Uni, duni, tê, salamê, minguê...

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Materiais a partir de textos da tradição oral

sábado, 17 de novembro de 2012

Histórias cumulativas e a leitura

Como prometido, vamos falar um pouco sobre o trabalho com as histórias com repetição e acumulação na apropriação da leitura, já que esses são gêneros que, além de muito indicado para os pequenos, são também privilegiados nesse sentido. Entremeado a essa reflexão, vou mostrar um kit de materiais da história “Ah, Cambaxirra, se eu pudesse...”, de Ana Maria Machado, confeccionado por Ana Antunes e seus alunos.


Evidentemente, antes de qualquer trabalho com foco na reflexão sobre a linguagem, importam as histórias em si mesmas, sua natureza literária. Seja de tradição oral ou escrita, o foco primordial é a história, a graça ou encantamento que elas trazem. As histórias com repetição ou acumulativas têm esse quê de brincadeira com a retomada repetitiva de frases e situações e com a embolação acumulativa, que agrada muito às crianças, se bem lidas ou contadas.

À medida que o professor propõe às crianças a leitura ou a contação de contos desse tipo, elas vão constituindo um repertório de textos conhecidos, fazendo articulações entre contos diferentes, observando semelhanças e diferenças e se apropriando da estrutura repetitiva que os caracteriza. Isso Ana bem percebeu em sua turma! Já podem até criar uma história acumulativa, já pensou, que legal que deve ser pensá-la?! Pois bem, essa é uma possibilidade... pensar na situação, nos personagens, de que jeito vão ser repetidas ou acumuladas as ações...e o desfecho...e a professora ir escrevendo, relendo, todos opinando, até que fiquem satisfeitos. Fica a dica! Mas é preciso, primeiro, ouvir várias histórias desse tipo.

Bom, e o que essas histórias têm de especial no trabalho com a leitura? Após um elemento desencadeador da narrativa, um mesmo evento ou situação semelhante se repete várias vezes, se acumulando ou não. As ações ou situações anteriores vão sendo retomadas a todo o instante e, nas acumulativas, a cada repetição, agrega-se mais um elemento, resultando numa longa enumeração. Ora, essa estrutura facilita a antecipação das crianças do que virá em seguida, permite que repitam oralmente as ações anteriores que se repetem ou se acumulam, o que possibilita a retenção do enredo da história, de formas linguísticas, de trechos. O enredo, muitas vezes bem simples, tem um ritmo também repetitivo, favorecendo essa memorização. Isso vai facilitar diversas práticas, como veremos.

Mas não são somente as crianças que podem memorizar a história, não! Devido a sua origem como narrativa oral, é interessante que algumas histórias acumulativas sejam contadas de memória, sem o texto escrito, com toda a vitalidade e colorido da contação, especialmente aquelas da tradição oral. Experimentem, por exemplo, contar o Macaco e o Rabo! Para isso é preciso ler várias vezes, se apropriar da história, fazê-la sua! E aí sim contar para as crianças sem o livro. Como é um conto da tradição oral, você pode contar do seu modo, com suas palavras, mantendo o enredo e a estrutura da acumulação. No post anterior tem um vídeo com a história. Veja aqui duas versões desse conto: O Macaco e o Rabo. Encontre o seu jeito de contar!

Mas como contar de memória nem sempre é possível – pois para isso quem conta deve se sentir à vontade para narrá-la oralmente sem o apoio do livro – então, mesmo quando lida oralmente pelo professor, é fundamental que a leitura seja viva, cadenciada, atribuindo ao texto o ritmo que a oralidade lhe daria, enfatizando o seu encadeamento. E a familiaridade com o texto – ainda que não memorizado completamente – é essencial para se conseguir esse efeito. Esse cuidado é importante não apenas para não tornar a leitura monocórdia, monótona, sem ritmo – o que na história acumulativa, especialmente nas que se assemelham a uma longa parlenda, é um risco ainda maior e estraga a história – mas também para restituir-lhe a sua natureza oral. Aliás, qualquer que seja o gênero de texto, a leitura compartilhada, como a contação, exige sempre uma preparação.

Ana lendo para a turma
Assim, é necessário preparar-se para ler, para contar, ensaiar a leitura oral, o ritmo, explorar as nuances do texto, experimentar modos de ler e de contar que cativem as crianças e prendam a sua atenção... Há trechos que podem ser lidos de forma mais lenta, outros que demandam uma leitura mais rápida, como, por exemplo, quando a acumulação se inverte... E, assim, ensaiando, você poderá tanto restituir bem, pela voz, a oralidade do texto escrito, quanto ler para as crianças sem estar com os olhos grudados na página a todo o momento, já que há trechos repetidos que podem ganhar vida com gestos e olhares mais presentes, que busquem e capturem os olhares das crianças. O leitor aí se coloca um pouco como contador, que busca para si a atenção, não a centralizando apenas no objeto livro.

É comum que depois de ouvir alguns trechos da história, as crianças também comecem a enunciar as frases que se repetem e se acumulam no texto, participando da narração e dando-lhe vida. O modo como essas histórias se organizam favorece a participação mais autônoma das crianças na leitura, permitindo que antecipem os acontecimentos, memorizem gradativamente o texto e compartilhem a leitura, mesmo antes de ter o domínio da leitura autônoma. E isso será importante para a apropriação dessa autonomia. As ilustrações – no caso de leitura de livro – geralmente ajudam a fazer tais antecipações.

Mas não se iluda! Como se retoma sempre os eventos anteriores e agrega-se a eles um elemento novo, para avançar, estão presentes no texto tanto a repetição, o reconhecimento de uma situação, quanto a novidade, garantindo assim o desenvolvimento do enredo. E, no final, a surpresa! Lembre-se de dar um colorido especial à leitura do trecho final, em que se introduz na história a novidade que faz o rumo da acumulação parar, inverter ou prometer nunca acabar... Observe que entonação, pausas e silêncios podem ajudar a ressaltar a graça, a surpresa, o sentido da história.

Outra coisa interessante é que, pelo fato de as repetições e retomadas se darem por expressões de linguagem, esse gênero de texto pode apresentar também jogos verbais lúdicos, muito interessantes tanto do ponto de vista de uma boa interação com os ouvintes, quanto para o trabalho com a oralidade e a escrita: expressões e palavras repetidas, onomatopeias, trocadilhos, rimas etc. Esses recursos podem, em um momento posterior, favorecer a reflexão sobre os sons da língua e a observação das relações entre a linguagem falada e escrita. E, durante a leitura, dão vida ao texto e à interação entre leitor e ouvintes.

Assim, além de divertir e encantar as crianças, função primordial da literatura, as histórias com repetição e acumulação ajudam a desenvolver a oralidade e as aproxima da leitura. A estrutura de repetição, acumulativa ou não, torna mais fáceis a leitura e a compreensão da história, bem como possibilita a recuperação de sua estrutura narrativa e de suas formas linguísticas. Em si, a memorização de parte ou de toda a história, facilita o reconto, a pseudoleitura, práticas interessantes de apropriação da língua escrita e da leitura.

Por lançarem mão de um recurso muito interessante para a compreensão e a memorização do texto, livros com histórias com repetição e com acumulação favorecem a leitura interativa – as crianças ajudando a enunciar o texto em trechos que se repetem – e a leitura autônoma (pseudoleitura) pelas crianças, pois elas podem experimentar modos de ler um texto, com apoio da memorização e nas ilustrações, antes mesmo de dominar a leitura.

Como já dito, as situações de leitura interativa, participativa, convidam a criança a assumir o papel de leitora antes de saber ler com autonomia. Quando o enredo é mais elaborado, elas podem assumir esse papel em determinados trechos, que trazem a repetição e acumulação, enquanto o professor lê as outras passagens.

Na leitura autônoma, além de enunciar o enredo do jeito que lembram, elas expressam procedimentos de leitura que aprenderam observando quando leem para ela, a exemplo da entonação, o passar das páginas, o tipo de linguagem do gênero ou do texto específico, a varredura do texto pelo olhar da esquerda para a direita, dentre outros procedimentos de leitura. A leitura de livros para e com as crianças ou por elas próprias são situações muito importantes de aprendizagem de procedimentos e comportamentos leitores, de colocar-se como leitor.

Além da leitura compartilhada ou interativa e da contação, a estrutura repetitiva e acumulativa se presta bem também a propostas como coro falado e encenação, animando leituras coletivas.

Recontar a história, por sua vez, preservando suas características, a sequência e o enredo, é uma atividade igualmente muito produtiva de organização textual, de compreensão leitora, de aprendizado das características do discurso escrito (ainda que trazendo marcas de oralidade). O reconto, assim como a pseudoleitura, que são importantes situações de apropriação da leitura, são possíveis graças ao apoio na memorização da história, sua sequência, sua estrutura. No caso dos livros, apoio também nas ilustrações.

Materiais para apoiar o reconto e refletir sobre a escrita

Além das próprias ilustrações dos livros, alguns materiais podem ser criados para ajudar na recuperação da sequência da história, permitindo às crianças a recontarem ou se arriscarem a ler mesmo que ainda não o façam de modo convencional. Fichas com as figuras ou com nomes dos personagens e/ou ações, objetos e outros elementos próprios a cada história podem servir como apoio à recuperação dos personagens e ações sucessivas encadeadas. Como nas histórias acumulativas é frequente ter vários personagens que vão se sucedendo uns aos outros, com ações que vão se encadeando, para apoiar a recuperação da história e seu reconto, esses recursos são muito úteis, como venho ressaltando nos posts das várias caixinhas de livros.

As crianças podem, com ou sem a ajuda do professor, a partir do reconhecimento dos personagens representados nas ilustrações das fichas ou mesmo escritos, ordená-las na sequência de entrada dos personagens na trama e, depois disso, tentar recuperar o texto, de forma aproximada. Aos que ainda não têm recursos para tentar reconhecer as palavras das fichas por estratégias diversas, podem ser dadas as fichas com as ilustrações. Mas para os que já podem tentar reconhecer as palavras ou parte de palavras, através de estratégias diversas e do conhecimento que têm de letras e relações entre letras e sons, ainda que este seja um enorme desafio, terão uma boa tarefa de reflexão pela frente para conseguir montar a sequência dos personagens para, então, fazer o reconto, apoiar a recuperação do enredo.

Como venho insistindo em vários posts, a atividade de reconto - reconto oral ou reconto para produzir uma reescrita - são oportunidades muito interessantes de usar as palavras para apoiar essa reconstituição, em uma atividade que é a um só tempo de letramento e de reconhecimento de palavras, de reflexão sobre o sistema de escrita, já que exige que as crianças façam relações para descobrir onde está escrito o quê, usando seus conhecimentos sobre a escrita.

Mas além de apoiar o reconto, os nomes dos personagens escritos podem servir para várias atividades de reflexão sobre a língua escrita, nas quais está em jogo pensar nas relações entre a pauta sonora e gráfica. As fichas com figuras podem ser associadas, pelas crianças, às fichas de palavras, ou podem ser usadas para se jogar como jogo da memória, baralho, sempre emparelhando, associando, a ficha da figura com a ficha do nome correspondente. Além disso, pode-se propor a montagem desses nomes com letras móveis, com ou sem o apoio de fichas “faltando letras”, constituindo-se, nesse caso, em atividade de escrita, não de leitura. 

Estas são atividades que exigem pesquisa inteligente, uso de estratégias, comparação de pedaços das palavras com outras, já conhecidas, como os nomes próprios das crianças da sala, por exemplo. No reconhecimento de palavras está em jogo tanto a leitura mais global das palavras, que favorece a ampliação do repertório de modelos estáveis de escrita convencional, quanto a ativação de estratégias de leitura por parte das crianças, exigindo que usem o conhecimento que têm disponível sobre letras e sons, partes de palavras, para resolver o que ainda não sabem com autonomia. As letras finais e inicias das palavras, a presença de algumas vogais ou mesmo consoantes, o tamanho das palavras, uma sílaba que é reconhecida, comparada a um nome próprio, tudo isso pode constituir em elementos para as reflexões das crianças.

No material abaixo vocês podem observar essas fichas. Os personagens foram desenhados tendo por base as ilustrações do livro.



Esse material, como vocês podem observar, foi desenhado por crianças. Então, essa foi um ideia que tive e que Ana desenvolveu em sua turma, a partir da história Ah, Cambaxirra, se eu pudesse... Falando com ela sobre desenvolver um kit de materiais a partir de histórias acumulativas, sugeri que as próprias crianças fizessem o desenho dos personagens. Eu sempre quis ter um material ilustrado pelas crianças e sugiro isso sempre aos professores que confeccionam seus materiais nas oficinas. Ana gostou da ideia e fez um trabalho muito bacana com a turma dela de 1º ano. Esse é o material que aparece nas fotos com as crianças. Na foto acima aparecem fichas do kit que fiz para Joaquim, a partir dos desenhos das crianças de Ana.

Para seus alunos, que, em sua maioria, já sabiam ler, o mais gostoso e produtivo foi mesmo toda a preparação do material. Mas é Ana mesma quem conta sobre esse processo, em um texto que pode ser lido aqui


Assim como o nome dos personagens, outras palavras e expressões que marcam o texto – como as suas ações, seus qualificativos, caso haja isso no texto, os objetos que carregam, quando é o caso – podem ser escritas em outras fichas para ajudar a reconstituição da história, a recuperação de sua sequência, e também serem usados em jogos de emparelhamento.

As três fichas do kit
A história Ah, Cambaxirra se eu pudesse... inspirou o grupo de Ana a criar um outro conjunto de fichas, dessa vez com elementos definidores de cada personagem, que foram selecionados para facilitar o reconhecimento dos desenhos. Nesse caso, esses elementos não estavam na história, no texto, mas foi um recurso usado para facilitar a caracterização de cada personagem, alguns dos quais são muito parecidos: lenhador, capataz, barão, duque, marquês, conde, visconde, imperador...caracterizados pelos seguintes elementos: camiseta, camisa, blusa com babados, capa, casaco, túnica, chapéu, coroa.

Assim, surgiram também as fichas com esses marcadores escritos, criando-se, assim, a possibilidade de associar as fichas com os personagens desenhados, as fichas com seus nomes escritos e as fichas com esses marcadores. Um jogo de trinca!

Em outras histórias, aparecem já no texto elementos que podem compor fichas do kit. Há contos em que cada personagem carrega um objeto ou cada personagem faz uma ação. Esses objetos e ações podem também compor conjuntos de fichas, tanto para favorecer a reconstituição do texto pelas crianças, as sequências, o que vai com o quê ou faz que ação, quanto para serem associadas entre si: cada imagem do personagem associado ao seu nome, ao seu objeto ou ação, e assim por diante. Quando há ações ou qualificativos associados a cada personagem, novas palavras podem, assim, surgir no kit de materiais. No conto o Macaco e o rabo, por exemplo, podem ter fichas com o desenho e outras com a palavra leite, capim, sapatos, cerdas, e assim por diante...

Outra coisa interessante é quando na história enumerativa há, de fato, números – por vezes há, como em “O nabo gigante” e “E o dente ainda doía”, dentre outros – os algarismos (5) e os numerais escritos (cinco) podem também compor o kit, em fichas escritas. Na coleção de livros com histórias acumulativas de Ana Maria Machado (mostrada no post anterior, sobre o tema), tem duas histórias enumerativas: “O domador de monstros” e “Uma boa cantoria”.

Memória nome-figura
Em kits de materiais desse tipo, as fichas com os nomes dos personagens e de outros elementos da história podem ser usadas para outras tantas atividades, como fazer comparações de palavras, apoiar a escrita, compor trem de nomes, preguicinha, dentre outras propostas. Enfim, as possibilidades são inúmeras. Cada história se presta a diferentes propostas, cada uma pode constituir um kit diferente, com propostas e materiais semelhantes e outros bem peculiares àquela história específica. Nesse kit da Cambaxirra, Ana trabalhou com três tipos de ficha, que podem ser associadas duas a duas ou em trios.

Interessante também é quando há, no conto, situações que, ao final, se invertem, pois novas reorganizações da ordem das palavras – ou mesmo novas palavras para o kit – podem ser propostas. Por exemplo, na "Casa Sonolenta", bem como na história "A Velhinha Maluquete" e no "Por que o caranguejo não tem cabeça", “A história da coca”, dentre outras, a ordem, ao final é invertida. Os dorminhocos que se acumulam na cama aconchegante da casa sonolenta começam a acordar, de um em um, invertendo-se a ordem, com novas ações dos personagens. Quem dormia leva um susto, e vai acordando: a pulga acordada pica a rato, que assusta o gato, que arranha o cachorro, que cai no menino, que dá susto na avó, que quebra a cama...  

Em termos de apropriação do sistema alfabético, além de toda a reflexão que a tentativa de reconhecimento de palavras põe em jogo, vale ressaltar ainda que histórias com palavras, frases e trechos repetidos e acumulados favorecem a observação de aspectos qualitativos e quantitativos da escrita, de algumas regularidades da organização da escrita que, embora óbvias para um leitor proficiente não o é para os que ainda não leem com autonomia. Como exemplo, podemos citar a relação entre a quantidade de ações que vão se acumulando e a quantidade de texto escrito (na “Casa Sonolenta”, o texto vai aumentando a cada personagem que se deita na cama, uns por cima dos outros); a observação do que muda e do que permanece em enunciados que se repetem (repete-se a frase, mas muda-se o personagem, por exemplo, como em “Bruxa, Bruxa”, dentre outros); que palavras iguais escrevem-se da mesma maneira, com a mesma sequência de letras; que há espaços entre as palavras e a própria ideia do que é palavra; que tudo o que se diz ao ler está escrito e na mesma ordem que se enuncia, dentre outros aspectos.

Assim, por meio de textos desse tipo, é possível estruturar atividades que permitam diversas ordens de apropriações e a construção de diferentes conhecimentos ligados à oralidade, à escrita e à leitura, tanto no sentido amplo do letramento, quanto na alfabetização propriamente dita. Além disso, não podemos perder de vista o aspecto de brincadeira que esses textos trazem. Brincadeiras com a linguagem...

Jogar com as palavras que povoam as histórias pode ampliar a leitura ou matá-la, tudo depende de como se faz... e, por isso, nessas propostas, é fundamental não perder nunca de vista os aspectos literário e lúdico, centro de toda a potência da leitura literária...

Aliás, por falar em brincar, quem não se lembra daquela brincadeira acumulativa que é “Fui à feira e comprei...”. Cada um vai dizendo uma coisa que comprou e o jogador seguinte deve repetir a dos jogadores anteriores e acrescentar a sua compra...e assim por diante... Se colocarmos um critério sonoro nessa brincadeira, a exemplo de outra brincadeira parecida que é a “Lá vai a barca carregadinha de...”, podemos então fazer uma feira de rimas, como por exemplo: “Fui à feira e comprei pão”... “Fui à feira e comprei pão e feijão...”...”Fui à feira e comprei pão, feijão e agrião”... Ou uma feira de sons iniciais... E assim, essa brincadeira acumulativa já se constitui em uma ótima atividade de reflexão fonológica. A “Lá vai a barca carregadinha de...” já é em si fonológica, na medida que o objetivo é, justamente, levar na barquinha palavras que tenham alguma semelhança fonológica (rimas, sílaba inicial, fonema inicial etc) com as ditas anteriormente, cada um dizendo uma, completando a barca: “Lá vai a barca carregadinha chaves, xales, xícaras, chuchu, chuva, cheiro, chaveiros, chiclete...”

Bom, para finalizar, por ora, adianto que estamos pensando em fazer uma série de kits de histórias acumulativas, com textos e materiais, iniciada com o “Ah, Cambaxirra se eu pudesse...”. Não sei se formarão kits diversos ou se depois juntaremos em um grande kit acumulativo. E quero investir mais – através de minhas parceiras, já que não estou em sala de aula - nas fichas com as próprias ilustrações das crianças, a partir dos contos acumulativos lidos e trabalhados. Vamos ver, aos poucos, o que sai.

Como alguns de vocês sabem – através das oficinas e aqui no blog – esse tipo de história repetitiva e acumulativa faz tempo está no meu repertório de materiais para alfabetização a partir da literatura e da tradição oral. Com o Projeto Trilhas, essa paixão antiga foi renovada, pois dois dos cadernos do projeto referem-se a isso, o Caderno das Histórias com Repetição e o Caderno das Histórias com Acumulação. Os dois cadernos, que estão na biblioteca do Portal, trazem algumas propostas de atividades a partir desses gêneros. É só acessar: 


As propostas desse post e as dicas de livros do post anterior sobre histórias acumulativas podem perfeitamente se articular com as propostas do Trilhas, para as escolas que estão desenvolvendo o projeto. É uma dica!

É isso, gente. Logo mais continuo esse post com outros relacionados a ele: o dos Tangolomangos, que já está quase pronto, e um que já prometi há tempos, da Caixinha do livro A Casa Sonolenta, já bem antiga no meu acervo. Tão antiga que até pensei que já tinha feito o post. Rsrsrs!!! Mas as fotos vocês já viram, para que não a conhece ao vivo e a cores, né?

E no mais, aos poucos, vou mostrando outras caixinhas de livros do kit de acumulativos que, com certeza, chegarão...

Não se esqueçam de dar uma olhada no texto de Ana Antunes, com mais notícias de como ela desenvolveu o trabalho com essa história em sua turma esse ano e a confecção do kit com a participação ativa das crianças! Tem mais fotos do material lá, e ótimas dicas! O link é aqui: clique

Aproveito para agradecer, mais uma vez, a Ana, por essa parceria. Valeu, Aninha!!!

Abraços,
Lica

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Ceci n'est pas une pipe...

Gente,
Conforme prometi no post sobre livros ilustrados, que vocês podem conferir neste link, aqui, apresento outro livro, muito legal, que traz charadas visuais bem interessantes. E é lindo visualmente! Trata-se do livro OH!, de Josse Goffin, da Martins Fontes. Vocês podem conferir mais sobre o autor em seu site.

A relação entre imagem, palavras e coisas é um tema complexo. Muitos discutem sobre isso e alguns pintaram isso. É o caso do pintor belga surrealista René Magritte (1898-1967), que pintou um quadro de um cachimbo e, embaixo, escreveu uma legenda dizendo Ceci n’est pas une pipe, que quer dizer: Isto não é um cachimbo.


Olhando o quadro de Magritte, sem entender o francês, podemos de início concluir que estamos diante de um cachimbo. E se entendemos francês, podemos, a primeira vista, achar contraditório.  Mas é só aparentemente contraditório; o artista queria, na verdade, nos fazer pensar. De fato, não é um cachimbo, logo percebemos que se trata de uma representação artística de um cachimbo, um signo icônico – uma pintura de um cachimbo, mas não um cachimbo, que se possa efetivamente fumar. E o quadro é de uma série que se chama, justamente, A traição das imagens (1928).

A aparente contradição entre imagem e texto vem da associação imediata que fazemos mentalmente entre a imagem, a palavra e o significado. Isso é tão imediato que nós realmente tomamos as imagens (e até palavras) como as coisas que representam. Só após um momento de reflexão, nos damos conta de que, de fato, a imagem não é a coisa, a pintura não é o objeto cachimbo, mas a representação dele através de uma imagem.

E Magritte mostra isso de uma forma muito interessante e inteligente! Um dos fascínios da obra desse autor está na abordagem da interação entre o objeto e a sua representação e, nesse sentido, esse é seu quadro mais representativo e famoso. A obra se presta a uma excelente reflexão sobre o papel da arte e sobre a representação.

Em um livro no qual o filósofo Michel Foucault dialoga com o quadro de Magritte, encontra-se uma fala do próprio pintor sobre isso: “O famoso cachimbo... Como fui censurado por isso! E, entretanto... Vocês podem encher de fumo o meu cachimbo? Não, não é mesmo? Ele é apenas uma representação. Portanto, se eu tivesse escrito sob meu quadro: “Isto é um cachimbo”, eu teria mentido.”

E tem mais... o que vemos aqui não é nem a pintura, mas a foto da pintura...são camadas e camadas representativas...  

E o que quer dizer quando afirma-se que é uma representação? Ora, uma foto de uma casa, um quadro com uma casa pintada e a palavra “casa”, por exemplo, não trazem uma casa real, são diferentes planos de representação. Com a imagem, ainda mais a fotografia, temos uma casa específica, mas representada. Uma foto pode ser da minha casa, por exemplo, mas não posso abrir sua porta e morar lá dentro. Uma pintura pode representar uma casa sem que aquela casa de fato exista, e pode representá-la de modo realista, naturalista, bem reconhecível, ou pode representá-la de modo mais abstrato, como nunca seria uma casa real. 

A palavra “Casa”, por sua vez, traz um significado conceitual, não necessariamente uma casa específica. A palavra vai servir para nos referir a uma casa específica ou a qualquer e toda casa. É um conceito. Isso tudo diz respeito ao signo e aos diferentes modos de os signos representarem. A imagem pintada é um ícone, guarda alguma semelhança com o que representa, a palavra é algo convencional, não tem essa semelhança, é um símbolo. 

Mas a imagem pode também ser menos naturalista, como por exemplo, o cachimbo no quadro de Georges Braque, pintor cubista francês (1882-1963).

Braque estava mais preocupado em, justamente, desmontar o sistema de representação naturalista, cutucando a noção de perspectiva linear, cultivada por séculos na pintura. O resultado é um cachimbo meio retorcido, quase sem volume. É ainda a representação de um cachimbo, podemos reconhecê-lo, mas, em comparação com o cachimbo de Magritte, trata-se de um signo menos semelhante ao objeto que representa...

As crianças pequenas, aos poucos, vão dando conta desse mundo de representações, das abstrações, percebendo que uma imagem não é a coisa, e as ilustrações de livros de literatura infantil são bons referenciais para essas observações. Depois, vão aprendendo também a natureza representativa das palavras. A linguagem constitui um sistema de signos abstratos, convencionais, seja acústico (linguagem falada), seja gráfico (linguagem escrita). E assim vão elas, entrando no mundo da representação, dos signos, dos conceitos, das interpretações. Além disso, aprende-se também que uma única e mesma imagem pode representar realidades diferentes e ser significada diferentemente por cada pessoa. As imagens de uma casa, de certo animal, de um objeto, por exemplo, podem sugerir conotações diversas, para cada cultura, para cada um. E depois, o mesmo com as palavras... 

Bom, esses temas – sobre signo, representação e sobre a construção do símbolo pela criança - são muito vastos e complexos, muito mesmo. Mas eu os trouxe aqui, bem en pasant, só para mostrar um livro que brinca com essa ideia da representação, de ser e não ser, de ser outra coisa diferente do que parece ser. Charadas visuais interessantes para as crianças de todas as idades... 

A referência ao famoso quadro de Margritte, e à discussão que ele traz, aparece já em uma das ilustrações do livro OH!... O que será que o cachimbo vai revelar ser, no final das contas? Tcham, tcham, tcham, tcham...



Além do cachimbo nem ser cachimbo, mas um desenho do cachimbo, tem mais! O cachimbo  aí, é, na verdade, um gato! Ou evoca um gato, transforma-se nele... Trapaça instigante das imagens. Vamos beber um navio e navegar nas águas da xícara?




É isso, gente! Mais um livro inteligente, que brinca com nossas percepções e que pode ser bem interessante para as crianças, pequenas e maiores, com os diferentes desafios que pode oferecer a cada faixa etária.
Beijos,
Lica