Uni, duni, tê, salamê, minguê...

Uni, duni, tê, salamê, minguê...
Materiais a partir de textos da tradição oral

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

PARTE 2: Argumentos da história do alfabeto

Oi, gente!
Vamos à Parte 2 de nosso estudo sobre o abecê nordestino, trazendo argumentos da história do alfabeto. A parte anterior a essa está aqui.

Quando o alfabeto surgiu entre os povos semitas, as letras, como nos lembra Cagliari (2009a), partiram de uma lista de palavras (alef, beth...), cada uma com um som inicial diferente e cujos significados remetiam à forma figurativa dos hieróglifos egípcios que foram adotados. 

Ou seja, parece que as letras eram motivadas pelas imagens do objeto designado pela palavra e a letra inicial dessa palavra remetia ao som dessa letra. Isso é muito importante para nossa discussão. Cagliari (2009, p. 40-41) diz que “essas palavras passaram a ser os nomes das letras e um modelo de referência para se achar qual letra deveria ser usada, ao se analisar as palavras em seus segmentos fonéticos consonantais”.

O exemplo clássico disso é a primeira letra do alfabeto semítico, nomeada de aleph, que significava boi, e era representada pelo hieróglifo para boi. Assim, esse hieróglifo ficou sendo a letra que representava aquele som inicial da palavra aleph, o som /a/ - que era meio gutural, não como nossa vogal hoje. 

 Nessa origem do alfabeto, “um princípio acrofônico era a chave para decifrar e escrever o alfabeto: bastava saber o nome das letras, reconhecer o som consonantal e usar o caractere correspondente para escrever as consoantes que iam sendo detectadas nas palavras a serem escritas” (CAGLIARI, 2011, p. 3). Ou seja, isso de os nomes das letras darem a pista de seus sons, é que se chama de princípio acrofônico e, como estamos vendo, esse princípio está presente desde a origem da escrita alfabética. Aliás, é por isso mesmo que Cagliari (2009b, p. 14) diz que quem inventou a escrita inventou ao mesmo tempo as regras da alfabetização”.

Então, essa lista de palavras – primeiro abecedário, por assim dizer – serviu de base para o princípio acrofônico e acabou originando os nomes das letras. Embora remetendo a formas figurativas da escrita hieroglífica, o que guiou o estabelecimento dos nomes das letras foi, desde o início, a pista dos seus sons. Como Cagliari enfatiza, o alfabeto foi inventado através do princípio acrofônico: no nome das letras (em geral no início da palavra, mas não necessariamente) ocorre o som mais característico que a letra representa no sistema. E no início, era a letra inicial do nome que remetia ao som das letras.

Os gregos adaptaram o alfabeto semita dos fenícios aos fonemas sua língua e também modificaram os nomes das letras, que passaram a ser apenas nome de letras – nomes próprios – não mais vinculadas a um significado outro. Mas, em essência, mantiveram o mesmo princípio, ou seja, o funcionamento do alfabeto pelo princípio acrofônico: os nomes das letras gregas davam pistas do som dessas letras, e também nesse caso, de forma mais direta – era a letra inicial que se remetia ao valor sonoro da letra. Suas formas gráficas também perderam o caráter icônico, os nomes das letras, assim, já não seguiam o sentido, mas tão somente o princípio acrofônico. 

Percebam, então, que esses sistemas, que foram a base do nosso alfabeto latino, seguem esse princípio acrofônico pelo som inicial dessas palavras, ou seja, o som /a/ era representado pela letra alfa, cujo som inicial /a/ corresponde ao som daquela letra; o som /b/ era representado pela letra beta...

Chegando ao alfabeto latino, percebeu-se que, como a escrita alfabética se baseia na relação entre fonemas e grafemas, que o que importa é o som das letras, não era necessário que as letras tivessem nomes próprios. Assim, ao se apropriarem do alfabeto grego, por meio dos etruscos, e estabelecerem o alfabeto latino, os romanos modificaram os nomes das letras. E como nomear as letras? – Eis a questão. É Cagliari (2009a) quem continua a nos contar sobre isso. Os romanos entenderam que, se a chave para decifrar as letras estava nos seus nomes, não era necessário ter nomes próprios, especiais, para essas letras, como no alfabeto semita ou grego, bastava o nome remeter ao som das letras. Ou seja, se a escrita alfabética é baseada no princípio acrofônico, bastaria identificar os sons das letras para constituir seus nomes.

Com os sons orais das vogais, que são fonemas que soam, era fácil nomeá-las: bastava lê-las e esse era o nome delas: A, E, I, O, U. Como as consoantes precisam do apoio de uma vogal para serem pronunciadas, optou-se, para nomeá-las, por usar uma vogal de apoio. Desse modo, pareceu prático designar as letras por monossílabos iniciados com o som mais representativo de cada uma delas, seguidas de uma vogal, no geral a letra E, tornando esse nome pronunciável.  “Assim, as letras passaram a se chamar a, bê, cê, dê, etc” (CAGLIARI, 2009a, p.70). Por essa lógica, as letras F, L, M, N, R, por exemplo, deviam seguir esse mesmo sistema: fê, lê, mê, nê, rê... E o autor continua assim: “No começo, as consoantes se diziam pelo som inicial mais a vogal E, exceto K, que se dizia ka, Q que se dizia qu e X que se dizia iks” (CAGLIARI, 2009a, p. 70). Se essas eram as exceções, então a afirmação nos faz pensar algumas coisas:

     1) que sim, de início se dizia fê, lê, mê, nê, rê...;
     2) que os nomes das letras mudam na história.

Em outro texto (CAGLIARI e MASSINI-CAGLIARI, 1999, p. 177), afirma-se também que em algum momento da história do alfabeto latino, “havia duas maneiras de se dizer os nomes das letras, pois algumas tinham sofrido uma mudança de nome passando a ser ditas com um E inicial, seguindo o som da consoante, como em ef, el, em, em, er e es”. Então, vejam que coisa interessante!

Cagliari (2009a,1999) relata que foi com Varrão (116-27 a.C.) que os nomes das letras mudaram – ou seja, seus nomes deixaram de ser pronunciados de forma mais direta como na origem do alfabeto latino, com a letra inicial dando pistas do som que representam (ou seja fê, lê, mê...). 

Isso quer dizer que, indo longe na história do alfabeto, essa forma precede à forma efe, ele, eme, erre...Varrão foi um filósofo e enciclopedista romano, que escreveu a mais antiga gramática latina. Nela, ele sistematizou, além de outras coisas, os nomes das letras, pelo critério seguinte: distinguindo as consoantes oclusivas das demais, determinou que as não-oclusivas (fricativas, laterais, vibrantes e nasais) receberiam a vogal de apoio – a letra E – antes do som consonantal representativo do som da letra, ou seja: ef, el, em, en, er, es (depois pronunciadas em português como efe, ele, eme, ene, erre e esse).



Assim, na época de Varrão havia as duas designações possíveis para essas letras – a antiga, fê, lê, mê, nê, rê – e essa estabelecida pelas regras de Varrão. E essa forma dupla de dizer o nome das letras em latim passou, depois, de algum modo, para muitas das línguas europeias, como o português (mas não apenas para as línguas neolatinas). Vê então que, indo lá para trás, podemos questionar a precedência e mesmo a lógica dessa nomeação? Por razões históricas, a sistematização de Varrão ficou valendo, mas poderia nem ter ficado. 

Notem que, para novas letras que foram surgindo depois - porque as línguas e suas notações são dinâmicas e mudam na história -, as regras de Varrão nem foram mais consideradas – o que nos faz relativizar a necessidade e pertinência da regra. As letras V e Z,  embora representem fonemas fricativos (ou seja, não-oclusivas), sendo – tal qual usadas hoje – incorporações tardias no alfabeto latino, não entraram nesse sistema de Varrão para as não-oclusivas. Ou seja, pelos princípios de Varrão, uma vez ganhando esses outros valores, as letras V e Z deveriam se chamar eve e eze...!!! E foi assim? Não, né? 

  
Quando essas letras, com esses sons, surgiram, deram-lhes os nomes mais diretos, como se fossem oclusivas, pelo sistema de Varrão: vê, zê. Então para onde foi a lógica? Isso nos leva a pensar na arbitrariedade da determinação dos nomes das letras e, consequentemente, sobre o que seja certo ou errado nesse contexto. Essa determinação pode, realmente, ser tomada como o parâmetro, a medida de todas as outras alternativas de nomeação das letras? Tudo bem que, por algum motivo (não exatamente linguístico ou lógico), esse modo de nomear ficou valendo e se consolidou, mas a questão é, isso pode ser determinante para se tornar o único abecê legítimo?

Assim, esse aspecto da história do alfabeto nos remete, novamente, à nossa discussão sobre o abecedário nordestino, seja em termos de sua validade cultural, seja em termos de sua funcionalidade na alfabetização (sobre isso aprofundaremos mais nas partes 3 e 4). Saber dessa origem dos nomes das letras – seja em uma ou na outra realização – não nos ajuda a relativizar o uso do alfabeto “oficial” simplesmente porque “é o certo”? Não nos ajuda a recuperar a possibilidade de transmissão de nosso saber cultural de forma mais contundente? A assumirmos que no Brasil temos duas formas de nomear as letras? Tudo o que muda, exige historicidade para não se julgar inadvertidamente sobre o que seria “certo” ou “errado”, naturalizando o que tem história e, por vezes, uma história que não justifica, exatamente, tomar as coisas – mesmo no recorte de um dado momento histórico – como verdade dada, única, regida pela dicotomia certo/errado.

Se o alfabeto que se firmou como modo valorizado de designar as letras na língua portuguesa foi constituído historicamente, essa origem nos ajuda a relativizar essa história de “correto” e de “precedente”. A história nos ajuda a ver que nada é dado, assim, não pode ser considerado, essencialmente, e em si mesmo, o “correto”. Esse modo legitimado, “oficial”, não o é por razões necessariamente linguísticas, mas históricas, sociais, culturais, envolvendo relações de poder, a distribuição do poder entre os falares das regiões e dos sujeitos sociais.

Desvelar essas raízes e essa precedência não implica, no entanto, usar tais conhecimentos para argumentar sobre um suposto alfabeto “mais correto”, seja qual for, ou coisa do gênero, não se trata de disputa. Na verdade não é o que veio primeiro que importa, de fato, mas mostrar que, justamente, isso não constitui um argumento válido para legitimar uma forma em detrimento da outra. O que propomos é um reposicionamento da questão.

A história do alfabeto, contando-nos sobre a origem dos dois modos de designar as letras, também nos ajuda a entender que não procede dizer  que efe é nome e é som – e muito menos fonema – pois mostra que os nomes das letras, desde o início, foram dados a partir do princípio acrofônico, e inicialmente, pela relação mais direta: a primeira letra do nome da letra dando pista do fonema (ao menos de um dos fonemas) que essa letra representa. Por que, então, essa insistência em afirmar que se trata da oposição nome e som? Por que achar estranho lê, fê, rê...serem nomes, se bê, pê, tê...o são sem nenhum problema? só soa estranho (para alguns) porque se acostumaram com efe, não porque seria intrinsecamente estranho. Naturalizar o circunstancial por desconhecimento pode não ser o problema, o problema maior é não querer considerar as circunstâncias para continuar defendendo o que lhes “soa melhor”.

As consoantes F, L, M, N, R e S, que mudaram de nome, tendo o som consonantal precedido da vogal E (ou I, no caso do S), em vez de seguido dela como as demais letras, são as que se distanciaram mais do princípio acrofônico. Ainda são regidas por esse princípio, pois o som da letra de referência continua lá (o fonema /f/ se ouve em efe), mas não é mais no início da palavra, como nas escritas fenícia e grega e, inicialmente, também no alfabeto latino. Ou seja, o que a história parece mostrar é que, com esse sistema de nomeação introduzido por Varrão,  afastou-se mais o nome de algumas letras de suas formas sonoras correspondentes, e por razões bastante arbitrárias.
ATENÇÃO: O caso da letra G é especial, pois ambos os nomes, e guê, dão pistas de um dos valores sonoros que a letra assume no sistema, ambos sendo oficialmente reconhecidos, e o caso do J também, pois tem um processo de nomeação diferenciado. De qualquer modo, no nome jota ouvimos muitos sons que não fazem parte do valor sonoro da letra J, sendo o nome ji mais simples, como o si. Discutiremos sobre isso mais em detalhes na publicação sobre essa temática.
Certo é que a representação do som da letra seguida da vogal favorece mais o estabelecimento da relação entre nome da letra e o fonema que ela representa, pois esse nome, construído como é no alfabeto nordestino, é mais aproximado de seu valor sonoro nas palavras – discutiremos adiante as implicações disso na alfabetização, o próximo post traz argumentos que reforçam essa ideia.

Os argumentos da história do alfabeto, entretanto, se nos ajudam a desvelar a origem dos dois abecês, não explicam exatamente os usos do abecê no Nordeste do Brasil –especialmente no sertão, mas não apenas, amplamente na Bahia, mais não apenas –em tempos bem mais próximos de nós, antes de o modo oficial de pronunciar as letras chegar às suas escolas.

É sobre isso que discutiremos no próximo post, em que traremos argumentos da história da alfabetização no Brasil.


terça-feira, 17 de outubro de 2017

Sertão como se fala

Esse post é apenas para registrar o lançamento on-line do filme realizado por Leandro Lopes e o Coletivo Adiante, já bastante referido aqui no blog e no Face. 

Para ver o filme em tela grande, clique no ícone de aumento da tela, no título abaixo ou aqui: Vimeo


É isso, gente.
Assistam!
Para saber mais sobre a realização do filme, ver aqui no Blog e no Face do filme.
Lica

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

PARTE 1: As letras e o alfabeto nordestino

Antecede esse texto a parte da Introdução, já postada.
Discutir sobre o abecê nordestino no contexto da alfabetização, requer tanto uma abordagem de cunho cultural, quanto linguística e pedagógica. Nessa primeira parte busca-se contextualizar a questão da nomeação das letras nesse abecê, esboçando o posicionamento quanto ao lugar do aprendizado das letras na apropriação da escrita alfabética, bem como introduzir as questões culturais e linguísticas que envolvem os usos e o ensino do abecê nordestino, apresentando, em especial, o argumento sociolinguístico que perpassa a problemática posta nesse estudo.
No post aqui no blog, irei apenas trazer notícias do que será discutido nessa parte, no estudo que será publicado em breve, tanto devido ao tamanho do texto, quanto para manter a surpresa. 
a. Letras...seus nomes, seus sons, seus traçados...
Nessa parte, vamos discutir sobre o lugar das letras na alfabetização. Entre perspectivas que negligenciam a aprendizagem das letras, pois enfatizam que a alfabetização se dá na imersão nas práticas letradas, e, no outro extremo, a perspectiva que aborda o ensino das letras, seus traçados, seus nomes e/ou seus sons, de forma mecânica e descontextualizada das práticas de leitura e escrita, é preciso, e possível, achar um caminho outro que não essa oscilação entre extremos. Aprender os elementos da notação alfabética também faz parte das aprendizagens relativas à cultura escrita e aprender as letras não se resume a aprender uma lista de caracteres. As letras são os caracteres da escrita! Caracteres de um sistema complexo. As crianças que convivem com a cultura escrita, desde bem pequenas, sabem disso, podem saber disso, querem saber. Elas têm contato com letras de diversos tipos, traçados, presentes em diversos materiais, em diferentes situações socioculturais, apresentando, desde cedo, um interesse crescente por essas marcas gráficas, principalmente aquelas letras presentes em seus nomes próprios, de seus familiares e colegas.
Exemplo de atividade mecânica tradicional.
Para superar práticas de alfabetização que se construíram operando um apagamento das práticas de leitura e escrita, que investiam na cantilena do alfabeto inteiro, na grafia de letras individualizadas, descontextualizadas, na soletração de letras e/ou na junção delas em sílabas soltas, foi preciso radicalizar, tivemos que nos armar contra isso, que era igualmente maltratar os caracteres da escrita alfabética. Mas será que, para defendermos as perspectivas com foco nos textos e discursos, é necessário nos armar contra as letras em si mesmas e seu aprendizado, operando igualmente um apagamento dos aspectos linguísticos da notação alfabética? É preciso aprender as letras, claro! Aprender a reconhecê-las e grafá-las, aprender seus nomes, para podermos nos referir a elas e ir aprendendo as relações com seus “sons”,– são aspectos que fazem parte das aprendizagens linguísticas e da metalinguagem envolvida no aspecto notacional da linguagem escrita.
Aprender os nomes das letras, discutiremos mais adiante, é importante também porque os nomes dão pistas de seus “sons”, no caminho de apropriação da notação alfabética.
Os estudos históricos e linguísticos de Cagliari e Massini-Cagliari (1999) nos ensinam sobre a constituição e a beleza do alfabeto, suas possibilidades e limites, sobre a configuração gráfica e funcional das letras e a relação entre essa configuração gráfica e a configuração funcional, na alfabetização,  bem como nos ensinam sobre o princípio acrofônico (CAGLIARI, 2009a, 2009b), que usamos para decifrar os valores sonoros das letras, e sobre o qual falaremos muito aqui ainda.  Com Cagliari (2009a, 2009b, 2011) aprendemos tantas coisas interessantes sobre as letras e o alfabeto, através dos tempos e espaços, na história da constituição dos sistemas de escrita pela humanidade. Essa história mostra a importância das letras na constituição histórico-social da escrita, do sistema alfabético, e em sua aprendizagem pelos sujeitos. É a essa potência que nos referimos aqui ao falar das letras. 


As letras não negam os textos! Elas são os seus tijolos. Assim, reafirmo as letras e a sua aprendizagem como aspectos importantes no campo da alfabetização, marcas que interessam às crianças – mesmo às pequenas, quando convivem com a escrita no dia a dia. Trata-se de um conhecimento que é social, que precisa ser ensinado às crianças, no contexto da apropriação da cultura escrita.
Bom, mas essa história toda sobre letras é, também, para justificar a conversa sobre o alfabeto nordestino – ou do  abecê do sertão, como dizem. Ao menos, por ora, por isso. Ou seja,uma conversa sobre o jeito de chamar as letras, atribuído ao falar do Nordeste, do sertão. E vamos então ao abecê nordestino.
b. O abecê nordestino
O jeito de falar as letras no Nordeste é referido, muitas vezes, como uma variedade linguística do nordestino, outras vezes como vício de linguagem, curiosidade exótica, às vezes com uma tolerância regional quase romântica, outras vezes sendo alvo de chacota e preconceito, como vimos aqui. Como nos ensina Maurizzio Gnerre (1985, p. 4)“[...] uma variedade linguística ‘vale’ o que ‘valem’ na sociedade os seus falantes, isto é, como reflexo do poder e da autoridade que eles têm nas relações econômicas e sociais”, e nesse quesito, o preconceito com o Nordeste extrapola as questões linguísticas, o preconceito linguístico é, pois, antes de tudo um preconceito social. Em vez de tomar todas as formas como variações, um modo de falar, nessa perspectiva, é visto em comparação com uma forma tomada como a correta – que o é por razões históricas, políticas, sociais, não propriamente linguísticas. Como nos lembra Bagno (2002a, p. 180), Fontes, referindo-se ao português do Brasil em relação ao lusitano,  já denunciava, em 1945, que o “desprezo de nossa língua anda sempre irmanado ao descaso por tudo o que ela representa: a gente e a terra do Brasil”. O mesmo se dá entre os falares, as gentes e as terras de diferentes regiões do Brasil.
Como pano de fundo sociocultural em que a questão do abecê nordestino está ancorada, e fazendo coro com o campo científico de estudos sobre as variedades linguísticas e sobre o preconceito social envolvido nessas questões, trago aqui a voz de Marcos Bagno, no prefácio do Dicionário do Nordeste, de Fred Navarro, que diz que, apesar de todo o avanço científico na área da linguística, especialmente da sociolinguística, continua circulando na sociedade concepções de língua falada e escrita que são arcaicas. O autor, de certo modo, ressalta o papel da mídia brasileira, que não parece estar interessada em dar um tratamento científico aos fenômenos de linguagem, tratando do tema a partir de caricaturas dos falares regionais. Diz Bagno (apud NAVARRO, 2004, p. 12): “Em suas manifestações sobre a língua, a mídia brasileira perpetua uma série de crenças infundadas, baseadas numa visão estreitamente normativista e estereotipada dos conceitos de ‘língua certa’ e ‘língua errada’” que “ajudam a preservar e a nutrir um tipo de preconceito profundamente arraigado na nossa cultura, o preconceito linguístico, fator de exclusão social”.
Dialogando com essa perspectiva de fundo – mas não apenas essa – é que vou me debruçar aqui sobre o abecê do nordeste, ou seja, o jeito de nomear as letras fê, guê, ji, lê, mê, nê, rê, si. Lembro, inclusive – como já postei aqui numa das provocações que iniciaram essa discussão – que essas formas estão registradas em dicionário (Houaiss, Aurélio e outros) e indica-se outras possíveis designações no Acordo Ortográfico de 1990, reiterado em 2009. O argumento – tal qual ouvi ou li aqui e ali – de que esse abecê “oficial” seria o certo porque “está na gramática”, nas normas para a língua, não tem lastro nos estudos sociolinguísticos e nem mesmo nesses documentos descritivos ou normativos. Para nós, da área de linguagem, não há nenhuma dúvida de que gramática não é sinônimo de língua – que é muito mais ampla e apresenta variações – para o senso comum, no entanto, esse poderia ainda se constituir em um argumento para defender o alfabeto “oficial” como o correto e basear posicionamentos preconceituosos. Vemos no entanto, que nem isso se sustenta. Precisamos, pois, sair de uma posição de preconceito ou de ingenuidade, e estabelecer uma discussão realmente frutífera e esclarecida sobre o tema.
E para dar início a essa discussão esclarecida, começaremos pelos artistas nordestinos da palavra, representantes da voz da cultura popular em articulações com a cultura em geral, que muito nos ensinam nesse sentido. Luiz Gonzaga, em seu “ABC do sertão” (composta com Zé Dantas), é quem nos dá a notícia mais certeira do jeito de falar o alfabeto no sertão nordestino. Assim também é o cordel “A letra é rê e não erre”, do baiano Noédson Valois, o Nonói contador de “causos”, menos conhecido, que afirma esse abecê, defendendo-o melhor do que nós – estudiosos do campo da linguagem – poderíamos fazê-lo.

Ouvir aqui.
A canção contribuiu muito para divulgar essa prática do ensino do alfabeto, inclusive, fora do Nordeste do Brasil, mas, a despeito disso, como vimos na quinta provocação sobre o abecê nordestino, postado aqui no blog, há quem consiga até mesmo criticar a canção, sob o argumento de que “assassina a língua portuguesa”, ou que Gonzagão era analfabeto e por isso não conhecia os “fonemas”, dentre outras pérolas, que vocês podem ver aqui. Note-se, entretanto, que, de algum modo, o uso desse abecê aparece na canção como algo escolar: “pros caboclo ler, têm que aprender outro abecê”, “na escola é engraçado...”. Se Lua fala do sertão por contraste, como alguém que se encontra num entre-lugar, do qual pode ver a diferença, pode julgar “engraçado”, quase assumindo – digamos assim – certa comicidade ou atraso na situação. Ou seja, fala para uns e para outros, então.
Nonói, por sua vez, é mais explícito no seu jogo de contrastes, argumenta e contra-argumenta sem dó. Falar erre, esse, ele... seria, para ele, uma inovação sem necessidade, o abecê “oficial” seria uma espécie de “remendo”. E, para isso, brinca com as palavras: “a letra é rê e não erre!” Com Nonói, não vamos errar!
CD Bahia Singular e Plural (IRDEB, 2000) – Vol. V (faixa 6)
Ouvir aqui: 

No caso desse cordel, a afirmação do uso do abecê aparece para além da escola, para além do momento do ensino da leitura – “é assim que a gente lê” –, embora, evidentemente, relacione-se também com o contexto escolar. 

Essa pérola de Nonói foi José Rêgo que me mostrou, e faz parte, igualmente, do repertório da Canastra Real, junto com o “ABC do sertão”. 
Antes de seguir, quero não deixar dúvidas a respeito do lugar do qual eu mesma falo – sou nordestina e o alfabeto que aprendi, aos 5 ou 6 anos, era nordestino... (e eu não era do sertão, mas de Salvador mesmo). Falo desse lugar... Então, sigamos.
Já vi atribuírem o uso desse alfabeto no sertão ao fato de os professores, nesse contexto, serem, em grande parte, professores leigos, antes das instituições e dos programas de formação chegarem aos municípios mais distantes dos centros urbanos. Ora, podemos nos perguntar: por serem leigos, não tiveram acesso ao conhecimento “correto” do nome das letras ou, por estarem longe do discurso oficial, estavam menos sujeitos à “colonização” desse modo de falar, à hegemonia dos modos de ser da linguagem falada nas regiões sul e sudeste? Será que ele era usado só no sertão mesmo? Sou moça da alfabetizada no início dos anos 70, na capital, zona urbana litorânea, minha professora era formada, e só vim conhecer o efe, gê, jota, ele, eme, ene, erre, esse quando bem maior que isso! Até hoje oscilo entre um e outro...e pronuncio, sem pensar nem pestanejar, normalmente, as letras “nordestinas”. O alfabeto sai, de mim, mais rápido e natural assim... E então, mesmo considerando que não é tão simples discernir o alcance daquilo que venha a ser “sertão”, se no Brasil o conceito é, geralmente, associado ao interior, bem como à aridez, ao atraso, à miséria, ao iletrado, de falar chulo, e, mais objetivamente, no sentido geográfico, considerado uma subárea ou sub-região que envolve vários Estados – Alagoas, Bahia, Ceará, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe – podemos, então, questionar que seja só do sertão mesmo, ainda que reconheçamos sua forte identidade sertaneja – quem somos nós para negar Seu Lua, não é? Mas, então, por que esse alfabeto ficou sendo no Nordeste? Porque ficou sendo do sertão? É do Nordeste ou é do sertão? E é só do Nordeste? Por que será que permaneceu mais forte na Bahia? Por que será que na Bahia não é só no sertão que “se ouve tanto ê”, diferente de outras capitais que estão, efetivamente, na sub-região do sertão, mas já o “esqueceram”? Será que no processo de “invenção” do Nordeste, tal qual discute Albuquerque Jr. (2009), toda a região Nordeste ganhou um caráter sertanejo e por isso, caberia falar de abecê do sertão, mesmo havendo uso na capital, ao menos na Bahia? E mais... quem determinou o alfabeto “correto”? De onde surgiu o efe, e de onde surgiu o fê? O gê, o guê, o jota, o ji?... Qual as raízes de cada um deles?
Essas são questões que precisamos colocar, mesmo que algumas, não consigamos responder. Para tentar compreender alguns desses aspectos, ou ao menos buscar mais indícios e trazer a complexidade da questão à mostra, se faz necessário mergulhar em um campo complexo de informações históricas, que envolvem ora a história da escrita, da constituição do alfabeto,ora a história dos métodos de alfabetização no Brasil. E ainda tem a cultura do Nordeste...São muitos aspectos a considerar.
Um argumento de base nessa questão é o argumento das variedades linguísticas e suas relações com questões de ordem cultural e sociopolítica. Entretanto, mesmo se tomarmos a questão do abecê pelo viés da variação linguística regional, com todo o respaldo sociolinguístico e cultural para validá-lo, ainda me parece faltar uma discussão mais ampla sobre ouso desses dois tipos de alfabeto, suas origens, seus usos, suas funcionalidades. Assim, é pertinente situar a problemática e trazer alguns aspectos para continuarmos a pensar sobre isso, fundamentando nossa defesa do alfabeto que usávamos e ainda usamos, em alguma medida, no Nordeste, e buscando um posicionamento mais potente diante desse uso. Embora não seja uma pesquisa fácil de ser feita, e se ache pouca coisa sistematizada sobre o tema, quero levantar ao menos alguns aspectos que possam, porventura, contribuir nesse sentido. E não apenas para os nordestinos! Trata-se de uma herança cultural brasileira e da história da alfabetização no Brasil!
Nisso, saber como, historicamente, se chegou a essas duas formas de designar certas letras – o fê, guê, ji, lê, mê, nê, rê, si e o efe, gê, jota, ele, eme, ene, erre e esse – ajuda bastante a situar a questão de outro modo. Quem traz alguma informação sobre isso, desde a constituição de nosso alfabeto latino, é o linguista Luiz Carlos Cagliari, ao tratar da origem do alfabeto na história da escrita (Parte 2). Cagliari é quem nos ajuda a desmistificar, em primeiro lugar, isso de que uma forma seja mais correta que a outra (2009a), mostrando as origens remotas de ambas as formas do alfabeto.

Nada mais pertinente para combater o preconceito linguístico e o tom jocoso do preconceito social, imbricado naquele, do que passear um pouco pela historicidade dos fenômenos. Não para criar disputas, justificar-se, mas para reposicionarmos a questão em outros termos. É sobre isso que falaremos na parte 2, no próximo post
Aguardem!

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

O ABECÊ NORDESTINO E AS LETRAS NA ALFABETIZAÇÃO


Introdução

Lá no meu sertão pros caboclo lê
Têm que aprender um outro ABC
O jota é ji, o éle é lê
O ésse é si, mas o érre
Tem nome de rê

Luiz Gonzaga/Zé Dantas

Há muito tempo me interesso por alfabetização...e há muito tempo me interesso pelo alfabeto... e pelo “alfabeto” que se falava e ainda se fala em alguns lugares no Nordeste, e que ainda se ouve fortemente na Bahia. Por aqui ainda se vê ensinado nas escolas, como vamos constatar com a pesquisa que estou fazendo entre professores baianos, e cujos resultados darei notícias por aqui. O alfabeto, no sentido do sistema de notação da língua, é o mesmo, isso está claro! O que muda é apenas o jeito de nomear as letras. E talvez, por isso, fosse mais apropriado falar em “abecê no Nordeste”.

Não se trata de sotaque, mas de nomes outros. Quando essas letras são convocadas a dizer seus nomes e soam em alto e bom som, observamos que esses nomes se aproximam mais do som que lhes são correspondentes: fê, guê, ji, lê, mê, nê, rê, si, como é o caso de outras letras, como o bê, pê, tê, vê, zê, dentre outras letras ditas “oficiais”, e que ninguém estranha. Esses oito sons que se diferenciam do abc convencional dão “pano pra manga” – como se diz.

Mostrei aqui no blog inúmeras ocorrências de desconhecimento e de preconceito contra esse abecê. Um desconhecimento comum é o de que efe é nome e é o som da letra. Ora, esses nomes das letras podem ter, sim, nascido da tentativa de nomeá-las por seus sons, somando-lhes uma vogal de apoio. Mas os nomes das letras são unidades lexicais, os fonemas não. Fonemas são unidades representadas por letras (por grafemas), não são lexicalizados. Precisamos, como venho discutindo aqui, ir além dessa conclusão de que efe é nome e é fonema, som. É engraçado que esses nomes, fê, guê, ji, lê, mê, nê, rê, si, sejam associados à fonética, ao som, mas bê, cê, dê, pê, quê, tê, vê e , construídos pelo mesmo princípio, não o sejam – e tenham, sem pestanejar, o status de nomes de letras! Veremos adiante, na parte 2, que esse argumento se desfaz quando entendemos que em sua própria origem, o alfabeto trazia, em sua essência, essa ideia de o nome das letras darem pistas dos seus sons.

Para esclarecer melhor nossas ideias sobre a questão, podemos recorrer a argumentos pela via das diferenças culturais e variações linguísticas regionais, juntando essa questão às tantas outras referentes aos falares nordestinos. Os argumentos culturais e sociolinguísticos são, de fato, primordiais nessa discussão. Entretanto, eu sempre quis poder aprofundar mais a discussão sobre isso. Para além da variação e da defesa dos traços que compõem a nossa identidade cultural, eu queria compreender onde vêm esses dois abecês distintos e seus usos no Brasil, que notícias essa origem e seus usos no ensino da língua de antigamente nos dão sobre sua legitimidade, e trazer a discussão para o campo da alfabetização hoje. E esse estudo, que traz algumas luzes e muitos questionamentos, nasceu desse desejo. O abecê usado na Bahia sempre me intrigou.

Somou-se a isso, o fato de que meu marido, José Carlos Rêgo, artista da Canastra Real – Contos em cantos, tem o “Abecê do Sertão”, de Luiz Gonzaga e Zé Dantas, no repertório de algumas apresentações e, sempre que a conversa é com professores, lembra do que me ouviu falar a esse propósito, uma vez, referente ao princípio acrofônico. Voltaremos a essa questão adiante. Por ora, refiro-me a isso, pois essa conversa sobre o abecê com a Canastra – uma das conversas que temos entre nós nessa nossa parceria por temáticas afins – foi um dos empurrõezinhos que tive para, enfim, retomar essa ideia, essa vontade, e concretizar a escrita desse texto. Aliás, planejar uma aula-espetáculo para alfabetizadores, junto com a Canastra Real, é um dos planos para hora dessas....mas eu fico só com a parte aula...a parte de se “amostrar” do espetáculo, fica com eles!

http://canastrareal.wixsite.com/canastrareal/
Além das defesas e dos ataques ao nosso abecê, ouvi  contar também situações em que educadores e pessoas em geral, de fora do Nordeste, nunca tinham ouvido falar desse modo de pronunciar os nomes das letras do alfabeto. Mesmo nordestinos, salvo parte dos baianos, parecem ter certo estranhamento com essa forma de nomear as letras, bem como há baianos que atribuem esse uso a algo antigo, limitado ao momento da alfabetização. Assim, será que faz sentido mesmo denominá-lo alfabeto ou abecê nordestino, ou ainda abecedário nordestino? Ele é/foi realmente do Nordeste? Em todo o Nordeste? Só no Nordeste? Só no sertão? É abecê da Bahia? É um abecê só da alfabetização inicial ou esses nomes perduravam para se referir às letras? São questões instigantes, discutiremos sobre elas adiante, por ora, quero assumir a expressão “abecê nordestino”, mas com essas ressalvas. É bom lembrarmos que a questão da identidade cultural regional não é tão simples. É preciso, como ressalta Albuquerque Jr. (2009), desmistificar a ideia de um Nordeste culturalmente homogêneo.

Recentemente foi lançado o documentário “O Sertão como se fala”, realizado pela equipe do Coletivo Adiante, já referido aqui no blog. Revendo o trailer:


Como alguém muito interessada sobre isso, confesso que eu fui assistir ao filme esperando um pouco mais de informações sobre a nosso abecê. O filme é muito bacana e cumpre o papel que lhe cabe como “ensaio audiovisual”, apresentando e provocando esteticamente a discussão, divulgando a identidade cultural e linguística na contramão do que circula na grande mídia e no senso comum. Mas, ainda assim, me deixou com gostinho que “quero mais”. Mas isso porque eu já tinha esse interesse prévio e o desejo de entender mais as raízes desses dois abecês. Apesar de anunciar que se propunha a investigar as raízes deste modo de falar, a partir de narrativas de alunos e professores que aprenderam e ensinam as letras do alfabeto do sertão, bem como narrativas de artistas da palavra e alguns estudiosos, o documentário não mergulha muito nessas origens – visa apenas a mostrar que ele ainda está por ali seja em uso ou na memória de habitantes do sertão nordestino. Tem um mérito grande de apresentar esse modo de pronunciar as letras como parte de uma herança cultural sertaneja mais ampla, explora aspectos dessa cultura e até a relação desse falar com outros aspectos que criam a ideia – e o filme a problematiza – de um nordeste esquecido, leigo, atrasado. Aponta também o aspecto do desaparecimento dessa prática pela padronização do alfabeto, o que é bastante interessante. Uma coisa bem bonita é ver os artistas da palavra ressaltarem a poética do nosso abecê, em contrapartida ao uso padrão do abecê "oficial". 
Mas achei que há pouca investigação, de fato, com foco nas raízes e nos usos desse abecê, culturalmente e linguisticamente, talvez, justamente, pela pouca informação que temos disponível sobre o tema. No próprio site do projeto podemos ler:
Tendo em vista a falta de material de pesquisa acessível e produções que tratem sobre o tema, o “Sertão como se fala” pretende construir um registro artístico de aspectos históricos e sociais que podem estar em extinção no Brasil e propiciar uma reflexão crítica sobre o imaginário popular, social e político do povo sertanejo. Deste modo, o filme terá como característica a responsabilidade social e cultural de manter viva a memória, o pensar e também de valorizar a cultura brasileira – em especial a da região sertaneja, aquela de maior miséria e  desigualdade do país. 
Claro que entendo que se trata, aí, do registro artístico de uma questão sociocultural e histórica, e não de uma pesquisa científica e, de fato, como já sublinhei, há pouco material sobre o tema. Mas considerando a intenção dos realizadores em contribuir para valorizar e manter viva essa memória, esperei que a perplexidade das indagações sobre os usos desse alfabeto levassem a uma construção discursiva mais substantiva. Por vezes, a realidade dos professores leigos de antigamente e um uso não-padrão do alfabeto quase ficam valendo como explicações da origem desse falar, o que me pareceu muito simplório e ainda sob a égide de certa primazia cultural do outro alfabeto. O letrado? Estaria aí em jogo um anúncio de um suposto conflito entre o registro regional oral e o registro escrito, letrado, mais erudito? Está certo que o alfabeto nordestino pode ter se propagado oralmente, a partir de mutações que foram estabelecidas por certa tentativa de facilitação da alfabetização, assim como há aí também algo do conflito que se estabelece entre o ensino da escrita tipicamente escolar, fundado na norma culta, e os diferentes usos informais e populares da língua, como discute Colello (2011, p. 65). Mas a história parece que é bem mais complexa do que isso, como veremos adiante, na parte 3 do texto. Além do mais, práticas orais e práticas letradas se imbricam de formas bem mais complexas do que polaridades estanques dão conta. A professora que me alfabetizou, aqui em uma escola particular renomada de Salvador não era leiga! O ensino da escrita tipicamente escolar na Bahia, mesmo na capital, incorporou esse jeito de dizer os nomes das letras. Por isso mesmo, uso, preferencialmente, a expressão “abecê do Nordeste” e não “do sertão”. Precisamos olhar para esse fenômeno de modo mais amplo.

Claro que a produção audiovisual referida vale, e muito, por chamar a atenção a um aspecto que pode estar se acabando, devido à “colonização” do modo supostamente “correto” de pronunciar as letras e por divulgar e propiciar uma reflexão crítica sobre essa história e herança cultural do Brasil. Só por isso, já é válida. Para mim, valeu também por saber que tem outros estados em que ainda “se ouve tanto ê”... porque perguntando aqui e ali a gente da capital, em outros estados, vi pouca presença desse abecê na referência das pessoas. Temos ele ainda vivo em Salvador. E porque é muito bonito, bem realizado, instigante.

O foco do filme é esse mesmo, cultural. Linguisticamente, os argumentos ficam ainda vagos, mas isso porque é próprio ao filme trazer a questão pelas vozes dos moradores dos municípios. E nessas vozes, aparecem alguns elementos, mas não houve intenção de uma costura discursiva que desse pistas sobre esse modo de pronunciar as letras e seu uso. Com certeza, além de talvez não o intencionaram, os realizadores se esbarraram nas lacunas de informação, nos limites entre os objetivos de uma obra audiovisual e de um estudo mais aprofundado. E aí, justamente, entram outras referências... Nem tudo que era minha expectativa, era intenção deles com o filme. Claro! A vontade de entender mais era minha! Assim, como eu não sei compor nem cantar, como Seu Lua, nem fazer filmes, como Leandro o Coletivo, eu pesquiso...eu estudo...eu provoco...eu escrevo... Minha contribuição!

O lugar do qual eu falo, entretanto, reafirmo, é de educadora, interessada no campo da linguagem, da alfabetização e da cultura escrita como parte da cultura mais ampla. Assim, preocupo-me não apenas com os aspectos histórico-sociais dessa discussão, da defesa de um modo culturalmente legítimo de nomear as letras, mas também, seu aspecto pedagógico. Portanto, além de buscar entender – na medida do possível – um pouco mais sobre a questão desses dois modos distintos de pronunciar o alfabeto no Brasil, pretendo tecer considerações também a respeito do uso das letras e suas relações com as unidades sonoras da língua, como parte do processo de alfabetização e sobre a legitimidade e a pertinência, em termos linguísticos, do alfabeto nordestino na alfabetização. Disso, aí sim, eu entendo um pouco mais... Não se trata de argumentar sobre substituir o “tradicionalmente” usado, nem folclorizar a variação regional. O que quero é que ele possa ser ensinado, como foi por muito tempo – e ainda o é – em alguns lugares da região nordestina, ao lado desse, como um outro modo de designar as letras – e não como vício, erro, ignorância, como por vezes lhe é atribuído, ou mesmo como uma inventividade original – que também, provavelmente, não o é. E para deixar claro, igualmente, como ele pode favorecer, sim, o processo de alfabetização. Aliás, “tradicionalmente usado” é algo muito relativo, e, nesse caso, pode não significar precedência no uso...pois poderíamos indagar: esse uso nordestino não seria um retorno a uma lógica original do alfabeto? Essa questão será aprofundada adiante, na parte 2 desse estudo.

Estrutura

Assim, com essas intenções, o texto se organiza, aqui no blog, em seis partes (e será postado aqui por partes), conforme indicado no sumário, sendo que, na parte 1, após essa Introdução, a discussão sobre esse lugar das letras do alfabeto na alfabetização é, justamente, colocada e iniciada, seguindo-se da apresentação da questão que envolve o chamado alfabeto nordestino, trazendo um argumento de base e transversal a todos os outros que é a questão da variação linguística. As três partes que se seguem, que constituem o estudo sobre o tema, serão retrabalhadas também e publicadas em uma brochura impressa, que sairá em breve. Aqui no blog vou trazer apenas um resumo das questões que serão discutidas na publicação, que será também disponibilizada para download aqui, quando pronta.

Na parte 2 do texto (segundo post dessa série), serão apresentados alguns argumentos da história da escrita – em particular da história do alfabeto – que podem dar pistas para entendermos melhor a problemática em questão, especialmente a origem dos nomes das letras do alfabeto latino e sua evolução para o português. O efe, gê, jota, ele, eme, ene, erre, esse, têm, todas elas, data de nascimento! Isso tem, como veremos, implicações na discussão em questão, sobretudo na minimização da polêmica sobre o que seja o “alfabeto correto”. 

Já na parte 3, os argumentos serão da história da alfabetização no Brasil, da história das metodologias de ensino da escrita, que inclui a temática do nome das letras. Embora esta seja uma história repleta de lacunas, havendo pouca informação efetiva sobre essa questão em particular – ao menos pouca informação divulgada – ela pode nos ajudar, ao menos, a entender a questão como algo que vai além da regionalidade, a levantar hipóteses sobre o porquê da designação diversa de algumas letras e a compreender a origem (nada nordestina) e os motivos (nada infundados) da ideia da facilitação da alfabetização, pela nomeação das letras próxima a seus sons.

A parte 4 traz os argumentos de pesquisas atuais sobre o papel e o efeito do conhecimento do nome das letras na alfabetização, na apropriação do princípio alfabético, ou seja, no estabelecimento das relações entre fonemas e grafemas. Também aqui há fortes indícios para argumentar sobre a legitimidade da nomeação das letras no alfabeto nordestino.

O intuito de buscar esses argumentos, no entanto, ao lado da defesa das variações linguísticas, não é alegar precedência histórica para entrar em disputas, nem explicar para justificar nosso abecê, buscando aval dos que supostamente usam o abecê “correto” (não precisamos de aval para usar nosso abecê), mas para mostrar que a alternância entre as duas formas de nomear as letras existe desde a origem do alfabeto latino e, na língua portuguesa, também em Portugal, e desde o início da história da alfabetização no Brasil.

A parte 5, por sua vez, que será postada apenas aqui no blog, por enquanto, trará a comunicação dos resultados de uma mini pesquisa feita sobre o uso dos abecês por os professores de alguns municípios baianos, onde, ao que parece, esse uso ainda resiste, insiste, se faz presente, vivo. Mesmo na capital! Esses dados podem revelar muito sobre essa permanência ou não do uso do alfabeto, dentre outros aspectos, coisa que vemos assistematicamente aqui e ali relatadas. Veremos. Esses dados serão apresentados também em artigos, mas não na publicação impressa do estudo. Não por enquanto.


A parte 6 será construída aos poucos, sempre dinâmica, acolhendo novas contribuições. Serão apresentados lá os depoimentos de estudiosos do campo da linguagem, da alfabetização, depoimentos de professores, e quiçá de nordestinos em geral, com suas memórias...e de não nordestinos tocados, de algum modo pelo tema, bem como contribuições de artistas, escritores, que queiram contribuir com algum “comentário” por via de linguagens e gêneros diversos: ilustração, tirinha, cordel, crônica...o que for. Enfim, contribuição de todos que quiserem e puderem contribuir, seja com algum alinhavo ou desalinho, para a essa discussão, bonita e pertinente, sobre o nosso alfabeto. E ainda tem a parte dos comentários no próprio blog...aberta a todos!

Vamos continuar a conversa na Parte 1, aqui.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Décima provocação sobre o abecê nordestino


Essa décima provocação é para divulgar mais sobre o documentário O sertão como se fala, sobre o modo de nomear as letras no Nordeste, mas também, sempre oportunidade de rediscutir sobre a questão.

Um programa de TV da Assembleia Legislativa de Minas Gerais fez uma entrevista com Leandro Lopes, realizador do filme O Sertão como se fala. O mote do documentário é o abecedário nordestino, mas o filme é muito mais do que sobre isso! No momento está correndo festivais, mas, em breve, será disponibilizado. Assistam!

Enquanto isso, vejam a entrevista, em três partes.

Parte 1: nessa parte, o documentário é apresentado e se discute, basicamente, a questão do abecedário e as questões culturais da região.


Como estou estudando sobre o tema, não posso deixar de comentar uma ou outra coisa. Como temos visto por aqui, nos posts sobre o tema, enfatizo que, na Bahia, esse abecê não é apenas do sertão, mas também da capital. Gerações e gerações de soteropolitanos, assim como os baianos do interior, aprenderam assim. E ainda se ensina em algumas escolas... O sertão, seja em sua definição geográfica, como sub-região do Nordeste, seja em sua construção cultural identitária e imaginária, não abarca a cidade de Salvador. Por isso, tenho dito que prefiro falar em abecê nordestino, embora eu reconheça sua forte identidade sertaneja.

Além disso, como também já insisti, trata-se de nomes de letras, não de sons. Letras mais próximos dos seus “sons” – da fonética, como Leandro ressalta – mas são nomes também. Por que é engraçado que esses nomes, fê, guê, ji, lê, mê, nê, rê, si, sejam associados à fonética, ao som, mas bê, cê, dê, pê, quê, tê, vê e não o sejam...e tenham, sem pestanejar, o status de nomes de letras? Esse argumento se desfaz quando entendemos que em sua própria origem, o alfabeto trazia, em sua essência, essa ideia de o nome das letras darem pistas dos seus sons.

Parte 2: nessa parte, a conversa é mais sobre o sistema de financiamento do filme.


Parte 3: nessa parte, conversa-se sobre a viagem, a operacionalização do projeto, mas também retoma-se a questão do abecê, lá entre os minutos 6:28 a 8’. E dou essa precisão apenas porque quero fazer outra observação aqui.


Leandro defende o abecê do sertão como identidade cultural dos nordestinos sertanejos, e teve a curiosidade e a iniciativa de correr o Nordeste para mapear, em forma de documentário, a quantas anda essa questão hoje. Ainda assim, acolhe a naturalidade de seu desaparecimento, talvez por tomá-lo como um modo circunstancial de falar o abecê, apenas no sertão, apenas no momento da alfabetização.

Eu não acho que o "esquecimento", a "perda" desse abecê, seja um processo tão natural assim... Depende do que seja isso de "natural"... O processo histórico é natural? O que acho é que há forças de "colonização" e de discriminação que atuam aí, e que podemos, sim, ao menos, criar resistência, pelo conhecimento, pelo reconhecimento... como é o que eu tento aqui contribuir, com esse estudo, que é como eles também contribuem com o filme. Penso que o Doc talvez possa mais do que ele pretende – que o abecê do sertão viva como memória. Tomara!

Tudo bem defender que nosso abecê viva, ao menos, como registro histórico. Mas eu, de minha parte, quero mais! Como baiana, educadora, “alfabetizadora”, que vejo ele ainda por aí nas nossas escolas, na recitação de nossas crianças, na referência de adultos em situações cotidianas em que referir-se às letras se faz necessário, acho que, pelo menos na Bahia, ele pode ter vida para além da memória. Eu, que o vejo para além do sertão, para além do Nordeste – como um dos modos de falar o alfabeto no Brasil – torço para que permaneça vivo mais do que como história!

Precisamos, nós nordestinos, reconhecer esse modo de nomear as letras como um modo nosso, tão funcional e correto quanto o outro, conhecer sua história, sua legitimidade cultural e linguística, para que o Brasil todo também possa conhecê-lo e reconhecê-lo!

Assistam ao doc quando for lançado!
Lica

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Nona provocação sobre o abecê nordestino

Galera que está acompanhando os estudos sobre o nosso abecê, em breve teremos mais notícias, certo? 

Lembro que a pesquisa é com professores baianos, de G4 da Educação Infantil ao 3o ano do Ensino Fundamental, de escolas públicas ou particulares, de Salvador ou do interior da Bahia. Se você é professor nesses critérios ou tem acesso a professores, contribua! Já temos mais de 50 respondidos! Queremos mais!

São muitas coisas para discutir a partir das respostas dadas! Posso já dizer que, sim, nosso alfabeto ainda é ensinado na Bahia, seja no interior, seja na capital, geralmente concomitante ao outro. Isso já sabíamos. Mas é muito interessante ver as justificativas, tanto para ensinar um quanto o outro, ou ambos - e disso vamos tirar conhecimentos importantes. É interessante, por exemplo, a professora que diz que ensina o correto (o "oficial"), mesmo tendo aprendido, quando criança, o regional, pois aperfeiçoou sua prática quando teve contato com o alfabeto correto. Quantas representações sobre o abecê podemos observar nas respostas! Quantos conhecimentos e desconhecimentos! Lendo-os eu confirmei a necessidade de discutirmos sobre esse assunto com alfabetizadores, reafirmando a importância cultural e pedagógica dessa problemática.


Assim, minha gente, quem recebeu o questionário e ainda não respondeu ou ainda não o enviou para outros professores, como me prometeram, por favor, a hora é essa! Quem estiver no critério dos sujeitos da pesquisa, e quiser contribuir, pode solicitar o envio do questionário. Em setembro quero começar a organizar esses dados, tá?

Será produtivo para todos nós!
Obrigada,
Lica

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Oitava provocação sobre o abecê nordestino

Nas minhas pesquisas pela internet, vi alguns comentários defendendo o nosso alfabeto nordestino (alguns, nem um, nem dois), mas sob o argumento de que a origem dos nomes (ao menos o efe, ele, eme, ene, esse, erre) seria a influência da língua inglesa, mais contemporaneamente. Nesse argumento, as letras fê, lê, mê, nê, rê, si, teriam sido substituídas pelas inglesas (ef, el, em, en, er, es)...

E para completar o argumento, alguns comentários ainda ressaltam que seria tudo culpa dos brasileiros exaltarem a cultura americana.
Ainda que esse argumento da exaltação possa fazer sentido em outros assuntos, nada é mais equivocado do que atribuir essa explicação a uma história que é bem mais antiga do que isso...

Gente, o alfabeto latino é a base dos alfabetos usados por todas as línguas europeias, ao menos da Europa Ocidental, não só as línguas neolatinas, como o português, francês, italiano, espanhol, etc... mas também o inglês, o alemão, dentre outras...

A raiz é a mesma: o alfabeto latino (...que veio do grego...que veio do fenício...). Então não tem isso de ser influência americana em nosso alfabeto, certo? Trazer a questão para tempos mais próximos de nós, desse jeito, é desconhecer não apenas a história do alfabeto como a História mesmo, do Brasil, do mundo...

Da mesma forma que a questão do uso dos dois alfabetos não deve ser posta em termos de certo e errado, tampouco ajuda usar argumentos equivocados para defender nosso abecê.

Para saber mais, que tal essas indicações?:


Por ora, é isso,
Lica