Uni, duni, tê, salamê, minguê...

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Materiais a partir de textos da tradição oral

sábado, 9 de junho de 2012

TRILHAS

Oi, gente,
Conforme prometido, segue o post sobre o T.R.I.L.H.A.S. 
Caixa Trilhas
Fui indicada,  no final de 2011, para participar do Projeto Trilhas, pela professora Lícia Maria Freire Beltrão, da Faculdade de Educação da UFBA, pois o projeto, de âmbito nacional, estava solicitando professores ligados às Universidades para compor a Rede de Ancoragem Trilhas, como Formadores Estaduais do Projeto. Quando tive notícia do que era o Trilhas, não hesitei, pois ele tem muito a ver com o meu trabalho em alfabetização, letramento e literatura infantil, como vocês poderão ver. 

Informo, entretanto, que fiz parte do Projeto até 2013 e agora já não tenho mais relação institucional com o Instituto Natura, pois o Formador Estadual - que era a minha função na então chamada Rede de Ancoragem (hoje o funcionamento é outro) - não existe mais na dinâmica das formações.

O Trilhas foi desenvolvido a partir de uma parceria do Instituto Natura (IN) e da Comunidade Educativa CEDAC, e, a partir de 2011, também com o Ministério da Educação. Trata-se de um projeto alinhado com o Plano de Metas Todos pela Educação, que tem como uma das metas, até 2022, ter toda criança plenamente alfabetizada até os 8 anos.

Em 2012, cerca de 3.300 municípios de todo o país – escolhidos entre os que têm o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) baixo, as grandes cidades e todas as capitais – receberam o kit de materiais Trilhas, alcançando 72 mil escolas públicas, 140 mil professores e mais de três milhões de alunos. Na Bahia são mais de 200 municípios.

O projeto tem a intenção de contribuir, pela via do material e da dinâmica de formação continuada que implica, com o processo de ensino e aprendizagem das crianças, buscando torná-las verdadeiras usuárias da leitura e da escrita, e consequentemente, com a melhoria do IDEB das escolas e municípios.

Segue um vídeo, Formação de Leitores, que embora já esteja desatualizado em termos dos números que apresenta, e refere-se ao Trilhas quando o projeto ainda era voltado para a Educação Infantil, contribui muito para compreendermos o que o Trilhas propõe.


O Trilhas é um conjunto de material para instrumentalizar e apoiar o trabalho do professor no campo da leitura, escrita e oralidade, com o objetivo de inserir as crianças do 1º ano do Ensino Fundamental em um universo letrado. É importante ressaltar que, embora atendida pelo 1º ano do Ensino Fundamental, a criança de 6 anos continua sendo uma criança de 6 anos, com seus modos próprios de construir conhecimento e de ser criança, e o objetivo do 1º ano continua sendo o acesso à cultura escrita. Assim, o material, que tem como foco a literatura infantil e os jogos de linguagem, prioriza a garantia de acesso à cultura escrita e a formação de leitores nesse segmento, considerando a criança de 6 anos em suas especificidades.

Assim, é um material voltado especificamente para o 1º ano. Entretanto, como o Trilhas inicialmente foi concebido para a Educação Infantil – de 4 a 6 anos – é um material que pode ser também aproveitado para esse segmento, bem como para as séries iniciais, na qual ainda encontramos crianças que precisam ter firmados os seus processos de letramento e alfabetização. O próprio material prevê adaptações possíveis nas atividades propostas.

A Caixa traz materiais específicos para o uso com as crianças – jogos, livros de literatura e materiais pedagógicos -, bem como materiais de estudo e apoio ao professor:
  • Caderno de Apresentação, com a apresentação do material, suas premissas e fundamentos;
  • Cadernos de Orientação para o encaminhamento de atividades que têm como referência os livros literários;
  • Cadernos de Estudo, para aprofundar os conteúdos tratados nos Cadernos de Orientação;
  • Caderno de Jogos.
Há também os Cadernos direcionados a outras instâncias do processo educativo, como o Caderno da Secretaria e o Caderno do Diretor, implicando todos nesse processo.


As caixas Trilhas, entregues nas Secretarias Municipais de Educação e nas próprias escolas, contêm os Cadernos citados, os jogos e materiais pedagógicos e são acompanhadas de um acervo de 20 títulos de livros, dentre livros de textos narrativos, textos poéticos e canções, todos constando do acervo do FNDE.

Os Cadernos de orientação são organizados por gêneros e compõem os blocos de materiais. São três blocos: O Trilhas para ler e escrever textos, o Trilhas para abrir o apetite poético e o Trilhas de jogos.












O Trilhas para ler e escrever textos traz os seguintes cadernos de orientação: Histórias clássicas, histórias com animais, histórias com engano, histórias com acumulação e histórias com repetição. Cada caderno toma um dos livros do gênero como referência e indica mais um ou dois livros do acervo, do mesmo gênero, que podem também ser usados como referência para as atividades propostas. Como há uma abordagem das características dos gêneros, outros livros, fora do acervo de 20 livros do Trilhas, podem também ser usados. O Trilhas propõe, na verdade, um material aberto, flexível, a partir do qual o  professor aprende procedimentos produtivos, e pode usá-los em diversas situações outras, com diversos outros livros.

O Trilhas para abrir o apetite poético traz os cadernos de poesias, de parlendas, de canções e de histórias rimadas, que são pequenas histórias com enredo mínimo, ressaltando-se as sonoridades, a estrutura poética e a repetição. Alguns dos livros de canções e parlendas são acompanhados de CD. Também aqui aprendem-se procedimentos que podem ser usados com vários outros poemas, canções, parlendas e histórias rimadas que não apenas as dos livros do acervo Trilhas. Por esse motivo, o material pode ter longa vida, não se esgotando nos livros que propõe de início.

Os Cadernos de orientação, tanto do bloco de textos narrativos, quanto do bloco de textos poéticos, trazem uma estrutura semelhante, para ajudar o professor a se apropriar do material. E em ambos os blocos há um Caderno de Estudos que desenvolve, de modo objetivo, claro e conciso, as discussões importantes sobre as atividades propostas nos Cadernos de Orientação. Isso faz do material um todo articulado e auto-explicativo.

Além dos livros, esses dois blocos contam ainda com algumas cartelas relacionadas a atividades propostas a partir de determinados livros. Essas aqui são do livro A Casa Sonolenta, apoiando o reconto da história, o trabalho com a estruturação da narrativa e a memorização.


O terceiro bloco, o Trilhas de Jogos, tem uma estrutura diferente, pois apresenta em um único Caderno tanto os jogos, suas regras, os aspectos linguísticos que cada um deles trabalha, quanto a reflexão e estudo sobre esses conteúdos. O Caderno é dividido em duas partes. Na primeira, apresenta os jogos de linguagem propriamente ditos, que são os jogos que vêm na caixa Trilhas. São dez jogos de linguagem, ora com ênfase em aspectos fonológicos ou fonográficos, ora em aspectos semânticos e morfológicos. Essa parte traz duas tabelas bem interessantes, que resumem de modo muito claro para o professor, as aprendizagens envolvidas em cada jogo e os aspectos linguísticos relacionados a eles. Na segunda parte, o caderno traz uma reflexão sobre os jogos de faz de conta, o trabalho com a linguagem no contexto das brincadeiras.


Os jogos fonológicos ou fonográficos são bem interessantes, eu particularmente adoro o Bichos Malucos, que citei em um post recente, o Nomes Escondidos e o Batalha dos Nomes. Esses, dentre outros jogos, como o Rimas e o Descubra o Invasor, se parecem muito com propostas que fazem parte do meu próprio acervo de jogos e que tenho apresentado aqui no blog. Por isso mesmo, minha identidade com o Trilhas foi grande.

Também percebi, brincando com meu filho, Joaquim – que quis jogar todos quando a caixa chegou lá em casa –, que é possível adaptar as regras de um e de outro jogo para jogar com os menores, como é o caso dele, ainda com 5 anos. O próprio material propõe adaptações, e podemos sempre inventar outras.

Uma coisa muito interessante do material é que ele não tem uma sequência única e rígida de uso pelo professor. Cada atividade e o conjunto das 8 atividades de cada Caderno, por um lado, são apresentadas numa sequência lógica, bem estruturada, que dá subsídios consistentes à ação do professor. Por outro lado, o professor tem autonomia para escolher por onde quer começar, que Caderno, que livro de literatura, que jogo... por onde vai seguir depois, se vai apresentar diferentes propostas de diferentes blocos simultaneamente – porque pode ser interessante – enfim, o professor, no seu planejamento, junto com o seu coordenador, pode escolher caminhos, trilhas, e montar o seu planejamento de forma bem diversa, particular, própria. Aliás, é por isso mesmo que o projeto se chama Trilhas, no plural, variadas, e trilha que dá um rumo, mas também pode ser construída no próprio caminhar. Essa flexibilidade do material, ao mesmo tempo em que dá apoio ao trabalho, faz do Trilhas um material atrativo, pois possibilita ser articulado com outros projetos e ações já desenvolvidas em cada escola, classe, município. Essa flexibilidade foi muito comemorada nos Encontros Estaduais aqui na Bahia. Como ele traz o que é essencial às crianças desse segmento - o acesso à cultura escrita, à linguagem, à literatura, a formação de leitores, a reflexão linguística - e como o faz através do jogo e da literatura - essenciais e muito bem vindos a essa faixa etária, sempre haverá um lugar para ele. Considera, desse modo, a especificidade da criança de 6 anos, e traz o que é fundamental a esse momento de sua escolaridade. 

Outra coisa que julgo ser muito interessante do projeto é o foco no letramento literário. Não que seja menos importante o trabalho com outros gêneros textuais que circulam socialmente - isso está implicado no próprio conceito de letramento. Mas o Trilhas faz a escolha de enfatizar a importância da literatura no acesso à cultura escrita de crianças dessa idade, no letramento de crianças atendidas na rede pública, que podem ter menos acesso ao repertório literário fora da escola. E isso eu vejo de forma muito positiva, já que muitas práticas de letramento, focadas em gêneros textuais mais funcionais, por vezes reduzem o valor do letramento literário em função de discursos sobre a formação cidadã. Ora, cidadania também se constrói com a formação de bons leitores e de sujeitos que têm acesso à linguagem artística, poética, literária.   

Bom, vou falar um pouco sobre a lógica de funcionamento do projeto. O Trilhas, no início, criou, para sua implementação nos municípios, uma Rede de Ancoragem, que envolvia diferentes instâncias. As ações da Rede começaram no Encontro Nacional, em que nós, Formadores Estaduais de todo o Brasil, estivemos presentes, para conhecer o projeto e planejar os Encontros Estaduais, junto à equipe do IN e CEDAC. Também faziam parte da Rede a UNDIME e o CONSED, como articuladores estaduais que ajudavam a fazermos a ponte com os municípios. Os participantes dos Encontros Estaduais, vindos de diversos municípios, eram representantes de Secretarias Municipais e/ou Estaduais de Educação, professores e técnicos, que seriam os Formadores Locais e terão a responsabilidade de fazer os Encontros Locais em seus municípios, com os diretores e coordenadores das escolas da rede. Estes seiam, por sua vez, os Formadores Escolares e teriam a responsabilidade de encaminhar, nos espaços formativos estabelecidos nas escolas, o estudo e implementação do Trilhas, o planejamento e encaminhamentos das ações do projeto, no âmbito da formação continuada, chamados no projeto de Encontros Escolares. Cada instância de formadores envolvidos na Rede contava ainda com Cadernos de apoio, com orientações para o planejamento dos Encontros de implementação do Trilhas.


A Rede de Ancoragem, eu brinco, se parecia com A Casa Sonolenta, em que vamos desenvolvendo as ações em cada instância até a ponta – os professores e as crianças – e as crianças são como a pulguinha da história, que dá uma mordidinha e... assim vai de volta, implicando cada instância, que vai dando notícia de como as coisas estão acontecendo. O acompanhamento dessas ações se deram, em grande parte no Portal Trilhas, fundamental para o funcionamento da Rede de Ancoragem. 

Os Formadores Locais tinham o papel fundamental de fazer a ponte entre nós e os municípios,  de pensar em como o Trilhas ia se articular às ações de formação continuada de cada município, considerando o tamanho e a estrutura de sua rede de ensino e as organizações formativas de cada uma. A Rede de Ancoragem Trilhas tinha essa característica de considerar a realidade de cada município, o que cada rede municipal já havia estabelecido como ação formativa, ao mesmo tempo em que demandava uma dinamização dessas ações caso estivessem pouco desenvolvidas ou sistematizadas em alguns municípios.

Os conteúdos dos Encontros de implementação do Projeto eram sempre mais ou menos os mesmos, só que direcionados à instância específica. Era sempre importante apresentar o projeto, os materiais, o Portal Trilhas – onde acontecerão as ações da Rede –; encaminhar a discussão sobre o tempo escolar para o estudo e as organizações de ações formativas de implementação e de acompanhamento do projeto; abordar os fundamentos, premissas e concepções do projeto, com a discussão sobre o acesso à cultura escrita e, por fim, pensar no planejamento e produzir as pautas de trabalho para os Encontros da instância seguinte. No nosso caso, aqui na Bahia, discutimos a questão da garantia ao acesso à cultura escrita a partir do prezi que vocês podem conferir aqui: Cultura Escrita


Na Bahia fomos 4 Formadoras Estaduais. Quando entrei para o Trilhas, indiquei também Luciene Santos, minha amiga querida e contadora de histórias maravilhosa, e esta indicou Aline Moura, outra amiga, que também já havia convivido conosco em contexto de trabalho e de pós-graduação... E nós compomos, assim, o trio de formadoras da Bahia: trio nordestino, trio mocotó ou trio elétrico, não sei. Sei que nos afinamos muito bem e esperamos que essa parceria produtiva possa repercutir em uma boa atuação do Trilhas na Bahia.  Além de nós três, Bete Monteiro também entrou na equipe, para cuidar do grupo que faz parte do Projeto Chapada, também ligado, de algum modo, ao Instituto Natura, e com suas especificidades.

Nosso trabalho era conjunto, em parceria com muitas pessoas, desde a equipe toda do Instituto Natura e CE Cedac, equipe dez!, até os professores de classe, que íamos conhecendo através do Portal. Conhecemos pessoas muito profissionais nesse caminho, comprometidas com a educação de nossas crianças, pessoas maravilhosas, pessoas de todo lugar. Fica aqui o meu agradecimento por fazer parte desse projeto. 

 Maria Slemenson, do Instituto Natura, Luciene, eu e Aline, no brinde ao Trilhas!
Hoje, já em 2015, o TRILHAS mudou muito. A Rede de Apoio à Educação (que substituiu a Rede de Ancoragem) concentra suas formações em algumas localizações e o Instituto fornece cursos gratuitos à distância para os demais interessados, pelo Portal Trilhas. 

Para se informar sobre o Projeto hoje, acesse http://www.portaltrilhas.org.br/ e siga o Facebook do Instituto Natura.

Bom, espero que o post tenha ajudado os que estavam curiosos a conhecerem um pouco do que é o Trilhas. Fiz questão de postar sobre o projeto aqui, já que estive muito envolvida, mas principalmente porque dialoga muito com as propostas do blog.

Para quem faz parte da rede municipal e trabalha com turmas de 1º ano do Ensino Fundamental, fiquem atentos para ver se sua escola foi contemplada, ok? Aliás, podem verificar isso no Portal Trilhas, clicando aqui: Escolas Beneficiadas
Lica

Para mais informações, ver links: