Uni, duni, tê, salamê, minguê...

Uni, duni, tê, salamê, minguê...
Materiais a partir de textos da tradição oral

sábado, 26 de junho de 2010

Caixinhas de Livros

Os kits das Caixinhas de Livros são xodozinhos que faço a partir de livros infantis que tenho em meu acervo... Compõem-se de caixinhas contendo materiais preparados a partir de diversos livros de literatura infantil. Cada caixinha, um livro diferente. O propósito dessas caixinhas é dispor de um material estruturado a partir das histórias, para que, após serem lidas e gerarem muitas atividades de leitura e produção escrita, no âmbito do letramento, possam também favorecer atividades de reflexão sobre o sistema alfabético de escrita, o uso dos conhecimentos disponíveis sobre o funcionamento desse sistema e de diversas estratégias de leitura pelas crianças.
Os livros que dão origem às Caixinhas são da literatura infantil brasileira ou estrangeira, todos muito bacanas para as crianças nessa idade, em processo de alfabetização, e também para crianças menores. Meu filho, de 3 anos, adora!
Ouvir, contar, contar junto, fruir, apreciar, discutir, reler, ler junto, recontar, contar para um escriba, reescrever, fazer coletivamente listas de personagens, reconhecer as palavras na lista, brincar com as palavras... muitas são as práticas de leitura e escrita que podem favorecer o letramento e a alfabetização a partir de livros de literatura infantil.
Com os pequenos, a leitura oral feita – bem feita – pelo adulto já é essencial a sua formação como leitor. É comum começarem a contar partes, com a entonação de leitura, como se lessem também. As situações de “como se lessem” constituem-se em eventos de letramento muito importantes para a formação de comportamentos leitores. Formação de leitores.
No acervo de materiais que venho desenvolvendo, há Caixinhas de livros diversos, como Bruxa, Bruxa, A Casa Sonolenta, Bom Dia Todas as Cores, Os Amigos da Bruxinha, Dorminhoco, dentre outras. No momento estou preparando caixinhas a partir dos livros O Grúfalo, estudando possibilidades de um jogo de trilha, do livro Maria-vai-com-as-outras e do livro O rei Bigodeira e Sua Banheira. Essas caixinhas, todas elas, fazem parte das propostas do Módulo II das Oficinas de Produção de Material, constituindo-se como materiais produzidos a partir de gêneros textuais diversos, no caso, gêneros da cultura escrita, literária.
Aos poucos, vou publicar aqui algumas palavrinhas sobre cada kit, tá? Hoje vou postar sobre a Caixinha do livro Bruxa, Bruxa.
O livro Bruxa, Bruxa, Venha a Minha Festa, de Arden Druce, da editora Brinque-Book, em si, já é ótimo para propor situações de aprendizado da leitura, pois sua estrutura favorece a leitura da história quando ainda não se sabe ler, possibilitando antecipações do escrito pelas repetições e imagens. A história é contada por meio de um diálogo que se repete, mudando apenas os personagens. Assim, depois de lida uma vez pelo professor, pode ser lida como uma história interativa, as crianças contribuindo com a leitura das frases que, rapidamente, memorizam pela repetição.
As crianças podem, a princípio, “ler” as primeiras frases, que são sempre o nome do personagem daquela página, em vocativo, e indicado pela ilustração, e o convite à festa: “Bruxa, Bruxa, por favor, venha à minha festa”, “Lobo, lobo, por favor, venha à minha festa”... E o professor lê as frases seguintes, “Obrigado, irei sim, se você convidar a (o)...”, e lê o nome do personagem, que vai figurar na próxima página. A última palavra que o professor lê, o nome do personagem seguinte, dá a pista para a próxima frase das crianças. Ex. “Obrigado, irei sim, se você convidar o Espantalho”: “Espantalho, Espantalho, por favor...”.
Com o tempo, as crianças podem ler essas frases em resposta também, usando algum recurso para saber o personagem que se segue, como, por exemplo, uma lista dos nomes ou fichas com esses nomes. Individualmente é comum ver as crianças “pescarem” virando o cantinho da folha para ver a ilustração da página seguinte, que guiará sua leitura. As ilustrações, aliás, de Pat Ludlow, são fantásticas, ao mesmo tempo belas, horripilantes e oníricas. Grandes e impactantes.
Por sua estrutura, é também uma ótima história para se recontar de memória, individualmente ou coletivamente. A única coisa que é preciso controlar, tendo as frases repetitivas memorizadas, é sequência dos personagens que vão aparecendo. Essa sequência pode, justamente, ser apoiada numa lista ou fichas de nomes numeradas ou dispostas na ordem de aparição dos personagens.
Assim, a forma como surgem os personagens da história, e sua estrutura recorrente, favorecem o uso do kit Bruxa, Bruxa de modo muito produtivo em atividades de alfabetização.
O Kit da Caixinha de Bruxa, Bruxa permite compor atividades de leitura e escrita de palavras que correspondem aos personagens da história, em três diferentes formas: palavras inteiras, segmentadas em sílabas e em letras móveis.
Assim, o kit pode ser usado de diferentes modos. No caso das palavras inteiras, pode ser proposta a produção de lista dos personagens, pela ordenação dos nomes a partir das ilustrações das páginas; a procura (leitura por estratégias diversas), entre as palavras, do personagem indicado pela professora, a partir de diversos indícios; cada palavra – as palavras devem ser distribuídas entre as crianças ou mesas –, pode ser relacionada à figura do livro mostrada ou nome do personagem dito oralmente (pode-se fazer também pequenas versões das imagens dos personagens para compor o kit); pode-se ainda fazer comparações entre os nomes nas fichas, encontrando semelhanças e diferenças entre dois deles ou entre todos. As atividades aí são de leitura de palavras, de reconhecimento delas a partir de estratégias de leitura e dos conhecimentos que se tem de valores sonoros de letras, de relações entre o oral e o escrito em diferentes níveis. As fichas com os nomes, com as palavras inteiras, podem também ser arrumados em ordem alfabética e até provocar uma reescrita da história a partir de uma nova sequência e um novo desfecho...(no livro, começa-se a história com a Bruxa e volta-se, no final, a ela própria).
A lista produzida com as fichas, com a sequência dos personagens, pode ser afixada na sala e proposta como apoio para o reconto. Essa é uma situação muito bacana de produção de lista, pois ela terá um objetivo bem definido, sua leitura terá um propósito comunicativo: apoiar a memória para que recuperem a sequência e recontem a história. Desse modo, a atividade de alfabetização, de reflexão sobre o sistema alfabético (compor a lista a partir do reconhecimento dos nomes escritos nelas) se integra completamente com a de letramento (recontar a história mantendo sua estrutura, seu sentido, a linguagem própria ao texto). Alfabetizar letrando... refletir sobre a escrita em atividades de produção de sentido.
No caso das palavras segmentadas em sílabas, os alunos serão solicitados a compor os nomes dos personagens, sejam indicados pela professora ou associados às figuras, em atividades semelhantes às descritas acima. Trata-se de uma atividade de síntese de sílabas, de leitura e escrita de sílabas para formar palavras (ainda que com sílabas móveis e não com o lápis, o gesto de escritura).
Formadas as palavras, as mesmas atividades podem ser propostas. Além disso, pode-se comparar palavras pelo número de sílabas, pelas sílabas (iniciais ou não) idênticas, como co-bra e co-ruja (interessante também perceber que no som podem ser diferentes, embora na escrita não), pode-se identificar em palavras diversas a mesma sílaba em posições diferentes e pode-se ainda ler as palavras retirando-lhes uma das sílabas ou trocando-a por outra. Ex. em co-ru-ja, se substituirmos o ru pelo pi de pirata, como ficaria? (co-pi-ja). Pode-se então brincar: Essa palavra existe? E se existisse, o que acham que seria? Experimentar juntar as sílabas de palavras diferentes e tentar ler que "doidice" saiu também pode ser interessante. Um nome de personagem bem maluco e engraçado pode surgir, provocando situações de leitura, escrita, produção de novas histórias. Ex. ES-PI-LO-XA (ES de espantalho, PI de pirata, LO de lobo e XA de bruxa). O que - ou quem - seria isso?
No caso das palavras segmentadas em letras móveis, trata-se de atividade de escrita, de composição das palavras, em situações diversas e atividades como as já descritas. Para crianças que já escrevem alfabeticamente, ou quase, compor os nomes dos personagens a partir de letras móveis constitui-se em uma situação de reflexão ortográfica. O fato de haver na caixinha apenas as letras necessárias para a composição dos nomes dos personagens da história permite que as próprias crianças controlem suas produções, pois sobrando ou faltando letras significa que é preciso rever alguma das palavras e pensar sobre o que pode estar incorreto do ponto de vista ortográfico.
Como nas atividades com sílaba, também aqui pode-se brincar de suprimir, acrescentar, deslocar letras das palavras formadas e ver que palavras ou palavras inventadas surgem, havendo inclusive a possibilidade de uma rica discussão sobre o que a língua permite como palavra (copija não é uma palavra que exista, que tenha significado, mas seria possível na língua portuguesa) e as sequências que não formam palavras possíveis, no âmbito das estruturas silábicas do português (ex. cpija). Essas situações podem se constituir em ricas reflexões para crianças com hipóteses silábico-alfabéticas e alfabéticas.
Para os que escrevem a partir de uma hipótese silábica, a composição de palavras com letras móveis é uma boa oportunidade para refletirem sobre a escrita, no âmbito de sua hipótese, bem como para confrontar sua hipótese com a dos colegas, especialmente se trabalharem em duplas ou pequenos grupos. Nesse caso, e especialmente se consideram o valor sonoro das letras em suas escritas, aparecem grafias como, por exemplo, crj, oua, cua, para a palavra coruja, produtivas e aceitáveis nesse nível de reflexão sobre o funcionamento do sistema de escrita, pois consideram a sílaba como unidade que se grafa com uma letra.
Outra coisa que pode ser incluída na caixinha do Bruxa, Bruxa, são suas  partes fatiadas (as frases de cada página, uma com o convite, outra com a resposta) para as crianças colocarem em ordem. Assim, elas deve relembrar a ordem da história, dos personagens que vão se sucedendo uns aos outros, ou podem também se apoiar  na ordem das palavras numa lista (ou montada com o material) e ir tentando encontrar a sequência das frases fatiadas, que correspondem aos turnos de fala nesse grande diálogo encadeado. É bem interessante!

Bom, é isso, gente, essa é a Caixinha Bruxa, Bruxa. Essas foram as possibilidades que couberam nessa caixinha em especial. Experimentem, tentem também criar outras possibilidades. Compartilhem!
Essa é a Caixinha Bruxa, Bruxa. Outras caixinhas, outras coisinhas, cada uma, algumas peculiaridades. Caixinhas semelhantes, caixinhas diferentes. Cada uma tentando explorar as possibilidades singulares de cada narrativa.
E vão pensando nos livros dos acervos de vocês, o de casa, o da escola, o da vontade de tê-los... Como seriam as caixinhas dessas histórias? Espero provocá-la(o)s a imaginarem isso e, quem sabe, produzirem suas próprias caixinhas.
Aguardem os posts sobre outras caixinhas, outras histórias... com o tempo, eles virão!
Lica

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Clima de Copa do Mundo


BRASIL
Aproveitando a oportunidade e a motivação da Copa do Mundo, vou apresentar nesse post uma ideia de material e de atividades com as bandeiras e nomes dos países participantes da Copa do Mundo de 2010. Esse material foi proposto por Mariana Capinã Vitoriano da Silva, que está cursando o 5° semestre de Pedagogia na UFBA e fez uma oficina comigo agora em junho, no contexto da disciplina Alfabetização, ministrada pela professora Mary Arapiraca.
Mariana, que faz estágio como professora numa turma de EJA, aproveitou o interesse dos alunos por futebol para abordar o tema a partir de textos, curiosidades, informações e jogos. Para trabalhar a leitura e a reflexão sobre o sistema de escrita, Mariana propôs algumas atividades com as bandeiras dos países e seus respectivos nomes. As bandeiras dos países da Copa podem ser encontradas na Internet, basta copiar, colar no Word, escrever seus nomes em tamanho grande, com letras maiúsculas, de preferência, e imprimir. Ela fez Preguicinha com os nomes dos países escritos em fichas de papel e depois também pediu à turma para organizar os nomes dos países em ordem alfabética, montando um varal com as bandeiras e os nomes. Notem que para organizar em ordem alfabética, é preciso levar em conta não apenas as letras iniciais, mas também as seguintes, criando uma ótima situação contextualizada de aprendizagem de letras e da ordem alfabética. Ex. Como colocar Espanha, Eslovênia e Eslováquia em ordem alfabética? Essa é uma pergunta que vai gerar interessantes discussões e reflexões.
Atenção: a atividade foi originalmente desenvolvida em uma turma de EJA, mas pode também ser proposta numa turma de crianças. Pode-se introduzir as bandeiras aos poucos, à medida que forem acontecendo os jogos e as leituras e conversas sobre a Copa. Pode-se começar também pelos países mais conhecidos ou separados por continente. O tratamento vai depender da turma, da motivação, do interesse, dos conhecimentos que forem sendo partilhados.
Para quem não sabe, a Preguicinha é um nome que se dá àquela atividade interessante que se faz, geralmente, com nomes próprios, de cobrir a palavra com um papel e ir mostrando letra por letra, variando a letra mostrada – letra inicial, segunda letra, ou última letra, penúltima letra – para que os alunos tentem descobrir qual é a palavra escondida. A Preguicinha pode ser feita com outros universos de palavras, como personagens de uma história, animais estudados, lista de comidas do São João, ou seja, várias possibilidades, inclusive com os países da Copa. Antes os alunos devem saber que países são esses, para lembrar das possibilidades de palavras que tem naquele universo. Ex. Se não sabem que Eslováquia é um nome de país participante da Copa, como vão poder sugerir esse nome ao verem a letra E seguida da letra S?
A Preguicinha é uma atividade muito bacana, pois exige que os alunos considerem e analisem cada elemento por vez, cada letra, que comparem, antecipem, verifiquem, discutam possibilidades, pensem sobre as letras iniciais e finais das palavras, usem os conhecimentos que têm sobre letras e sons. É bacana principalmente quando há, nos universos de palavras possíveis (daquele campo lexical trabalhado), também palavras que se iniciam ou terminam pelas mesmas letras. Desse modo, quando as letras iniciais, segundas, finais coincidem, é preciso que os alunos busquem outros indícios, letras mais pelo meio da palavra, para descobrir a palavra escrita. Ex. Argélia/ Austrália/ Argentina; Espanha/ Eslovênia/ Eslováquia.
Se as bandeiras e os nomes dos países forem colados, separadamente, em papel mais grosso, tipo duplex, pode-se ainda propor outras tantas atividades, como colocar no centro da roda ou em mesas os pares (bandeiras e nomes) embaralhados para os alunos associarem as bandeiras dos países aos seus nomes. É um jogo que pode se chamar As Bandeiras e Seus Nomes. Para isso, evidentemente, precisam reconhecer as bandeiras ou a professora deve informar, oralmente, cada uma qual é. A ideia de explorar bastante as bandeiras antes, expor na sala, em varal ou na parede, junto com seus nomes, como fez Mariana, já favorece o reconhecimento de bandeiras de diferentes países. Mas na hora dessa atividade de associação da palavra com a figura, essa "pesca" não pode estar mais exposta, senão não precisa haver esforço de reconhecimento das palavras. O professor pode também distribuir apenas os nomes pelas mesas ou por cada aluno e mostrar à turma cada bandeira dizendo o nome do país correspondente. A mesa ou o aluno que estiver com a ficha com o nome do país, deve então mostrar.
Outra atividade interessante, que também fazemos muito com os nomes próprios, é o Trem de Palavras. Distribuem-se os nomes dos países entre os alunos e coloca-se uma ficha com um dos nomes no chão, essa é, naquele turno, a locomotiva que vai puxar os outros nomes. Ex. Brasil. Quem tiver uma palavra que tenha alguma característica semelhante à palavra Brasil, que está no centro, coloca ao lado, no trem. Ex. Portugal, pois termina com L, como Brasil. Quem segue colocando a próxima palavra deve considerar a palavra Portugal, não mais Brasil. Ex. Paraguai, pois começa com a mesma letra P. E assim por diante... Terminado o trem (alguns países podem ficar de fora ou também é possível ver onde eles poderiam se encaixar no trem), começa-se outro, outro turno, com uma nova palavra como locomotiva.
O professor pode solicitar que cada aluno justifique a escolha da palavra incluída no trem ou que os outros colegas digam o critério que uniu as duas palavras em cada jogada. Pode também ir provocando os alunos a considerarem, aos poucos, diversos critérios: letra final, letra inicial, segunda letra, letra do meio, número de letras, número de sílabas, presença de determinada letra (ex. Brasil e Chile: ambas têm a letra I), presença de determinada sílaba, nome composto, presença de acentuação etc. Levar os alunos a considerarem sempre critérios formais, não semânticos.
Uma variante do trem é o jogo Pares de Palavras, que é interessante também com nomes próprios. Coloca-se as fichas com os nomes (próprios ou dos países ou outro universo qualquer de palavras) embaralhadas, viradas para baixo, de modo que os nomes não sejam vistos. Cada aluno, no seu turno, desvira duas palavras aleatoriamente e tenta encontrar, entre elas, alguma característica comum às duas (critérios diversos, como os apresentados acima, para o trem). Todos podem ajudar, caso o aluno não encontre. Se realmente não houver algum critério que as unem, o jogador pode virar as cartas e desvirar mais duas, ou virar apenas uma das duas e desvirar mais uma. Pode-se também propor que tentem reconhecer, ler, as duas palavras que escolheram, cada jogador ou a turma toda ajudando. Prefiro o jogo pelo jogo, sem ter quem ganhe ou quem perca.
Enfim, muitas outras atividades podem se desdobrar. Invente a sua! Se inventar, mande para a gente pelo blog, para socializarmos outras possibilidades.
E vamos torcer também, né, gente?!
Agradeço a você, Mariana, por sua contribuição.
Lica