Uni, duni, tê, salamê, minguê...

Uni, duni, tê, salamê, minguê...
Materiais a partir de textos da tradição oral

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Eco de Palavras

O Eco

O menino pergunta ao eco
onde é que ele se esconde.
Mas o eco só responde: "Onde? Onde?"

O menino também lhe pede:
"Eco, vem passear comigo!"
Mas não sabe se o eco é amigo
ou inimigo.

Pois só lhe ouve dizer:
"Migo!"

(Cecília Meireles, Ou isto ou aquilo)


O poema de Cecília, O Eco, é um ótimo texto a partir do qual brincar com palavras, suprimindo partes delas - fonemas, sílabas ou partes maiores que a sílaba - numa atividade de reflexão fonológica muito interessante. Gato pode virar ato e abelha, belha (supressão do /g/ e do /a/), macaco pode virar caco ou aco (supressão do /ma/ ou do /mak/), abacate pode virar cate ou ate (supressão do /aba/ ou do /abak/).
A compreensão do texto supõe o conhecimento do que seja o eco e como ele funciona. Disso depende o jogo de sentidos do poema.
Pois bem, feita a exploração do texto, que tal brincar de eco? Experimentar "ecoar" palavras diversas é bem divertido e constitui uma rica oportunidade de reflexão fonológica. Pense aí como ficariam, por exemplo, as palavras abacate, pente, besouro, gato, flor, sapo, abelha, dinossauro, atalho, estante, prato...e tantas outras... Percebe quantas situações interessantes podem aparecer, apenas com a reflexão sobre a oralidade, sem a presença do escrito? Ou seja, sem a visualização das palavras escritas, apenas operando sobre o significante sonoro, podemos segmentar as palavras de vários modos.
E depois, com a presença do escrito - das palavras escritas -, quantas situações mais podem aparecer? Pense, se o eco de prato é /atu/, podemos brincar de achar palavras dentro de palavras: prato/ato. E se o eco de prato for /ratu/, com r tremido, o que acontece quando escrevemos essa palavra? Fica RATO, sem o r tremido (ao menos não na nossa variedade linguística regional). Vê quantos desafios?
E ainda podemos indicar o eco e as crianças descobrirem palavras que podem ter sido ditas. Ex. Se sou o eco e digo: /enti/, que palavras podem ter sido ditas? Pente? Dente? Vamos adivinhar?
Essas atividades chamam a atenção para outras segmentações sonoras, outras unidades sonoras, que não a silábica, tão mais enfatizada na alfabetização, por ser a unidade mínima da emissão sonora e facilitadora de segmentações, ao menos na nossa língua. Mas há unidades maiores que a sílaba, como -ola em bola, cola, rola, mola... Há unidades menores que a sílaba, como -tr, em trem, trator, triângulo, trufa. Há unidades fonêmicas e silábicas... A diversidade na exploração dessas unidades favorece enormemente a reflexão fonológica, a flexibilidade do pensamento e a apropriação do princípio alfabético, fundamental para aprender a ler e escrever. Todas essas unidades fonológicas podem ser exploradas simultaneamente em brincadeiras diversas - como a do eco, que inclui, nesse caso, também a unidade texto, fonte da brincadeira.
Brincar de eco é muito bacana! Experimentem!

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Alfabeto

Vejam que livro de alfabeto bacana:




Eu que estou preparando um post sobre abecedários interessantes, adorei esse livrinho de Marion Bataille, uma designer francesa, com pop-ups e efeitos visuais bacanas. É um abecedário em três dimensões, da editora Sextante.

Ele me foi apresentado por minha amiga Ana Aurélia, que o adquiriu em Parati, na Flip desse ano.

Valeu, Aninha!

Mais adiante escreverei sobre os abecedários, alfabetos ilustrados, aguardem! Adoro letras...

Lica

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Pê de Pai

O dia dos pais passou, encontrei um belo livrinho, de edição original portuguesa, que eu e Joaquim, meu filho, demos para o seu papai ontem. E já fui logo pensando em um material para fazer com ele, visto que tem ilustração e cores bem bonitas... Bom, me vieram umas ideias que compartilho com vocês.

O livo é Pê de Pai, de Isabel Minhós Martins e ilustrações de Bernardo Carvalho. No Brasil saiu pela editora Cosac Naify. Em Portugal foi editado pela editora Planeta Tangerina, que vocês podem conferir no site http://www.planetatangerina.com/ ou no blog http://www.planeta-tangerina.blogspot.com/. Na edição da Cosac veio uma tira envolvendo a capa, com palavrinhas do músico Moreno Veloso, filho de Caetano.
Pê de Pai foi premiado e ganhou menção honrosa em prêmios internacionais referentes a ilustração e design. Vale à pena dar uma espiadinha e, inclusive, procurar outros livros da dupla, como Depressa, Devagar, por exemplo, bem bacaninha também. A Yara Kono, lá da Planeta Tangerina, me contou que há outros livros da editora saíndo em breve no Brasil pela Cosac Naify, aguardem! Aliás, deem uma olhadinha no blog da Planeta Tangerina, é bem legal!
Voltando... O livro Pê de Pai apresenta imagens cúmplices de pai e filho/filha... mas dispensa palavras outras que as que definem o jogo entre eles. Por isso, não digo mais nada, conto em imagens:



Na tradução para o português brasileiro (!!!), o "pai travão" passou a "pai freio de mão", o "pai grua" passou a "pai guindaste", o "pai tractor" passou a "trator" e o "pai escadote", "escada", mostrando que nem tudo se resolve com reforma ortográfica!!! Mas em quase todo o resto do livro, a edição brasileira segue a original portuguesa.
São 24 páginas de pai tudo o que for. E certamente poderíamos imaginar outras tantas... olha uma dica aí! "Pai sacola", "pai vento", "pai estante"... quantos mais? Aqui em casa o pai é também "papai paquinho", alusão aos tantos parquinhos que o pai propunha à filha, quando tinha entre 2 e 3 anos. Quantas outras histórias de pais e filho(a)s dariam outras tantas páginas!!! Talvez umas nem tão alegres, mais aflitas... Que tal saber dessas histórias de pais-tudo?
Aliás, cada página do próprio livro também poderia ser o ponto de partida para muitas histórias: "pai avião"..."pai chocolate", "pai ambulância"... o que mesmo levou a essas cenas e o que aconteceu em seguida? Podem virar histórias coletivas interessantes.
Bom, vou fazer um material assim: as ilustrações em fichas grandes (mas podem ser menores que as páginas do livro), colando as imagens impressas em papel mais grosso, tipo duplex. Escaneando as páginas podemos ajustá-las ao tamanho que quisermos. Mas gosto grande! Depois em fichas menores, as palavras trator, cabide, avião, casaco, sofá, motor, colchão, despertador, cavalinho..., enfim, tudo no que o pai pode se tornar. Dá para fazer fichas em letras de imprensa maiúscula e também fichas em minúsculas, se quiser oferecer diferentes letras.
É recomendado que se alfabetize com letra de imprensa e existem bons argumentos para isso - de linguístas, construtivistas e outros mais - com os quais eu particularmente concordo. E escolhe-se então as maiúsculas. Mas, por outro lado, também é importante que as crianças reconheçam outros tipos de letra, afinal elas estão presentes nos textos que circulam socialmente e, a menos que queiramos (!!!) voltar ao tempo em que se controlavam os escritos para que não apresentassem elementos supostamente dificultadores do processo (como sílabas complexas, por exemplo), temos que assumir a presença de tipos diversos de letras. Assim, me parece, cabe ao professor com sua sensibilidade perceber a hora de apresentar outras possibilidades, de acordo com o domínio que as crianças têm do sistema alfabético, da categorização gráfica e funcional das letras do alfabeto e do conhecimento que têm dos tipos de letras que veem nos diversos suportes de escrita de seu entorno. É como penso.
Então, nessa versão do material, para associar os nomes às figuras, as crianças terão que fazer um esforço para reconhecer as palavras das fichas de palavras, mas, ao mesmo tempo, podem recorrer à escrita cursiva da ficha com as ilustrações, como apoio a sua leitura. Nesse caso, se esforçarão para associar a letra cursiva à letra de imprensa. E essa escrita cursiva pode ou não facilitar, dependendo do que sabem sobe a grafia dessas letras. É um desafio interessante.
Mas podemos também fazer um outro material, com as figuras das ilustrações recortadas cuidadosamente, fazendo um contorno bonito, excluindo o escrito e aproveitando parte do fundo nesse contorno, e colar em um papel mais grosso. Nesse caso as imagens podem ser menores. Não dá para eu mostrar porque ainda não fiz meu material, só está na minha imaginação! Estou aqui compartilhando a ideia, bem fresquinha, com vocês. Quando eu fizer, prometo que mostro!
Bom, nesse caso, as crianças têm que associar a imagem, o que ela representa, e as palavras correspondentes. Ou seja, a imagem do pai sofá (sem a escrita disso) à ficha com a palavra SOFÁ. Para isso, terão que se lembar o que cada figura representa, a partir das diversas leituras e explorações prévias com o livro.
Essas palavras das fichas podem também ser classificadas por letras ou sílabas iniciais ou finais, por tamanho, número de letras ou sílabas, bem como servir para fazer trens de palavras, tal qual explicado no post da copa do mundo, o que tem uma bandeira do Brasil.
No meu kit farei também essas palavras todas fatiadas em letras móveis, para outras tantas possibilidades, como formar as palavras a partir de sua hipótese de escrita ou pensando na ortografia ou, ainda, com o modelo da escrita cursiva nas fichas de imagem. Fatiadas em sílabas também é outra possibilidade. Além de montar as palavras previstas nas fichas de imagens, pode-se também recombinar letras ou sílabas em novas palavras.
Uma coisa bem interessante que me ocorreu, agora pensando em outro tipo de atividade, é brincar com as crianças de definir cada pai desse e escrever essas definições delas. Deve sair muita coisa legal! Depois pode fazer um mural com as imagens e as definições ou até um livrinho com ilustrações das próprias crianças. Pode também escrever e ilustrar outras tantas coisas incríveis nas quais um pai pode se transformar, como falamos anteriormente. ...aliás, e uma mãe também... Que tal fazer a versão Mê de Mãe? Eu ia gostar!
Encontrei também outra dica bem legal, de brincar de adivinha, no próprio blog da Planeta Tangerina, aqui nesse link. Escreve-se em fichas outros tipos de pais: "pai pente", "pai termômetro", "pai chapéu" etc... e após sortear uma, sem ninguém ver, o adulto dá uma definição, para as crianças adivinharem que pai pode ser. E completo: no contexto da alfabetização, podem encontrar entre as fichas, a que corresponde ao pai descrito. Se já têm certa autonomia no reconhecimento das palavras, ou de parte delas, podem tentar adivinhar a partir da leitura. Se não, precisam antes adivinhar o que é, para então buscar reconhecer entre as fichas aquela com o pai que procuram.
Bom, mas tudo isso só vale se, antes, curtimos muito o livro, como livro: folhear, ler, ouvir, conversar, sentir. Trata-se, antes de tudo, de um livro. E de um livro que pode nos falar muito da complementaridade entre texto e imagem.
É isso gente, o dia dos pais já passou...mas quem precisa de dia dos pais para falar deles? Nunca é fora de tempo lembrar das coisas bacanas que parecem tão prosaicas. E nunca é fora de hora para transformar as coisas de todo dia em poesia e arte e aprendizagem.

Lica


domingo, 1 de agosto de 2010

Nomes próprios e Poemas

Sabe, eu sempre acho que o nome próprio, essa primeira palavra que recebemos do mundo, fonte primeira de nossa identidade, é também a porta de entrada para a alfabetização. Junto com os textos todos, as histórias, os livros, eis que essa palavrinha insiste em querer ser escrita em desenhos, pertences, cartinhas salpicadas de letras... e lidas, para fazer-se reconhecido, identificar-se, dizer de cada um...
Dentre as tantas coisinhas que podemos fazer com os nomes próprios e, dentre essas, as que podemos fazer para pensar sobre letras e sons da língua, palavras e partes de palavras, adoro os anagramas, a decomposição e recomposição dos nomes, o passeio das letras, a poesia sapeca das letras se movendo nos nomes...
É Elias José quem faz o primeiro convite:
Há poesia no seu nome

“Se você falar o seu nome, poderei achar outros nomes dentro dele, só com as letras que ele traz. Com estas palavras e outras de ligação, posso escrever um poema engraçado como a cara de espanto que você está fazendo. Ficará bem musical, pois os sons são os mesmos das letras do seu nome. Parece que está duvidando, não é?
Imaginemos que o seu nome seja Argemiro. Você diz que detesta este nome, mas era o nome do seu avô paterno. O seu pai quis homenageá-lo à sua custa. Acho que depois dessa brincadeira, não vai achar que é um nome feio assim. É até simpático. Vamos ver quantos nomes há no seu nome:

ARGEMIRO! ARGEMIRO? ARGEMIRO, ARGEMIRO...

Olha que eu vejo um ar gostoso batendo no corpo, dento do seu nome. Vejo um mar imenso que vem em ondas, que batem na praia e nas pedras. Tem cheiro, som e gosto salgado. Pode ser tocado, sendo frio ou quente, dependendo do sol. Está meio frio agora, mas é bom senti-lo no corpo. Olha quanta água no seu nome! Há um rio em Argemiro. Rio de águas limpas que correm levando folhas, batendo em pedras, que gemem. É tão limpinho este rio que vejo cardumes de peixes. E vou pelo seu mar ou rio, Argemiro, e remo e rio. Giro o ramo que geme. E vou para Roma e miro e remiro e oro e rimo. De poesia, o nome Argemiro tem até rima. Mas cuidado! Você sabe o que significa ira e ela está quentinha no seu nome, pronta para destruir quem dela se aproxima. Mas esqueça as coisas negativas e goste muito da poesia que mora no seu nome, Argemiro.

E aí, você não se animou em descobrir a poesia do seu nome?”

Elias José, A Poesia pede passagem: um guia para leva a poesia às escolas. São Paulo: Paulus, 2003.

Pois, então, já tentaram?

Para encontrar outras palavras dentro de seu nome, vale também duplicar letras que o compõe, especialmente as vogais. Depois de brincar disso, professor, que tal tentar com as crianças? Pode ser no papel, mas é muito, muito legal com as letras móveis. Sugiro, como material, ter muitos kits de letras móveis, para atividades e jogos diversos, e um kit de nomes próprios, os nomes (o tal crachá, pode ser) em fichas grandes e os nomes em letras móveis. Gosto de letras grandes também. Cada um com seu nome, formado com letras móveis, podem tentar fazer seus rearranjos, desarrumar e rearrumar, trocar e deslocar e, então, encontrar palavras, adormecidas ou falantes, escondidas em seus nomes.

E com as palavras, que tal poesia?

E é Bartolomeu Campos de Queirós quem faz, aqui, o segundo convite. No seu Diário de Classe, em vez de nomes completos, presenças, ausências, frequência, notas, resultados, conteúdos, rendimentos, registros de aulas e de habilidades e dificuldades, ele traz poemas dos nomes...de A a Z...

Ele caça palavras dentro dos nomes e depois, ele as poesia.

Diz ele:

“Se olho para uma palavra, descubro, dentro dela, outras palavras. Assim, cada palavra contém muitas leituras e sentidos. O meu texto surge, algumas vezes, a partir de uma palavra que, ao me encantar, também me dirige. E vou descobrindo, desdobrando, criando relações entre as novas palavras que dela vão surgindo. Por isso digo sempre: é a palavra que me escreve. Leia a palavra janela, tentando encontrar as outras palavras que nela estão debruçadas. Aí, você compreenderá como foi fácil escrever este Diário de Classe”.

J A N E L A

. . . E L A

. A N E L .

J A N E . .

. A N E . .

. A N E L A

J A . . L A

E ele nem usa, nos poemas, todas as palavras que encontra... Dá até para fazer outros tantos poemas... Com Graça, ele fez graça e garça, falando da própria brincadeira de trocar letras. Deixou raça, rara e garra (duplicando o r nos dois casos) e outras de fora. Com Joseane, achou outros nomes dentro do nome. E com Luciana fez os dois, palavras e nomes. E assim vai...

GRAÇA

Se Graça trocar
de lugar as letras,
a garça voa.

E a menina,
sem graça,
fica sozinha.

.

JOSEANE

Jane ama José,

José casou com Ane.

Como nasceu Joseane?

E o que foi feito de Jeane?

.

LUCIANA

Lia na lua

recados

de Luci e Ana,

lembranças

de Lina e Lana

e saudades

de Luana.

Bartolomeu Campos de Queirós, Diário de Classe, São Paulo: Moderna, 1992.

Que tal, professores, tentar fazer pequenos poemas com as palavras que moram dentro dos nomes de seus alunos? Que tal eles ajudarem?

Pois bem... Sabe que muitos poetas se utilizaram desse recurso para fazer seus poemas? Encontram palavras dentro dos nomes ou dentro de outras palavras, duplicam letras para perseguir outras tantas e mudam uma letra, umazinha só, formando pares mínimos (lembram do post sobe pares mínimos?), que também formam sonoridades bem interessantes. Poema, vocês sabem, é um jogo com a linguagem, com os sons, com os sentidos articulados à sonoridade das palavras.

Querem ver um desses? É o Colar de Carolina, de Cecília Meireles.

Colar de Carolina
Cecília Meireles

Com seu colar de coral,
Carolina
corre por entre as colunas
da colina.
O colar de Carolina
colore o colo de cal,
torna corada a menina.

E o sol, vendo aquela cor
do colar de Carolina,
põe coroas de coral

nas colunas da colina.


CAROLINA: em Carolina tem coral, colar, cor, coroa, colo, cal, colina (e coluna, que com colina, faz um par mínimo!), todas palavras que Cecília colocou lá. E ainda tem colore e corre, que não se faz com a letra i, mas se faz com o som / i /, que quase aparece em Carolina (quem aparece é seu “irmão”, o fonema / ĩ /, um i nasal). CORADA também só acrescentou o D, as outras letras estão lá e a palavra ressoa em coral...

Bom, gente, e com letras, palavras, nomes e belos poemas, muitas outras tantas coisas podemos fazer. Dentre essas muitas, já pensaram em brincar de recitar um poema suprimindo algum fonema? É um jogo de reflexão fonológica de nível bem complexo, mas que dá para brincar. Precisa saber de cor ou ir dizendo após a leitura de cada verso...
Experimentem dizer ou ler o Colar de Carolina, ou qualquer outro poema repleto de aliterações e assonâncias, sem pronunciar algum fonema recorrente, como o fonema / k / do Colar de Carolina, por exemplo. Ou, no poema do nome Luciana, ler/recitar sem o fonema / l /, correspondente à letra L. Dá para dar bastante risada! E é sério!!!
Experimentem também brincar de suprimir, deslocar, acrescentar ou substituir letras/fonemas, finais ou iniciais, nos nomes das crianças. Ex. LARISSA: Arissa, Lariss, Tarissa, Barissa, Farissa, Clarissa, Larisse... Conheço quem já tenha feito o livro dos nomes, cheio de experiências desse tipo, feitas em sala, seja cada criança com o seu, seja um coletivo. Lindos!!!
Aliás, sobre poesia com o nome e as letras do nome, vai mais uma de Cecília, O Mosquito escreve. Aqui, são as letras do nome do inseto, m-o-s-q-u-i-t-o, que se revelam no poema. Dá para tentar fazer parecido com os nomes de pessoas. Melhor até que os já meio batidos acrósticos.

...

O Mosquito Escreve
Cecília Meireles
O mosquito pernilongo
trança as pernas, faz um M,
depois, treme, treme, treme,
faz um O bastante oblongo,
faz um S.

O mosquito sobe e desce.
Com artes que ninguém vê,
faz um Q,
faz um U, e faz um I.
Este mosquito
esquisito
cruza as patas, faz um T.
E aí,
se arredonda e faz outro O,
mais bonito.
Oh!
Já não é analfabeto,
esse inseto,
pois sabe escrever seu nome.
Mas depois vai procurar
alguém que possa picar,
pois escrever cansa,
não é, criança?
E ele está com muita fome.
Cecília Meireles, Ou isto ou aquilo, Rio de janeiro: Nova Fronteira, 1987.
Por hoje, é isso, em breve, novos posts sobre a sonoridade dos poemas, as rimas, aliterações e assonâncias que provocam sentido, ritmo, beleza aos poemas. E ensinam sobe esse gênero, suas características, além de favorecer muitas situações de reflexão fonológica, brincando e apreciando jóias da literatura. Se bem que em parlendas e trava-línguas tem outro tanto disso...só que em contextos mais nonsense, também ótimos para focar a atenção nos significantes e não no significados – ótimo exercício de reflexão fonológica. Chegaremos lá!
Fiquem ligados,
Lica