 

Lembro que a pesquisa é com professores baianos, de G4 da Educação Infantil ao 3o ano do Ensino Fundamental, de escolas públicas ou particulares, de Salvador ou do interior da Bahia. Se você é professor nesses critérios ou tem acesso a professores, contribua! Já temos mais de 50 respondidos! Queremos mais!

São muitas coisas para discutir a partir das respostas dadas! Posso já dizer que, sim, nosso alfabeto ainda é ensinado na Bahia, seja no interior, seja na capital, geralmente concomitante ao outro. Isso já sabíamos. Mas é muito interessante ver as justificativas, tanto para ensinar um quanto o outro, ou ambos - e disso vamos tirar conhecimentos importantes. É interessante, por exemplo, a professora que diz que ensina o correto (o "oficial"), mesmo tendo aprendido, quando criança, o regional, pois aperfeiçoou sua prática quando teve contato com o alfabeto correto. Quantas representações sobre o abecê podemos observar nas respostas! Quantos conhecimentos e desconhecimentos! Lendo-os eu confirmei a necessidade de discutirmos sobre esse assunto com alfabetizadores, reafirmando a importância cultural e pedagógica dessa problemática.


Assim, minha gente, quem recebeu o questionário e ainda não respondeu ou ainda não o enviou para outros professores, como me prometeram, por favor, a hora é essa! Quem estiver no critério dos sujeitos da pesquisa, e quiser contribuir, pode solicitar o envio do questionário. Em setembro quero começar a organizar esses dados, tá?

Será produtivo para todos nós!
Obrigada,
Lica

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Oitava provocação sobre o abecê nordestino

Nas minhas pesquisas pela internet, vi alguns comentários defendendo o nosso alfabeto nordestino (alguns, nem um, nem dois), mas sob o argumento de que a origem dos nomes (ao menos o efe, ele, eme, ene, esse, erre) seria a influência da língua inglesa, mais contemporaneamente. Nesse argumento, as letras fê, lê, mê, nê, rê, si, teriam sido substituídas pelas inglesas (ef, el, em, en, er, es)...

E para completar o argumento, alguns comentários ainda ressaltam que seria tudo culpa dos brasileiros exaltarem a cultura americana.
Ainda que esse argumento da exaltação possa fazer sentido em outros assuntos, nada é mais equivocado do que atribuir essa explicação a uma história que é bem mais antiga do que isso...

Gente, o alfabeto latino é a base dos alfabetos usados por todas as línguas europeias, ao menos da Europa Ocidental, não só as línguas neolatinas, como o português, francês, italiano, espanhol, etc... mas também o inglês, o alemão, dentre outras...

A raiz é a mesma: o alfabeto latino (...que veio do grego...que veio do fenício...). Então não tem isso de ser influência americana em nosso alfabeto, certo? Trazer a questão para tempos mais próximos de nós, desse jeito, é desconhecer não apenas a história do alfabeto como a História mesmo, do Brasil, do mundo...

Da mesma forma que a questão do uso dos dois alfabetos não deve ser posta em termos de certo e errado, tampouco ajuda usar argumentos equivocados para defender nosso abecê.

Para saber mais, que tal essas indicações?:


Por ora, é isso,
Lica

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Sétima provocação sobre o abecê nordestino

Mais uma provocação sobre o abecê nordestino, mas dessa vez para falar, de novo, mais uma vez...

Já que vejo, mesmo nos compartilhamentos de meus posts, ou em conversas sobre o assunto por aí (onde vou tenho falado disso...rsrsrsrs... virou quase uma militância), comentários que insistem em pontos que quero ajudar a desconstruir...retomo aqui alguns pontos.

O abecê chamado de nordestino - por vezes de baiano, ou do sertão - não é errado. Não, o abecê dito oficial não é o correto...o único correto. As coisas não são postas em termos de certo e errado, nesse quesito, como em vários outros, referentes aos diferentes falares regionais.



Não, ele não é antigo, iletrado e risível. Se está desaparecendo é por conta da "colonização" do outro alfabeto, que por razões não linguísticas, vem se sobrepondo ao nosso.

Sim, ele era falado no Nordeste, e ainda o é em alguns municípios do interior, nessa região. Mas na Bahia, ainda se aprende e se fala, seja no interior ou na capital, embora em muitas escolas e famílias já tenha sido substituído pelo que se considera como "oficial".

Meus avós e meus pais, assim como eu, aprenderam esse abecê. Muitas gerações, desde o fim do século XIX ou início do século XX, quiçá antes, aprenderam esse abecê. São apenas oito letrinhas com nomes diferentes - e nem tão diferentes assim, pois fazem eco com os nomes das outras letras, em que, também "se ouve tanto ê" (como diz a letra de Luiz Gonzaga).

Não, fê, rê, lê, mê, nê...não soam estranho em si mesmas...Se soam (a alguns), é apenas por costume... Não é bê, dê, tê, vê, zê? Então qual a estranheza de fê, rê, mê, lê? Só costume...Não vamos julgar algo como certo ou errado, letrado ou risível, pelo etnocentrismo de nossos ouvidos, não é? Aliás, como eu disse em post anterior, pelos critérios de nomeação das letras, se fosse lógica e não arbitrariedade, vê e zê seriam eve e eze...que soam estranho porque essas não ficaram sendo como as outras: esse, erre, efe...(Em breve vou detalhar mais sobre a origem desses dois modos de designar as letras na história do alfabeto).

E não, não e não...Embora possa parecer uma explicação razoável, seja para criticar, seja para defender o abecê nordestino, ela não é uma explicação precisa. Não! O fê, guê, ji, lê, mê, nê, rê, si não são sons - e muito menos fonemas - são NOMES dessas letras, outros nomes. Nomes usados como tal, além de dicionarizados e indicados como realizações possíveis por gramáticas e pelo Acordo ortográfico. Assim, é preciso duvidar dessa fala de que efe, esse, eme são nomes e fê, si, mê são sons, fonemas... 

Sim, são nomes mais próximos dos "sons" que as letras representam - sem nenhum juízo de valor, nem para criticar seu uso, nem para defendê-lo. Mas são NOMES!

De novo, retomando, insistindo, militando...
Lica

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Sexta provocação sobre o abecê nordestino

Oi, gente!
Não se trata aqui, propriamente, de uma provocação, mas da indicação da estrutura do estudo sobre o tema, que será postado no blog e contará também com uma pequena publicação, contendo as 4 partes iniciais do estudo. Será editado pela EDUFBA – Editora da Universidade Federal da Bahia, e terá como capa uma ilustração de um mestre nordestino...Mas é surpresa, não direi mais nada, por ora.

A parte 5 será a comunicação da pesquisa que estou fazendo com professores (minha gente! Mandem os questionários respondidos! Estou recebendo!!!) e será postada no blog e em artigos, mais adiante, quando for finalizada.

A parte 6 será só no blog, ao menos por ora, com comentários de diversas pessoas sobre a temática. Essa parte também vai demorar um pouco mais.

Vamos lá, já tem título, sumário, estrutura:

O ABECÊ NORDESTINO
E AS LETRAS NA ALFABETIZAÇÃO

Introdução

PARTE 1: As letras e o alfabeto nordestino

a.              a.  Letras...seus nomes, seus sons, seus traçados...
b.              b.  O abecê nordestino

PARTE 2: Argumentos da história do alfabeto

PARTE 3: Argumentos da história da alfabetização

PARTE 4: Argumentos das pesquisas atuais sobre o papel do conhecimento das letras na alfabetização

a.  O contexto da discussão
b. De novo...as letras...
c. O ludismo poético das letras
d. E o abecê nordestino com isso?


Considerações provisoriamente finais

PARTE 5: As letras do alfabeto na alfabetização na Bahia: mini pesquisa de campo

PARTE 6: O ABC em várias vozes: depoimentos, relatos, comentários...em diferentes linguagens...

É isso, minha gente...
Em breve, posto a introdução e a parte inicial...Vou postando por partes, será resumido aqui, a versão completa sairá na publicação impressa, que será também disponibilizada para download.
Aguardem!
Lica

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Abecê do sertão

Bom, já falei que prefiro a expressão abecê do Nordeste do que abecê do sertão, porque aqui na Bahia ele não é só do sertão. Mas reconheço sua identidade sertaneja, do sertão nordestino. Claro! Imagina se eu iria contradizer o mestre Luiz Gonzaga!

Posto aqui o trailer do doc Sertão como se fala, dirigido por Leandro Lopes, que viajou com o seu coletivo por 9.500 km em sete estados no Nordeste, para investigar os usos desse modo de pronunciar as letras por aqui. O doc nos ajuda a ver que ainda existe esse abecê para além da Bahia, no interior de outros estados do Nordeste. 

O documentário está rodando festivais e, espero, possa contribuir para divulgar mais essa particularidade regional de nossa identidade cultural. Como eu não sei filmar e, muito menos compor e cantar, como Seu Lua, meu jeito de contribuir com essa discussão é pesquisando, escrevendo...


É isso, gente! Vão assistir quando passar por sua cidade, ou quando for disponibilizado.
Lica

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Quinta provocação sobre o abecê nordestino

Nessa quinta provocação, vou mostrar e comentar (mas não muito, algumas dispensam comentários!) algumas falas preconceituosas que pesquei na internet sobre o nosso modo de pronunciar os nomes das letras no Nordeste, ou que revelam desconhecimento de sua natureza, mesmo pelos que o defendem. Lógico que há também comentários muito positivos na internet, defesas, saudosismos, afetos...mas, para o argumento que estou construindo, que parte da ideia de que há muito preconceito infundado e desinformação sobre isso, por ora vou apresentar mais os negativos...e só alguns positivos, que ninguém é de ferro! 

Colei os prints, mas também os links das páginas de onde os retirei. Em alguns casos, vale assistir aos vídeos.

A partir de um vídeo no Youtube, de uma criança recitando o abecê nordestino (que nomeiam de “baiano”), vejam o comentário, "salvando-nos": a culpa é da escola que ensina assim... Ainda bem que, junto, vem um outro comentário que, de fato, salva um pouco, ao menos culturalmente..mas trazendo uma ideia equivocada de "mais correto".


Nessa outra página, UtilisInutilis, embora se apresentem como um blog de humor, de inutilidade, também o é, segundo eles mesmos, de curiosidades e informação. Vejam o absurdo: 


Mas o pior é que, aos comentários revoltados com tamanha asneira, a resposta dos administradores é só a de que o blog é assumidamente um blog de humor, como se isso fosse licença e desse aval para o preconceito e a propagação da desinformação. Nas palavras deles: 

Somos piada! Uma das maiores! E o humor justifica...

Comentários kkkkkkk pululam na internet...às vezes uma graça, inclusive de nós baianos mesmos, nos reconhecendo ao modo de Seu Lua - "engraçado ouvir-se tanto ê" - às vezes uma manifestação mais debochada.



“Rir com” é muito diferente de “rir de” – podemos até rir de algumas piadas que implicam em diferenças regionais, apesar de trazerem preconceitos e estereótipos, a gente pode rir de algumas delas e rir com eles também  – de outras regiões – sobre as coisas deles lá. Não pretendo defender a patrulha radical, mas uma coisa é brincar, a gozação quase amigável nas prosas entre amigos de outros sotaques, outra é "rir de", em cima de argumentos equivocados e preconceituosos, sem fundamento algum, e achar que se esconder atrás do argumento do humor dá conta. 

Mas aí, nesse Utilis Inutilis, não é isso, não é "rir com". É preciso se responsabilizar pelo discurso que profere; não é porque é para ele engraçado que, automaticamente está liberado para propagar informações equivocadas. Chamar-se Utilis Inutilis não é desculpa para amenizar o preconceito pesado que é passado com ares de humor sem consequência.

Não bastasse a postura deles mesmos, olha o comentário de outro, que prova exatamente isso: que a "informação" é tomada por muitos não como piada, mas como verdade. E tome-lhe mais desinformação e preconceito na interpretação e "explicação"... 


Não vou nem comentar esse...não carece. Não vale meu tempo...

Sei bem que o Facebook, o Youtube e outras redes estão repletos de preconceitos e desinformação de diversas ordens – e com baianos, então, já vimos o circo dos horrores! Tem coisa que não dá nem para considerar, tamanho despautério...ou vamos parar de acreditar na humanidade. Não sou ingênua ao fazer aqui esse recorte, sei que a questão é muito mais complexa.

Mas, de todo modo, vamos a mais algumas pérolas sobre o tema em questão, em algumas postagens, vídeos e comentários. 

Diante do vídeo, que já é de zoação, vejam os posts e comentários. Essa de baiano ser preguiçoso é antiga, mas aqui reinterpretada como preguiça até de pronunciar as letras "corretamente" – e o próprio baiano (no vídeo) reforça...se defende, mas reforçando... 


Gente! Socorro, pára que eu quero descer! Mesmo diante da canção linda de Luiz Gonzaga, mestre que dispensa apresentações, vejam os comentários:


Não Giancarlo, não "era", "é" ainda ensinado, e não por analfabetos, mas por profissionais alfabetizados e letrados. Muitos baianos ilustres, da literatura, intelectuais, das artes em geral, com reconhecimento nacional e mesmo internacional, foram alfabetizados assim. Sinto lhe informar!

E outra resposta a Ingrid J.:

Outra de envergonhar Seu Lula:

Ficou com vergonha de quê? Perdeu uma chance de apresentar a rica diversidade cultural e linguística de nosso país... 



Para falar tamanha asneira, melhor ficar anônima mesmo...


Sem comentários...

A resposta ao comentário em defesa da variedade linguística é de chorar! Noção “sem noção” do que seja certo e errado, o que seja dicionário e o que seja linguagem...


Em outro site, aqui, com a letra da canção de Luiz Gonzaga e Zé Dantas, em meio às muitas manifestações de admiração por Seu Lua, pela canção, pelos abc do sertão, vejam as duas pérolas:



"Assassino do português" não vale nem comentar, pois está claro que aí está em jogo o desconhecimento do que seja uma língua, uma variedade, além do desconhecimento de que esse modo de falar os nomes das letras é totalmente lógico e legítimo. Mas o comentário anterior mostra que não houve nem o entendimento da própria letra. Alguém pode me dizer como Gonzagão poderia fazer um hino ao abc que se fala no sertão, sem saber que esse é outro abc? E isso nem é o que ela escreveu ali...é pior... Está chamando os nomes das letras do alfabeto, efe, gê, jota, ele, eme, ene, erre, esse, de "fonemas"? Impressionante! Passemos adiante...

O site Vida de Programador postou a seguinte tirinha, que gerou também alguns comentários. Dêlêlê se refere aos arquivos DLL. 
Comentários:

Êita, William, então DLL necessariamente se lê dê-ele-ele? Tá puxado... E Cesar, provavelmente ninguém - ou alguns, sim, quem sabe - pronuncia dêlêlê, porque siglas com pronúncias consagradas de uma forma podem ser pronunciadas nessa forma, mesmo por quem nomeia as letras de outro modo em outros contextos. Ou se pronuncia o caminhão FNM como efe-ene-eme? E FFLCH como efe-efe-ele-che? Vejam sobre isso o post da primeira provocação, aqui

E aqui um exemplo de que até pode ser que digam dêlêlê:
Pois é, isso de achar que as letras se dão a ler transparentemente, como lemos os numerais, é frequente... Por exemplo parece ser natural que L, M, R, se leia ele, eme, erre, não é? Só que não! Veja esse aqui:


É salutar, embora esse caso seja de um relato amistoso em relação à perplexidade de conhecer o nosso abecê. Mostro:




Mas vamos a mais um caso: comentários ao vídeo com Vampeta recitando o abc...não dá pra saber quais foram os comentários do apresentador e dos outros para avaliar o tom, mas, nos comentários, sim. Desinformação, deboche, preconceito pesado... Bem como defesas igualmente “bairristas”, em disputas tampouco produtivas de qual seria mesmo o alfabeto “correto”. Começaremos pelos mais leves...

Nesse comentário abaixo em defesa do modo de nomear as letras na Bahia, aparece a confusão entre letra e som e o julgamento de “correção”, que também não procede. 


Abaixo, outra ideia que não procede, mesmo de defensores, visto que a nomeação de efe, ele, eme, ene, erre, esse e etc, chegou a nós pelo alfabeto latino e não pela “americanização” posterior da cultura ocidental, em função das dinâmicas sociopolíticas e econômicas. 


Não foi só nesse comentário que já vi dizer que seria influência do alfabeto inglês, e a referência ao fato de que brasileiro gosta de imitar os americanos. Essa é uma análise sem nenhum fundamento, pois o alfabeto usado pelos anglo-saxões, base do usado no inglês moderno, tem origem, igualmente, no alfabeto latino, como o português e as demais línguas europeias. Embora as raízes da língua falada sejam diversas, em termos de alfabeto, todos têm a mesma raiz latina (...que veio dos gregos...que veio dos fenícios...). Assim, além de equivocado  o argumento, será que precisa discordar, xingar, devolver com a mesma violência para defender o outro lado? Postas dessa forma, mesmo as defesas me parecem fragilizar a discussão.

No contexto de uma discussão sobre as pronúncias que seriam corretas das vogais E e O - se abertas ou fechadas -  surge um comentário, aqui, que defende a variação de "sotaque" quanto ao nome das consoantes também, mas incorre no mesmo equívoco de achar que nosso modo de se referir às letras não é nome, mas "entonação", pronúncia, "uso":



Justamente...se P é pê, o que impede de F poder ser fê, L ser lê? Que evidência há de que L deva ser, necessariamente, éle, e F, éfe? A afirmação toma como se houvesse uma evidência nas pronúncias em si mesmas...

Desse modo, às vezes, o que se revela nos comentários é o puro desconhecimento mesmo, não resvala ao preconceito - ou desconhecimentos como os casos acima, ou desconhecimento da existência desse modo de falar, como no caso abaixo. Nessa página de um professor português, em um post sobre a pronúncia da letra G – que em Portugal parece também oscilar entre gê e guê – o comentário é assim, com resposta certeira:


O seu Brasil, então, anônimo, não é o mesmo que o meu!

Mas essas situações, que revelam apenas a desinformação, não são nada diante das críticas pesadas aos baianos e à Bahia. Talvez ainda revoltados com os rumos da política nacional atual, talvez não...Não importa. O preconceito com nossa cultura é antigo. Vamos de volta aos comentários do vídeo de Vampeta, esse rendeu! E seguiremos com eles por algum tempo... Vamos lá, tem que ter estômago...




Ufa!!! A internet possibilitou termos a noção das asneiras que se pensa por aí... deu aval ao compartilhamento de posicionamentos absurdos, pelos que se reconheceram como muitos...

Bom, mas, às vezes, os próprio baianos dão “pano pra manga” ao preconceito, reforçando a opressão sofrida por seu próprio povo...e isso devido à desinformação, à falta de firmeza quanto a nossa identidade cultural e linguística e a certa exaltação ao que vem das outras regiões, supostamente mais “correto”. E, podemos ainda fazer a hipótese: tem muito baiano que não fica confortável com a ideia de se reconhecer como nordestino. Nem todos os baianos falam assim, Daniel, mas ao desconhecer ou rechaçar sua própria cultura, é você quem está em falta.


Não gente...principalmente se estão falando da Bahia, esse não é um jeito de decorar mais facilmente as letras ou de facilitar a aprendizagem quando criança, não se fala assim apenas na infância e, muito menos, é falar “anormalmente”. Nos referimos assim às letras, mesmo adultos, letrados. Pode até ter sido, na origem, um modo de facilitar a soletração – mas, pasmem! Isso veio da França e de Portugal, nem é “coisa de nordestino” nem originalidade baiana, ou algo do gênero. E esse “facilitar” em nada está relacionado à preguiça. No passado, antes da “colonização” do nosso abecê pelo outro dito oficial, aprendia-se assim, sem nenhum problema, mesmo na capital baiana. E em outras regiões do Nordeste também. O modo de referir a essas oito letras, diferente do outro abecê, não se limitava nem se limita à infância. Seguimos nos referindo desse modo às letras mesmo adultos – seja no passado, seja ainda hoje.

Conheço muita gente, muita mesmo, que fala assim, pronunciando as letras nordestinas nas situações sociais em que nos referimos a seus nomes (salvo nas siglas já consagradas). Podemos até usar as outras letras, mas se formos recitar o abecedário, muitos de nós só o faz com destreza, se for o nosso abecê, aprendido na infância. Na Bahia, esse modo ainda vive, ainda é ensinado e usado, para além da alfabetização, embora o outro abecê tenha substituído o nosso em muitas escolas.

Temos que buscar argumentos  mais contundentes e fortalecer esse traço de nossa identidade, e não simplesmente aceitar essa “colonização”, repetindo argumentos infundados.  Vamos defender esse uso, gente, não enfraquecê-lo!

Algumas defesas, entretanto, como essa abaixo, ficam no campo de disputas bobas, em termos de certo e errado, que não levam a nada, nem para defender, nem para criticar. Variar é próprio da língua... E aliás, essa defesa ou ataque, nesses termos de certo e errado, é “bairrista”, igualmente equivocada em termos histórico-culturais, como podemos ver:


Justamente, não tem isso de certo e errado, ainda mais quando se trata de um aspecto como esse, cuja historicidade mostra que ambos os modos tiveram origens muito remotas e ambos nos servem bem. Ambos nos servem bem! Podemos aprender a ler com efe ou com fê, são ambos legítimos. Como o último comentário acima citou, trata-se do mesmo alfabeto, só oito letras têm uma nomeação diferente. Tanto barulho por causa disso? (a questão é justamente porque isso só é um pretexto para escoar preconceitos outros, de outra ordem, com baianos e nordestinos). Inclusive, para quem se preocupa com a “oficialidade”, elas já são sim dicionarizadas, bem como, no Acordo de 1990/2009, as letras efe, gê, jota, ele, eme, ene, erre, esse são SUGERIDAS e há indicação de outras formas como realizações possíveis.

Como diz o comentário abaixo, mostrem as leis que dizem que nosso abecê está errado! Vamos buscar os fundamentos para justificar nossas posições! Vamos parar de querer justificar o injustificável – e por vários caminhos e argumentos podemos provar que são posições infundadas.


Mas em vez de revolta, de devolver na mesma moeda, prefiro me engajar em informar, em discutir a questão de modo fundamentado. Vamos reposicionar a questão, buscando informação. O desconhecimento é tanto motor de preconceito quanto da falta de firmeza na defesa desse traço de nossa identidade cultural, por nós mesmos.

No site do documentário Sertão como se falacuja equipe de filmagem, justamente, passou por diversos municípios do sertão nordestino, mostrando essa diversidade do modo de pronunciar as letras e sua relação com a cultura do Nordeste, encontramos esse comentário:


Não gente, efe não é nome e fê fonema – ele é que está confundindo palavra e fonema. Fê é o nome da letra no Nordeste. É lexicalizado, está dicionarizado. Fonema não se dicionariza, fonema não se pronuncia com ê, como já discuti em outros posts e como discutiremos mais a fundo em breve.

O desconhecimento, por vezes, é grave. Temos muitos nordestinos trabalhando e se alfabetizando em outras regiões, e recebemos nas escolas da Bahia crianças de outras regiões...Porque essas pessoas precisam passar por constrangimentos relativos a um conhecimento tão simples, de que 8 letras do alfabeto podem ter dois nomes diferentes em diferentes regiões. É tão simples de resolver – para que tanta celeuma inútil?

E isso vale tanto para quem ensina o abecê “oficial” dizendo ser a única forma correta, quanto para quem ensina o nordestino e aceita apenas essa forma. Temos duas formas, gente! Esse é um conhecimento que o Brasil todo deve ter. 

Vejam o caso abaixo relatado, bastante suis generis, que envolve diferenças entre os próprios nordestinos: os baianos, que, em muitos casos, se mantêm mais fieis ao abecê que antes circulava no Nordeste, e os pernambucanos, que, ao que parece, já o esqueceram, ou ele se manteve/se mantém apenas em algumas partes do sertão pernambucano...

De qualquer modo, diferente dos casos mais frequentes, que são de baianos que aprenderam exclusivamente o fê, guê, ji, lê, mê, nê, rê, si, e se veem confusos na alfabetização com o outro abecê, nesse caso aqui a confusão é, justamente, o contrário, esse abecê (aí referido como sendo apenas da Bahia) ser imposto como o único correto. Bom, quanto a ser da Bahia, concordo que, hoje, ele é mais amplamente usado na Bahia, mas em municípios de outros Estados do sertão nordestino ainda se vê também...


Percebem que a questão posta em termos de certo e errado não é favorável a NINGUÉM? Nem para assumir um abecê, nem o outro? Para ver outro relato interessante, ver aqui. Falar de diferenças regionais para aplacar o riso já instalado, como a autora do relato coloca, realmente não é bem o que resolve, mas se a diversidade for objeto de conhecimento desde sempre nas escolas, talvez possamos evitar tais constrangimentos.

Como as pessoas de diferentes regiões (e mesmo na mesma região) se deslocam por inúmeros motivos, o conhecimento, por todo Brasil, de que temos em nosso país dois modos de nomear algumas letras, é fundamental para que ninguém sofra esse tipo de constrangimento. Se nem no contexto do próprio Nordeste estamos imunes a isso, imagina entre diferentes regiões! Muita gente nem sabe que existe outra forma. Temos que, inclusive, desmistificar essa imagem do Nordeste como uma região culturalmente homogênea, tendo uma identidade única. Não é.

Agora, achar que o abc do sertão só existia na canção de Luiz Gonzaga, aí também já achei um pouquinho sem noção... e é uma nordestina! Nunca pensou no que a canção do conterrâneo queria dizer? Precisamos conhecer mais os nossos falares.

Pensando agora não em termos culturais, mas em termos linguísticos, um comentário a esse post traz, novamente, a confusão entre nome e som. Lógico que as letras nordestinas se aproximam mais do som – e por isso mesmo, tendem a facilitar a alfabetização – mas elas são nomes, não som, muito menos fonemas. Então, não tem nada a ver com método fônico. As letras, seja que nomes tiverem, representam fonemas  – isso é do funcionamento da notação da língua, não de um método específico de alfabetização, certo? 


Bom, continuando minhas pesquisas em blogs, Face, # diversas...fui achando outras coisas...
Aqui, o próprio baiano do interior diz:

Vejam aqui um depoimento atribuído a Kledir Ramil, cantor gaúcho, em um blog do Rio Grande do Sul. Há estranhamento, mas acolhimento de nossa peculiaridade. E dá notícia de que, de fato, ainda usamos esses nomes de letras nas práticas sociais cotidianas, quando temos que nos referir a elas. Ainda bem!

Em uma postagem da página Sou mais Bahia, no Facebook, ressaltando positivamente nosso jeito diferente de pronunciar as letras, vê-se, nos comentários, ao lado da exaltação do nosso abecê, coisas assim, que passeiam entre preconceito, desconhecimento...e reações:




É isso, gente... Diante de meu interesse pelo tema, fui pesquisando na internet e colecionando alguns prints, que me davam notícias de que, sim, há muito desconhecimento e preconceito quanto ao abecê usado em algumas partes do Nordeste. Usado antigamente de forma mais ampla e, em alguma medida ainda hoje, no sertão, mas usado especialmente na Bahia, mesmo hoje, onde ainda é ensinado em muitas escolas – geralmente simultaneamente ao outro – e mesmo na capital (a pesquisa que estou fazendo com professores de municípios baianos trazem notícias concretas sobre isso, em breve vamos conhecer os resultados).

A ideia de postar esses prints foi reforçada pela professora Dinéa Maria Sobral Muniz, da Faced/UFBA, quando apresentei esse estudo para uma turma dela de estágio supervisionado em língua portuguesa. É que, embora eu tenha os colecionado em minhas pesquisas pela internet, de início, fiquei reticente em postá-los, por receio de parecer que eu estaria entrando nessa disputa, nesses termos que questiono – o que não é o caso e o que não vejo sentido.

Meu intuito ao mostrá-los é apenas argumentar, a partir de dados concretos, que essa é, sim, uma questão importante de se discutir, embora aparentemente secundária nas pautas do campo da alfabetização. E é importante tanto pela questão cultural e sociolinguística envolvida, quanto devido ao fato de que, linguisticamente, nosso abecê faz todo o sentido, por nomear as letras de modo mais próximo a seus sons, usando o princípio acrofônico de forma direta – o que é tido como favorável ao estabelecimento de relação entre grafemas e fonemas, por vários estudiosos contemporâneos – como veremos em breve.

Esse princípio, aliás, como nos ensina o linguista Luiz Carlos Cagliari, está na origem mesma do nosso sistema alfabético, desde os fenícios. Retomado pelos romanos, foi essa ideia de os nomes dar pistas mais diretas dos sons das letras que, inicialmente, estruturou o alfabeto latino. Depois, como expliquei no post anterior, é que veio o jeito de nomear com o –e antes (efe) e não depois () da consoante.

Então vamos pesquisar mais, não é gente?

E para terminar, vejam que interlocução fantástica: o desconhecimento e o conhecimento em diálogo mais cortês, aqui. E voltemos aos ensinamentos de nosso querido Gonzagão:



Saudações alfabéticas,
Lica