Uni, duni, tê, salamê, minguê...

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Materiais a partir de textos da tradição oral

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Desembolorando palavras...

Olá, minha gente!
Finalmente volto timidamente a postar umas coisinhas por aqui. Andei muito ocupada, mas vamos lá, retomando, aos poucos. Quero voltar os posts dando uma dica de livros e, ao mesmo tempo, oferecendo outra sobre o trabalho da, com e sobre a linguagem.Trata-se de uma coleção de três livros, de autoria de Renata Bueno, com ilustrações de Sinval Medina, da Editora do Brasil. A coleção chama-se “Não é a mesma coisa?”, e os três livros são Tubarão toca tuba, Manga madura não se costura e Cachorro tem dia de cão.

Podem ver sobre a coleção no site da autora, aqui

São livros que propõem jogos de linguagem que desemboloram as palavras, brincando com elas, vendo-as de jeitos diferentes. Como diz a própria autora: A coleção “brinca com as palavras e expressões combinadas e reconstruídas, mostrando outras formas de ver, perceber e sentir o universo de nossa língua”.

Brincando com a língua, os três livros trazem breves textos poéticos que brincam ora com a ordem das palavras, ora com sua composição por outras palavras, ora com os significados diferentes de uma mesma palavra. Favorecem, assim, uma rica reflexão sobre a língua, ao mesmo tempo em que oferecem a poesia da linguagem.

O livro TUBARÃO TOCA TUBA traz palavras dentro de uma palavra, ou palavras formadas por duas outras, como a palavra “soldado”, que é formada pelas palavras “sol” e “dado”. Nem sempre se trata de dois substantivos, então podemos encontrar coisas interessantes como “uma claraboia” e “a clara boia”.


Por vezes é assim, essa justaposição “sol” + “dado”, por outras um encaixe, como “tuba” e “barão”, em “tubarão”, um verdadeiro mot-valise. Tem também o brincar pareado com a decomposição de palavras compostas, como “guarda” e “chuva” em “guarda-chuva” e, ainda, outros modos de associação, como a de palavras como “palhaço”, na qual ressoa a expressão “palha de aço”.


Além dessas brincadeiras com a decomposição das palavras, que são, em si mesmas, muito interessantes para a reflexão dos que se iniciam na alfabetização, tem os textos poéticos que brotam dessas brincadeiras, geralmente pareando as duas ideias – ou seja, o soldado, por um lado e o dado e o sol, por outro. Histórias também podem brotar!


Esse tipo de procedimento de linguagem está presente também em outros livros. Cito aqui o ACHEI! de Ângela Lago, que traz também brincadeiras de esconde-esconde das palavras dentro de outras, além de outras descobertas trocando letras de lugar! Brinca com coisas assim: “Boia, jiboia! Quero ver quem acha joia”, “Briga de lombriga me dá dor de barriga”...

Ao falarmos desse procedimento de encontrar palavras dentro de palavras, vale lembrar aqui dos jogos de linguagem do TRILHAS e do PNAIC, que trazem esse tipo de proposta. São dois jogos semelhantes nesse sentido, o Nomes Escondidos e o Palavra Dentro de Palavra.  Em ambos trata-se de parear cartas em que há uma palavra dentro da outra... Trata-se de um desafio de consciência fonológica.

No jogo do PNAIC aparecem figuras com as palavras correspondentes escritas (ex. Luva), e outra carta, que é par desta, apenas com a figura (ex. uva), que está dentro da outra. Nesse caso, o jogo favorece a reflexão fonológica tanto em presença da escrita (a palavra completa, onde você deve encontrar a palavra inserida), quanto em ausência da escrita (dá para fazer apenas referindo-se ao significante sonoro de ambas).


No jogo do Trilhas, por sua vez, as duas cartas contêm a palavra escrita. Ex. Uma carta tem a figura de um fivela, acompanhada da palavra escrita, e a outra a figura de uma vela, também acompanhada da escrita da palavra. 

Note-se que o mesmo tipo de jogo pode ser jogado sem as palavras escritas, apenas com as figuras, em um desafio fonológico sem presença da escrita. Todas essas possibilidades são interessantes e favorecem a reflexão fonológica, a atenção à dimensão sonora da língua - importante para a alfabetização. 

Vale fazer aqui uma digressão para lembrar que essa coisa de palavra dentro de palavra ou pedaço de palavra dentro de palavra nos remete a um procedimento que esteve bem presente também na história da escrita, com o REBUS, que unia pictografia com informação fonológica. Trata-se de um procedimento usado inicialmente pelos sumérios e logo pelos egípcios, na passagem da escrita pictográfica e ideográfica para a fonética.  

A escrita cuneiforme suméria e a escrita hieroglífica dos egípcios, que usavam inicialmente pictogramas para representar objetos concretos através de sua imagem, num certo momento da história, passaram a utilizar signos para representar ideias abstratas. Como não era possível representar ideias abstratas com pictogramas, pela própria natureza desse tipo de signo, para fazer isso, essas escritas passaram a empregar duas estratégias, basicamente.


Inicialmente os signos pictográficos que eram usados para designar coisas concretas, como ovo e pássaro, usados juntos, lado a lado, passaram a significar fecundidade, já com algum grau de convenção.

Os símbolos passaram, depois, a corresponder aos sons das palavras da língua falada. Essa outra estratégia era, então, o REBUS.

O princípio do rebus consistia em decompor as palavras em sons e representar cada som por uma imagem. Como diz o professor Claudemir Belintane, se por um lado o rebus é composto de imagens, por outro, ele se dá a ler como som, ele se compõe de sinais com valores fonéticos usados juntos para formar uma nova palavra. Um pictograma designava, assim, não mais o objeto por ele representado, mas outro objeto cujo nome ou partes dele lhe era foneticamente semelhante.

O melhor exemplo que pode ser dado é, justamente, o da palavra “soldado”, que poderia ser representada da seguinte maneira:


A palavra aí não tem nada a ver com a imagem do sol e do dado (como no pictograma), e tampouco tem a ver com a ideia de sol e dado (como no ideograma). A palavra faz uso apenas da mesma sequência sonora que aparece nas palavras “sol” e “dado”. Ao dissociar o som e o significado das palavras de origem – o que constitui o princípio básico dos sistemas fonéticos, quer silábicos quer alfabéticos – o rebus, embora se constitua como uma escrita icônica, não é pictográfica nem ideográfica, mas fonográfica. É uma espécie de pictograma em que o signo representa o som, como se fosse um fonograma.

Assim, embora não seja ainda um sistema fonográfico que associa signos arbitrários a fonemas, é fonético, usa ícones de objetos que existem no mundo (pictogramas) não por seus valores semânticos, mas para evocar o nome, o significante, a pauta sonora de uma terceira palavra.


No caso do exemplo com “soldado”, usou-se as palavras inteiras, mas o rebus pode ser formado também da pauta sonora de partes de outras palavras representadas iconicamente. Digamos que pudéssemos escrever chuva juntando CHU de “chupeta” e VA de “vaso”:

O rebus foi, ao longo da história, aos poucos dando lugar a uma escrita mais analítica, até os sistemas convencionais e fonéticos – sejam silábicos ou alfabéticos. Entretanto, podemos notar que é um recurso ainda usado em cartas enigmáticas, presente em jornais, livros de crianças, revistas, como um passatempo. Muitas vezes, nessas cartas, já se usa o princípio alfabético, pois as palavras são formadas somando-se ou subtraindo-se letras da palavra original representada pela figura. Mas encontramos também, algumas vezes, o recurso do rebus nesse contexto.

E mais, o princípio do rebus é muito interessante para pensar sobre a língua, em suas composições e recomposições de palavras e partes de palavras, e brincar com a linguagem, aprendendo mais e mais sobre ela. Um recurso interessante para a alfabetização, como ressalta Belintane.

Bom, gente, feita essa digressão na história, que serve para nos lembrar que brincar de decompor e recompor palavras é um recurso que, com o uso de imagens, está na longa história da nossa escrita, voltemos aos livros da coleção “Não é a mesma coisa?”. Mas agora já bem lembrados que sol + dado pode não ser nem sol nem dado, mas soldado! Não é a mesma coisa!!! 

Vamos, então ao outro livro da coleção. 

No MANGA MADURA NÃO SE COSTURA, a brincadeira é com a polissemia das palavras, os sentidos diversos que uma mesma palavra pode ter, combinado e reconstruindo expressões, a partir da mistura desses diferentes significados: o próprio título já diz: "manga madura não se costura?", misturando manga de mangueira e manga de camisa... No geral, são palavras homônimas, que se pronunciam e se escrevem do mesmo jeito, mas com sentidos diferentes, como “macaco” que aparece como o mamífero primata e como ferramenta de consertar pneu de carro, galo que canta e galo de pancada na cabeça... 


A polissemia, que é a propriedade que uma mesma palavra tem de apresentar vários significados, é motor do dinamismo da língua permitindo que uma mesma palavra possa assumir distintos significados, de acordo com o contexto em que se encontra inserida. Se formos ao dicionário, verificamos que há muitas e muitas palavras que são polissêmicas, mas algumas, em especial, têm significados bem distintos, que se prestam bem ao brincar, à poesia... Vejam alguns exemplos usados no livro:



Por vezes as palavras têm mesmo, originalmente, significados diferentes, por vezes têm significados denotativos, literais, e outros, figurados, conotativos. E por vezes, essas conotações têm caminhos especiais de aparecer na língua. A linguagem se oferta a invenções e criações diversas...e à brincadeira... E o poeta é o artesão que não apenas desembolora as palavras por usá-las de modo inusitado, como também joga, justamente, com essa multiplicidade de sentidos, fazendo disso matéria prima para suas criações. Inclusive as palavras emboloradas, metáforas gastas...

Assim, é interessante destacar que, muitas vezes, as palavras têm um sentido que revela o uso de uma figura de linguagem chamada catacrese, que é uma espécie de metáfora que se cristalizou pelo uso. Usamos, por exemplo, "pé da mesa", “braço de mar”, “olho do furacão”, tomando de empréstimo as palavras “pé”, “braço” e “olho”, usando-as fora do seu sentido habitual. Muito frequentemente, essa transposição tem relação com uma vaga semelhança entre um conceito e outro. A catacrese é uma espécie de metáfora esquecida... e o poeta a retoma para nos relembrar, nesse jogo de brincar com a polissemia das palavras.

Aliás, vou fazer um post sobre a catacrese em breve!

Bom, gente, o livro traz palavras homônimas brincando de polissemia, de catacrese, mas, além disso, podemos lembrar, igualmente, que brincar com palavras homógrafas e homófonas também pode ser outra festa, não é?  

E assim, vamos ao terceiro livro da coleção "Não é a mesma coisa". É o CACHORRO TEM DIA DE CÃO. Neste, a brincadeira é com a ordem das palavras, criando expressões inusitadas, malucas...

Esse livro é bem maluquinho! A autora brinca de inverter as frases e criar situações engraçadas e inusitadas a partir disso. Na inversão, geralmente desembolora termos e expressões comuns, como o comum pé de pato (olha aí o pé de novo!!!), que vira pato de pé!!! Brincadeira que pode seguir com outros termos, outros tantos textos que podem ser ciados, outras tantas brincadeiras que podem ser inventadas!

Leite de vaca todo mundo toma, mas como será uma vaca de leite? 
Mosca na sopa, ninguém quer, mas todo mundo sabe o que é. Mas como será a sopa na mosca?

Sem esquecer que para cada brincadeira dessa, nasce um textinho poético, que faz toda a graça na brincadeira, dando corpo a ela.


Como diz o título da coleção, “Não é a mesma coisa”, de fato... aqui, ali e acolá, todas essas transformações que torcem as palavras, dão polimentos a elas, estica-as, apresentam outra coisa, não a mesma – são palavras e expressões de cara nova!

Isso tudo para mostrar que por trás de livros singelos de poesia e de jogos de linguagem, há muitas coisas riquíssimas da língua a aprender, a observar, a explorar. Não para ensinar sistematicamente esses recursos às crianças, mas para brincar com eles de um modo mais ampliado e diversificado.

Confundir e desconfundir palavras que têm mais de um significado apesar de iguais, desmontar palavras, sua composição, e brincar de inverter a ordem das palavras em expressões pode ser muito engraçado e divertido... é isso que a Coleção “Não é a mesma coisa?” propõe.

E com esse último livro, deixo o convite:
Vamos brincar!?
Lica

BELINTANE, Claudemir. "Matrizes e Matizes do oral". Revista Doxa – Revista Paulista de Psicologia e Educação, Vol 9: Araquara: SP, 2005 (pp.23-45).
BELINTANE, Claudemir. Abordagem da oralidade e da escrita na escola a partir da tessitura interdisciplinar entre a psicanálise e a lingüística. In Proceedings of the 6th Psicanálise, Educação e Transmissão, 2006 [online]. 


18 comentários:

  1. Excelente!!! Amei as sugestões e já aceitei o convite para a deliciosa brincadeira!!!

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  2. Excelente!!! Amei as sugestões e já aceitei o convite para a deliciosa brincadeira!!!

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  3. Que bom, Vera!!!
    Fico feliz de tê-la por perto.
    Beijos,
    Lica

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  4. Que maravilha! Adorei as sugestões dos livros. Como nossa língua é interessante e trabalhar de forma lúdica com esses textos é proporcionar alegria para nossas crianças. Obrigada pelos conhecimentos, Lica!

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  5. "O livro dos chás" dela é muito legal.

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  6. Aprender pela via da brincadeira é tudo! É vida potente, mais do que mero recurso motivador!
    Estou cada vez mais convencida disso!
    BJos
    Lica

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  7. affff...amei!!!ser mãe não é fácil...e suas dicas são perfeitas para o acompanhamento em casa!!!

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  8. Que bom, Ana! Faça bom proveito!
    Abraço,
    Lica

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  9. Idéias como estas devem ser preservadas. Toda brincadeira e válida,mas brincar com as palavras e interessante. Com JOSEMAR podemos brincar com as palavra Jose/Mar/Ema/Ar

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  10. Professora Liane esse comentário e do aluno Josemar Muniz muito obrigado e porque eu usei a conta de Madeleine

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  11. Hahahaha, adorei você brincando com as palavras dentro do seu nome, Josemar!!!
    Mas veja que, indo além da recomposição de sílabas nessa proposta de palavra dentro do nome, e embaralhando as letras, podemos achar ainda outras palavras dentro do seu nome: rema, Roma, amor, raso, maré, soar, soja, rosa...e com certeza, muitas outras!

    o nome dá muitas brincadeiras, de fato!

    OLha, se quiser comentar você mesmo, basta clicar em "comentar como" e selecionar o perfil "Anônimo" - assim você não depende da conta de outra pessoa, viu?
    Só precisa lembrar de se identificar...
    Abraço,
    Liane

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  12. Excelente ideia! Inclusive já costumo realizar tarefas desse tipo. Brincar com as palavras é muito interessante e estimula os alunos deixando mais estimulados a aprender. Rosania Muniz Jeremoabo

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  13. Com certeza, Rosânia!
    Mas além de favorecerem o engajamento das crianças pelo o prazer de brincar, além do interesse dessas situações por favorecerem a motivação para a aprendizagem, elas são também muito produtivas para a reflexão sobre as palavras, sobre o sistema de notação alfabética.
    Que bo mque podemos unir o útil ao agradável, como se diz, não é?
    Abç
    Liane

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    1. Muito interessante, brincando com as palavras, transmitindo o conteúdo através do brincar didatizado e de uma forma prazerosa. Métodos que concretiza a aprendizagem do educando.Muito bom, maravilhoso trabalhar assim, gostei muito das dicas professora Liane. Bjs, sua aluna: Eliene

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    2. Que bom, Eliene!
      Faça bom proveito!
      A função pedagógica e a função lúdica não precisam se opor!
      É isso mesmo!
      Abraços,
      Liane

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  14. Eliene... alunas eu tenho muitas...inclusive Elienes...
    ...preciso saber se é de jeremoabo, tá?
    Liane

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    1. O comentário acima foi meu,Eliene de Jeremoabo

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