Uni, duni, tê, salamê, minguê...

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Materiais a partir de textos da tradição oral

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Brincagem com a linguando

Oi, gente!
Vou falar hoje sobre um poema, um poema que se oferece a deleites com a linguagem e a explorações da língua no contexto de alfabetização. E com ele, pretendo também mostrar que coisas simples e singelas podem esconder ricas possibilidades de exploração, ampliando a fruição do texto.
“Quem gosta de lixo levanta a mão” é um poema de Ricardo Azevedo, que está em um livro chamado “Ninguém sabe o que é um poema” (São Paulo: Ática, 2005). O poema fala sobre o lixo e seu conteúdo é apresentado de um jeito diferente, inusitado, engraçado.
Mas o mais interessante nele é a forma. Ricardo Azevedo propõe nesse poema um interessante jogo com as palavras. Nele, encontramos palavras que não existem, são formadas pela mistura de duas palavras existentes. Aparece, assim, no poema, essa espécie de neologismos, nos quais ressoam – em suas sonoridades –  palavras que evocam o universo do lixo.
Essas novas palavras são criadas pela mistura das palavras de um par, e essa mistura ocorre em todas as estrofes, ao longo de todo o poema. As estrofes são sempre as mesmas, repetidas, salvo pela mudança das palavras em questão.  A estrofe é sempre essa:
Quem gosta de _______
Quem gosta de _______
Quem gosta de lixo
Levanta a mão! 
O par de palavras de cada estrofe deve ser analisado de modo pareado para que se descubram as palavras dicionarizadas que se escondem naquelas inventadas. Assim, realizando alterações fonológicas no par, seja por trocas de fonemas/letras ou de troca de uma sílaba inteira, as palavras se revelam:
Veja um das estrofes:
Quem gosta de cuspa
Quem gosta de caspe
Quem gosta de lixo
Levanta a mão!

Fazendo as alterações necessárias, entre o fonema/letra U e o fonema/letra A, na sílaba inicial, ou, em outro modo de ver, trocando as sílabas iniciais, encontramos cuspe e caspa: cus-pe e cas-pa.

Quem gosta de caspa
Quem gosta de cuspe.
Quem gosta de lixo
Levanta a mão!

Cria-se assim um jogo de descobrir as palavras escondidas no poema, que pode se constituir em uma interessante atividade de reflexão fonológica e fonográfica sobre a língua. Quer tentar? Vamos lá!
Quem gosta de lixo levanta a mão
Ricardo Azevedo

Quem gosta de trelha
Quem gosta de traco
Quem gosta de lixo
Levanta a mão!

Quem gosta de respa
Quem gosta de rasto
Quem gosta de lixo
Levanta a mão!

Quem gosta de gruma
Quem gosta de gosde
Quem gosta de lixo
Levanta a mão!

Quem gosta de cuspa
Quem gosta de caspe
Quem gosta de lixo
Levanta a mão!

Quem gosta de mocha
Quem gosta de manfo
Quem gosta de lixo
Levanta a mão!

Quem gosta de lomo
Quem gosta de lido
Quem gosta de lixo
Levanta a mão!

Quem gosta de virme
Quem gosta de verus
Quem gosta de lixo
Levanta a mão!

Quem gosta de sabo
Quem gosta de serro
Quem gosta de lixo
Levanta a mão!
                          
Quem gosta de mosta
Quem gosta de berda
Quem gosta de lixo
Levanta a mão!
E aí? Encontrou todas as palavras?
Uma interessante abordagem da substituição de fonemas e grafemas ou de troca de sílabas pode ser feita com as crianças na leitura e fruição deste poema, um trabalho rico de reflexão fonológica sem e/ou com a presença da escrita. Depois de ouvir o poema, de conversar sobre ele, de ver o quanto se descobriu só por ler (observaram que tem palavras sem sentido? Conseguiram perceber que palavras parecidas sonoramente poderiam ressoar naquelas lidas?), podemos explorar mais esses pares de palavras. Inicialmente, explorar as trocas sonoras, pela reapresentação oral das estrofes e um jogo de adivinhação das palavras “escondidas”, misturadas. Depois, fazê-lo por escrito também, reorganizando as palavras originais, que geraram os neologismos. Dependendo do grupo, pode-se fazer diretamente pela análise do poema escrito, embora ouvi-lo e prestar atenção às sonoridades faça parte da descoberta do enigma das palavras. E aliás, poemas têm a ver com sonoridades, não é? Então vamos explorar nos poemas essas sonoridades oralmente e não apenas mentalmente, via escrita, via leitura silenciosa, “pelos olhos”...
A repetição das estrofes facilita também a leitura das crianças, que precisam identificar apenas as palavras finais dos dois primeiros versos, já que as outras se repetem sempre. Assim, leituras compartilhadas são favorecidas.
Listar as palavras, os pares, brincar com elas armando-as com letras móveis e fazendo suas mudanças, inventar outras estrofes, com outras palavras e suas misturas, criar um poema novo com mesma estrutura, mas novas misturas e novo conteúdo (que não o lixo), conversar sobre o lixo e sobre essas palavras e o porquê de estarem associadas a lixo no poema, enfim, essas e tantas outras coisas podem ser feitas para durar brincando com o poema de Ricardo Azevedo, ampliando sua fruição, explorando sua riqueza em termos das astúcias da linguagem que revela e explora.
O autor é craque em brincar com a linguagem, criar obras poéticas diferentes, lúdicas, fugindo de utilitarismos, da previsibilidade. Aqui ele inova com algo simples e apresenta, por trás da repetição, um poema delicioso e cheio de surpresas!
Inté!

terça-feira, 24 de junho de 2014

Sons, sons, sons!!!

Se vocês ainda não sabem, eu adoro onomatopeias... Um dia ainda conto sobre isso, como elas apareceram na minha tese, como as penso na alfabetização. Tenho um material que é com onomatopeias, composto de cartas com a escrita de seus sons e cartas com representações figurativas associadas a eles.



Também fiz um material a partir de um livro, o “Dorminhoco”, que traz as onomatopeias da história na caixinha do material, para organizar com os bichos que as emitem. Outra caixinha está sendo feita com as onomatopeias do livro “Você pegou o meu ronrom?”.


Tem também um livro bacana, cuja história é acompanhada de várias onomatopeias e, no fim, lança-se o desafio de lê-lo novamente, mas só as palavras onomatopaicas. Dá para recontar a história pelas onomatopeias. É o livro “Palavrinha, palavrão”.



Outro livro que traz onomatopeias, dessa vez as dos animais, é o "Ki-som-será?", de Fê, Ed. Paulinas. No livro, em cada página há um animal e o som onomatopaico correspondente. E pelo som das onomatopeias, um bicho evoca o seguinte, e assim por diante, permitindo que as crianças antecipem, o bicho seguinte por seu respectivo som. 

As onomatopeias são palavras que não se referem a nada concreto, um significante sonoro que não se refere a algo, mas evoca algo pelo som. É puro som e, por isso, chama a atenção para as sonoridades... Por isso mesmo é muito bacana para a alfabetização... Já pensou pensar junto com a criança que letras devem vir para fazer o som do telefone? Triiiiiiiiiiiim!

Bom, mas essa é uma conversa para aprofundarmos outro dia.

Falo das onomatopeias para trazer a dica de um livro muito bacana que brinca com sons. É de um livro diferente, não somente de onomatopeias, mas também e muito delas, e que traz uma língua inventada, tão inventada, que nem precisa de tradução (ele é originalmente italiano). Onomatopeias também inventadas, não necessariamente as já codificadas, conhecidas para certo som. Não acho que se encontre esse livro por aqui, mas achei tão divertido e interessante que vale como experiência e conhecimento.

Trata-se do livro Tarari Tararera (2009), de Emanuela Bussolati, uma escritora e ilustradora italiana conhecida na Europa, com diversos livros para crianças. 


Esse livro, diz na capa, traz uma história na língua Piripù, “pelo prazer de contar histórias ao Piripù Bibi”. 

O Piripù Bibi é o mais novo da família Piripù, seres laranja de cara arredondada, composta por Piripù Pà, Piripù Mà, Piripù Sò et Piripù Bé, além do Piripù Bibi. Na capa são eles que estão lá, em volta do livro, ouvindo histórias.

A história conta a aventura de Piripù Bibi, que um dia se solta de onde o deixam quando saem para colher comida, meio preso, mas em segurança, e se aventura na floresta, encontrando alguns seres, nem sempre amigáveis. Até que Piripù Bibi encontra um elefante que o ajuda a reencontrar sua família, que percebe, depois disso, que não precisam mais deixá-lo em segurança para saírem por aí. Tudo isso é contado pela língua piripù!




É um enredo bem simples e clássico que, junto com as ilustrações, ajuda a compreender a história, cujo principal atrativo é ser contada nessa língua inventada. A autora conta que além do sentido que tem na própria história - afinal são histórias não apenas sobre Piripùs, mas também para Piripùs: o Piripù Bibi! - o fato de ser escrita numa língua inventada também permite que a história possa ser contada para crianças de todo o mundo, sem precisar de tradução. 

É uma história para ser lida aos pequenos até 5, 6 anos, mas com certeza, se bem lida, vai agradar crianças e adultos de qualquer idade. Os pequeninos, então, devem adorar, parece mesmo as línguas que eles mesmos falam antes de aprender a falar sua língua materna. Lembram do desenho animado Pingu? Pois é, tem aquele efeito Pingu! ...de língua universal.

Mas o segredo está na leitura, na magia de narrar pela voz, pelo sons, pela entonação, pela graça da fala, mesmo que sem significado apreensível pelas palavras. A sequência de sons junto com as imagens – feitas pela própria autora – convidam o leitor a jogar com a entonação e as modulações da voz, com expressões faciais e corporais, para conseguir ganhar a cumplicidade dos ouvintes com a história e garantir a compreensão do todo da sequência. A mágica da leitura e contação de histórias para além das palavras!

Mas chega de blá, blá, blá! Para se ter uma ideia do que estou falando, vejam os vídeos em que boas leitoras leem a história. Fantástico! Não é em italiano, gente! É em língua piripù!!!



Isso com certeza nos ensina mais sobre a qualidade da leitura que devemos fazer para as crianças, pois além dos significados das palavras, muita coisa do sentido do texto é passada por elementos prosódicos, rítmicos, e pela materialidade da voz que lê ou conta.  



Gestos, entonação, interação...e o riso é garantido! De meninos e meninas mundo a fora! Então, não podemos esquecer que nesse tipo de leitura, para crianças tão pequenas, há algo muito, muito importante, que é a relação com elas, nessa leitura. Elas ouvem, reagem, participam e o leitor captura sua atenção e reage também. Há um jogo de interpretações, o adulto com a sua, que imprime na entonação e no ritmo, as crianças com as delas, na atenção que prestam ao todo daquele acontecimento narrativo. Ou seja, trata-se de conjunto de aspectos que delineiam uma relação, uma interação com as crianças. O livro favorece essa interação, o que era a intenção da própria autora.

O livro teve tanto sucesso, ganhou até prêmio, o Prêmio Andersen do melhor livro para 0-6 anos, em 2010. Foi tão bem aceito que Emanuela Bussolati lançou mais dois livros em língua piripù: Bada...búm (2011) e Rulba Rulba (2013), com mais aventuras do Piripù Bibi!


Para quem gosta de onomatopeias, foi um achado maravilhoso e singelo. Lógico que agora estou louca para importar os três. Vamos ver como!

Espero que tenham gostado da dica! 
Abraços, vupt, fui!

Lica

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Livros de ABC

...E volto às postagens com um post com novas dicas de livros de ABC, abecedários contemporâneos que se multiplicam enormemente, com novas roupagens.

Os abecedários, as cartas de ABC e os silabários foram utilizados para ensinar a ler e escrever nas escolas brasileiras até meados do século XX, com um foco no aprendizado das letras, da ordem alfabética e das sílabas. Os abecedários tinham, assim, primordialmente uma função pedagógica.

De outro lado, a tradição oral e alguns jogos também apresentam brincadeiras com as letras e a ordem alfabética, a exemplo da parlenda que acompanha a brincadeira de pular corda: "Suco gelado, cabelo arrepiado, qual a letra do seu namorado? A, B,C...Z” ou “Água gelada, com pão e marmelada, qual é a letra da sua namorada?”. Ainda que essas parlendas também possam ajudar a memorizar a ordem alfabética, sua função primordial é acompanhar a brincadeira. Nesse sentido podemos dizer que é comum o uso do alfabeto ter também funções lúdicas e poéticas.

Organizar conteúdos em forma de alfabeto, com estratégias diversas como listas de palavras, verbetes, repertório de determinada classe de objetos ou seres (como animais, que são campeões em termos de organização alfabética) tem sido uma prática bem comum em livros informativos e agora, também, em livros de literatura infantil.

Então, minha proposta é olharmos para esses novos abecedários com novos olhos, pois eles têm aparecido no domínio do livro para crianças que pouco a pouco se liberou do caráter pedagógico para investir no terreno do estético, da criação, da arte literária.

Assim, no decorrer do tempo, embora possa carregar ainda, de certa forma, sua marca de origem como manual de aprendizagem da leitura, os abecedários encontraram novos fôlegos, outras vias para se metamorfosear, entrar para a literatura e inscrever em cada uma das letras que usamos para escrever um convite à poesia, ao sonho, à criação, à surpresa, ao desvio, à beleza, enfim, à brincadeira com a linguagem. Como os gêneros de texto em geral, os abecedários também foram se transformando com o tempo, bem como são influenciados pela tendência contemporânea de esmaecimento das fronteiras genéricas.

Hoje, os abecedários, ou seja, livros organizados em forma de alfabeto, associando as letras a texto ou imagem, reaparecem e se multiplicam nessa nova forma poética, não com uma função primordialmente didática, mas sim literária. E com essa função estética, podem ainda ser fonte riquíssima de boas aprendizagens sobre os signos da escrita, de forma lúdica, gostosa e produtiva. Eles não têm necessariamente a função de ensinar as letras, o alfabeto, mas de brincar com elas, de usar o alfabeto como pretexto para pequenos textos literários, brincadeiras com a linguagem, motes para criações verbais e visuais. Mas também aproximam as crianças desses signos da escrita.

Afinal, para além da grafia das letras, elas evocam sons, e não podemos esquecer que a matéria sonora dos textos poéticos é também matéria riquíssima para a alfabetização, favorecendo a reflexão sobre as sonoridades da língua. Em matéria de poesia o letramento literário se imbrica ricamente com o processo específico de alfabetização.

Faz tempo que fiz dois posts sobre esse tipo de livro, um com indicação de abecedários poéticos ou outros livros de alfabeto, e outro apresentando o material intitulado Arquivo Alfabético Poético. E ainda teve um post introdutório sobre Abecedários.

Postei também alguns exemplos de atividades a partir de textos poéticos desses abecedários literários, aqui  e aqui. Isso para mostrar como podem possibilitar aprendizagens interessantes que articulam letramento literário, alfabetização e apropriação de vários aspectos da língua.

Bom, agora trago novas dicas de livros de alfabeto, alguns poéticos, com pequenos poemas ou enunciados poéticos para cada letra, outros com outras estratégias, mas interessantes de algum modo, afinal, os abecedários de hoje em dia constituem quase um gênero específico no âmbito da literatura infantil, com características lúdicas e estéticas, tanto em termos do texto, quanto da imagem.

Alguns abecedários parecidos com os antigos ainda se acham, em forma de dicionário ilustrado ou de alfabeto ilustrado, trazendo apenas algumas palavras começadas pelas letras a cada vez, sem um rearranjo poético, sem um trabalho sobre a linguagem, mas apenas como um repertório de palavras associadas às letras e a imagens que representam o que as palavras expressam. 

Exemplo disso é o ABC Curumim já sabe ler (Bia Hetzel, Ed. Manati).

Outro exemplo é o  Meu primeiro Bichonário (Marco Hailer, Ed. Carochinha), que traz as letras inicias e a imagem do bicho, para adivinharmos que bicho é.

Nesse caso, aproxima-se de um livro brinquedo, livro visual, mais próximo dos manuais de ABC de antigamente, mas ainda assim bonitos e com uma proposta brincante.



Dito isto, então vamos lá às dicas de livros! Aos 16 livros indicados no post do Arquivo Alfabético Poético, somam-se mais esses, que são mais que 16 a mais... por enquanto... Não paro de descobri-los por aí...

Uns desses eu já tenho ou conheço faz tempo, mas não entraram no Arquivo Alfabético, outros fui encontrando de lá para cá. Alguns já tenho, outros estão na lista de desejos, mas já vi na livraria ou na mão de alguém, outros foram indicados, mas ainda não vi. Entretanto, as indicações são de livros bacanas, pois tem muitos outros por aí nesse estilo, mas sem a qualidade que penso que devem ter.

Uns desses livros exploram mais os sons das letras, outros as palavras iniciadas com cada uma delas, uns investem no formato das letras, outros usam as letras como iniciais de palavras que são apenas motes para o texto.

Dois livros maravilhosos são: o Alfabeto escalafobético (Claudio Fragata e Raquel Matsushita, Ed. Jujuba) e o ABC Doido (Ângela Lago, Ed. Melhoramentos). O Alfabeto escalafobético, eu nem tenho ainda, mas já vi que é fantástico, unindo imagem e grafia, sentido e letras. O ponto de partida das ilustrações é o próprio desenho da letra. Em muitas é o próprio desenho tipográfico que comanda a cena tanto nas ilustrações quanto no textinho que acompanha cada letra, mas nem sempre é o principal. Veja o da letra i...



Já o Alfabeto Doido é tão doido que começa pelo fim, pelo Z! Cada letra é apresentada a partir de uma espécie de adivinha, que brinca com as palavras, decompondo-as, recompondo-as, criando deliciosos enigmas. E virando a página, a resposta!


O que é, o que é?
Responda sem demora
O rouxinou tem dentro,
E a xícara...do lado de fora?
A letra X

Como começa pelo fim, é mais desafiante saber a letra seguinte no alfabeto de trás pra frente, que faz a gente ter que pensar um pouco para responder e para compreender o sentido da resposta. Por exemplo, podemos até conseguir responder a adivinha por saber que se trata da sequência alfabética e que, de trás pra frente, depois do V vem a letra U, mas pense que para entender a brincadeira, precisa de algo a mais, como nessa do U:

Pode gritar já, sem dó:
O que é que a assombração
Usa seis e de uma vez só?
A letra U (UUUUUU!)

Um de que gosto bastante é o ABC do trava-língua (Rosinha, Editora Do Brasil). Para cada letra versinhos que lembram trava-línguas populares, um para cada letra, cada letra aparecendo em aliteração (sons consoanantais) ou assonância (sons orais das vogais) provocando “travas” na língua e desafinado o leitor. Muitos desses pequenos textos vêm em forma de quadrinhas – outro gênero poético, de forma fixa, diferente do trava-língua, que pode ser mais livre. Mas nem sempre são quadrinhas. Vejam dois exemplos, com o R e com o A:

O rato Romualdo
Rói o rei, rói a rainha
Rói a roupa do Romeu
Rói as rendas da Rosinha.

A ararinha assanhada
Adora andar arrumada
Arruma a saia amassada
Alinha a blusa azulada
Amarra a rosa dourada
Arrasta a turma animada.

Já o   Abecedário dos bichos (Klévisson Viana, Ed. Edelbra) é um abecedário em forma de cordel. Cada estrofe, que vem na forma métrica própria a esse gênero, traz um repertório de animais começados com a letra em questão. Por vezes, quando há muitos bichos iniciados com aquela letra, as estrofes trazem os nomes dos bichos organizados de forma sonoramente interessante, para conseguir o efeito da forma, da métrica e das sonoridades próprias ao cordel, e por vezes trazem pequenos textos sobre o animal ali referido. E tudo isso ilustrado por xilogravuras, técnica de gravação bem comum nos folhetos de cordel.

Aliás, bichos e alfabeto parecem que têm um longo namoro, pois sempre tem livros que os unem. 

Assim são também o ABC da Bicharada (Glaucia de Souz, Ed. Prumo), o Abc e outros bichos (Mario Bag, Ed. Ao Livro Técnico) e o Meu primeiro bichonário (Marco Antonio Almeida Hailer, Ed. Carochinha), que já citei aqui no post, fazendo coro com outros de bichos que já foram indicados antes (no post do Arquivo Poético Alfabético tem uma lista dos livros), como o Bichodário (Telma Guimarães, Ed. Escala) e o Bichionário (Nilson José Machado, Ed. Escrituras).

Esse de Mario Bag, o Abc e outros bichos, traz pequenas frases para cada letra, contendo palavras iniciadas pela letra em questão, além daquela referente ao animal representante daquela letra. Esse livro já está no Arquivo Alfabético Poético, mas não sei porque, acho que não entrou na lista dos livros no final do post. Então retomo-o aqui.


Já o ABC da bicharada traz uma quadrinha para cada animal, representante de cada letra. Para a letra B, o besouro:

No ouvido de uma flor
Um zumbido brilha ouro
Seja frio ou calor
Vem voando o BESOURO.

As quadrinhas exploram as rimas, o ritmo próprio a esse gênero e traz o nome do bicho em letras maiúsculas, o que pode favorecer as leituras e pseudoleituras das crianças. 

Além do Bichonário citado, do Marco Hailer tem também o Um mundo chamado alfabeto (Ed.Carochinha), em que cada letra traz um repertório de palavras, mas também pequenos textos poéticos geralmente textos da tradição oral como parlendas, cantigas e trava-línguas.





No ABC da criançada (Soraia Vasconcelos, Ed. Miguilin), a autora faz poemas com os nomes de crianças iniciados por cada letra do alfabeto. Geralmente são poemas mais longos, contendo outras palavras começadas pela letra em questão.

É um mote bacana para construir pequenos poemas com os nomes das crianças de uma turma e organizá-los em ordem alfabética. Aliás, as ilustrações são feitas por crianças!

Um abecedário diferente, que parece bem interessante, especialmente para nós aqui da Bahia (mas não apenas), é o Abecedário Afro de poesia (Silvio Costta, Ed. Paulus). O livro traz textos poeticamente trabalhados, embora não sejam poemas propriamente ditos, com um rico vocabulário, de A a Z, que descende da cultura africana. 

Traz palavras mais conhecidas, integradas ao nosso dia a dia, como bagunça e xingar, outras menos usadas fora de Estados com rica influência da cultura africana na linguagem, como a Bahia, e outras, ainda, menos conhecidas. No final há um glossário com os termos citados e suas significações. 

Além de conhecer mais a cultura africana, a origem de palavras que usamos e sua forte presença no nosso léxico, o leitor pode também ampliar seu vocabulário. Ainda não vi o livro, mas adianto um exemplo, com a letra A:

“A azoeira estava pronta: gente na casa que ninguém dava conta. Por sobre a toalha a enfeitar a mesa posta, o abará em porção, num grande tacho, pra saciar quem quisesse. E ainda, mais abaixo, recém-chegado da fervura numa travessa que dava gosto, o acarajé em fartura. Do lado oposto, pra acompanhar, reluzia quase dourada uma jarra carregada de aluá. Mas não se dê por saciado. Veja só o que vinha por lá: Num abadá todo florido, espalhando axé com sua presença, Dona Florença, a dona da festa, carregava o seu tesouro; o melhor angu que já veio de Angola. Antes da ceia, num ritual, o afoxé se antecipou. Feito um som que lembrou um sino, o agogô deu um aviso: a festa afro começou”.

Engraçadíssimo, como o nome já diz, é o Abecedário Hilário (Nani, Ed. Hedra). Cada letra gera um texto composto basicamente de palavras começadas pela letra em questão, quase como um trava-língua. O textinho da letra D, por exemplo:

Dado
Doado a
Dorival foi
Devolvido
Devido a
Dar o
Dois
Duas vezes.


No Letra de forma (Laura Texeira, Ed. Hedra) a autora brinca com palavras e com a forma das letras... isso porque traz pequenos textos poéticos que fazem alguma referência, de modo mais direto ou indireto, às formas das letras, seu desenho. A ilustração, assim, completa muito o sentido, pois por vezes é na imagem que captamos a relação do traçado da letra com o que o texto diz. O G, por exemplo, mostra a letra de gravata borboleta carregando no seu traço horizontal um prato, e diz:

Adivinhe qual é
A profissão do G?
Ele serve uma comida muito gostosa.

Já o J, em forma de anzol, mergulha em um mar de letras e diz:

O que será que o J
Preparou para o janta?
Já sei! Sopa de letrinhas!

A Editora Edelbra apresenta três livros de alfabeto poéticos, da Gláucia de Souza, um com frutas, outro com flores e um com o tema do futebol. Não vi esse último ainda, mas o do pomar e do jardim são bem bacanas, dá vontade de ir pensando nomes de frutas e flores com todas as letras e fazendo novas quadrinhas para eles. São eles Um pomar de A a Z  e  Um jardim de A a Z



O do futebol é o Uma partida de A a Z...e tem como autor também o Marcelo Pizarro Noronha. É, futebol ainda é mais uma coisa de meninos...rsrsrs! 

Não conheço, não vi o texto, mas tirando pelos outros da coleção, talvez seja legal.


Um livro diferente é o Alfabeto Perigoso (Neil Gaiman, Ed. Rocco - Pequenos leitores). É um abecedário de terror! É um livro ilustrado, com a imagem meio sépia do ilustrador Gris Grimly. 


Duas crianças e sua gazela de estimação entram com um mapa em um mundo subterrâneo desconhecido, onde habitam monstros, fantasmas e outras criaturas estranhas. Cada letra traz estranhezas diferentes que criam a atmosfera subterrânea do livro. São assim 26 versos alfabéticos e tenebrosos a desvendar!

No mesmo tema, mas mais para engraçado, o Alfabeto assombrado (Flávia Muniz, Ed. Girassol), por sua vez, é mais simples, e traz quadrinhas inventadas para cada letra que são iniciais de seres ou coisas mais ou menos assombradas: caveiras, fantasma, vampiro, ogro, jiboia, King Kong... Simples, mas divertido. Vejam o E de esqueleto:


O esqueleto, quem diria,
não tem banheiro pra usar,
De menino, de menina?
Em qual ele deve entrar?

Da mesma autora tem o Números Assombrados, que traz uma espécie de tangolomango com os números de 10 a...(zero, será?). Indiquei este no segundo post do Tangolomango.

Outro estilo é o livro Alfabeto (Ed. GG - Espanha), que, na verdade, traz a arte da artista plástica e designer gráfica Sonia Delaunay acompanhada de cantigas e parlendas brasileiras. 

As letras do alfabeto dançam em um baile de cores vibrantes, um misto de livro alfabeto e livro de arte. Em cada língua que o livro foi traduzido, escolheram cantigas e parlendas próprias à cultura oral daquele país ou criadas por um autor. No original em francês, o livro traz textos escritos por Jacques Damase, que lembram parlendas, cada uma fazendo uma ligação com a letra em questão.

Um livro bem diferente, que traz o gênero anúncio de jornal (classificados), é o ABC Procura-se (Gwénola Carrère, Ed. Edelbra). A cada letra do alfabeto temos um nome próprio que é o nome do bicho – novamente animais! – que está a procura de alguma coisa. Por exemplo, na letra A, de Aline, uma tarântula, diz:

“Jovem tarântula solitária procura amigos. Adora jantar em boa companhia. Escrever para a Caixa postal n 456”.

No B, de Bruno, que é um bicho que não dá para saber qual é, diz: “Todas as quartas-feiras, espero vocês na minha casa para jantar. Cardápio surpresa!”

O interessante é que um vai se ligando ao outro por algum elemento do texto, Aline pode jantar com o Bruno, o Bruno puxa a Carol, que diz “Surpresa sou eu! Animadora profissional, alegro suas noites. De hoje em diante, TV desligada”. Aí o próximo puxa algo com TV, e alinhava com livros, o próximo puxa livros e fala numa fábrica de papel, que puxa uma funcionária de uma fábrica de papel. Assim, o alfabeto de bichos e anúncios vai sendo todo interligado. 

A ideia é muito legal! Dá para fazer brincadeiras com classificados e até tentar fazer um ir puxando o outro também. Para ler todo e uma só vez, talvez seja muito, mesmo sendo textinhos pequenos. Mas lido aos poucos, restabelecendo os "links" a cada vez, explorando os anúncios, acho que promete alguns momentos de deleite. 

Por fim, o livro A turma do ABC (Fátima Miguez, Ed. Nova Fronteira), na verdade, não se organiza em ordem alfabética. Ele traz brincadeira com as palavras, especialmente a troca de letras ou apenas juntar várias palavras iniciadas com a mesma letra em uns versinhos. 
Dois exemplos:

Troco o L de lama
Pelo F de fama
O C logo reclama
Seu lugar na cama.

O Z de zoada
Faz muita zoeira
Prefiro o T de toada.
É som de primeira.

Outros tantos livros de alfabeto podemos encontrar em edições portuguesas. Chamo a atenção a três deles. Um tem o título idêntico ao do nosso abecedário poético de Elias José, referido no post sobre o Arquivo Alfabético... É O que se vê no abc (Dafne W. Rocha e Danuta Wojciechowska, Ed. Caminho).



Os outros são O Livro das Letras (António Mota e Elsa Fernandes, Ed. Gailivro) e O Hospital das Letras (José Jorge Letria, Portugália Editora). Outro do Letria já fazia parte do Arquivo Alfabético, O Alfabeto dos Bichos (mais bichos). O do Hospital traz textos como  A Otite do O e coisas do gênero. Interessante!


É isso, minha gente... são infinitas as possibilidades de brincar com esses livros, suas rimas, outras sonoridades, seus desafios, seus jogos de linguagem. Espero que tenham gostado das dicas... São modos belos de apresentar as letras, o alfabeto, junto à riqueza da linguagem e da literatura. Outros livros sempre poderão via a se juntar a esses. O acervo pesquisado já conta com mais de 30 livros de ABC!

Aliás, revendo os outros posts de abecedários, percebi que não apresentei todos os livros do Arquivo Alfabético, só alguns no post sobre livros de alfabeto, mas nem todos os que aparecem listados no post do Arquivo. Quem sabe retomo-os depois, para apresentar como fiz com esses aqui, não é?
Abraço,
Lica