Uni, duni, tê, salamê, minguê...

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Materiais a partir de textos da tradição oral

quinta-feira, 11 de junho de 2015

E a catacrese?

Oi, gente!
Fiz dois posts comentando sobre a catacrese, figura de linguagem muito usada na nossa língua cotidiana. Por isso, senti necessidade de fazer um post dedicado a ela. 

O primeiro post em que a citei, foi aqui. E o segundo foi esse anterior, aqui, ontem mesmo.

Como comentei lá no post anterior, muitas vezes, as palavras têm um sentido que revela o uso de uma figura de linguagem chamada catacrese, que é uma espécie de metáfora que se cristalizou pelo uso. Quando usamos, por exemplo, "pé da mesa", “braço de mar”, “olho do furacão”, tomando de empréstimo as palavras “pé”, “braço” e “olho”, usando-as fora do seu sentido habitual, estamos fazendo uso da catacrese. Muito frequentemente, essa transposição tem relação com uma vaga semelhança entre um conceito e outro, como o pé da mesa ser algo que se remete, de algum modo, aos pés humanos. 

Expressões com pé são inúmeras! Aqui no blog tem um post com expressões com pé, vejam lá: aqui.

Haja partes de nosso corpo para virar catacrese! Mesmo em enunciados bem sérios, olha só: “Isso é a cara desse país”, “o desenvolvimento é corpo do trabalho acadêmico”... Quer ver como usamos muitas catacreses no nosso dia a dia? 

Pé de mesa, pé de página, braço de cadeira, batata da perna, orelha de livro, dente de alho, cabeça de alho, asa da xícara, fio de azeite, coração da floresta, maçã do rosto, coroa do abacaxi, casa de botão, boca da noite, céu da boca, cabeça de prego, raiz do problema, folha do livro, cabeça de repolho, olho do furacão, olho da rua, boca do túnel, banana de dinamite, cabelo de milho, pele de tomate, leito do rio, trânsito engarrafado, embarcar no avião...

Vejam o caso da expressão “embarcar no avião”. Originalmente usada para a entrada em um barco, hoje é utilizada para entrar em qualquer meio de transporte: avião, metrô, trem, ônibus... E engarrafar? Já pensou nisso?

A catacrese é uma espécie de metáfora esquecida...

A metáfora é um recurso fundamental da poesia...mas não é usada só em gêneros poéticos, lógico! Ela é uma das ferramentas essenciais para desembolorar as palavras, dar a elas novos usos, refrescá-las! Na metáfora há uma transferência da significação própria de uma palavra para outra significação, como uma comparação implícita que o autor faz, criativamente. 

Mas pense: se a metáfora é essa figura de linguagem que consiste em empregar uma palavra em um sentido que não lhe é comum ou próprio numa relação de semelhança entre os dois termos, então, a catacrese é uma espécie de metáfora!

Sim, mas é uma metáfora repetida, gasta, diferente da metáfora poética que desembolora as palavras – que é o ofício do poeta! É uma metáfora que foi usada por falta de uma palavra específica para designar um termo, havendo então um desvio de sentido. A catacrese ocorre quando, por falta de um termo específico ou melhor para designar um conceito, toma-se outro por empréstimo. Trata-se de termos inicialmente usados apenas para suprir uma lacuna de um termo específico para tal, mas que foram usados tantas vezes que seu uso se cristalizou, passando a constituírem expressões que têm significados bem próprios. Por isso é como uma metáfora esquecida... Esquecida de seu papel de uso inusitado, conotativo...

Tendo a metáfora como referência de figura de linguagem emblemática da poesia, uns dizem que a catacrese é uma metáfora “obrigatória”, imperativa. Usa-se a palavra fora de seu significado usual, mas, pelo uso, ela se impõe, e já não é percebida como se empregada em um sentido figurado – isso que é próprio da metáfora. Assim, a catacrese é metáfora por nascer do princípio da comparação, da similaridade; é esquecida por já não ter a força conotativa; e é "obrigatória" por ceder antes a um imperativo de uso do que a necessidades expressivas e intenções poéticas

Quando dizemos, então, que a catacrese é uma metáfora gasta, usada por falta de termo específico ou melhor, há aí um sentido negativo dessa figura de linguagem. Esse sentido negativo é reiterado pela própria origem do termo catacrese: a palavra vem do latim catachresis, que tem origem no grego katakhresis, que significa “mau uso” – e no caso aqui, mau uso das palavras! Guardemos essa ideia, mas para a desconstruirmos em seguida...

Entretanto...(e aqui vamos começar a desconstruir e nuançar um pouco essa ideia negativa...retirar a catacrese desse lugar de “mau uso”...) ...ela pode voltar à poesia... como podemos ver nos poemas de José Paulo Paes, Inutilidades, Atenção Detetive e Pura Verdade. São poemas que brincam, essencialmente, com as catacreses. Duas delas estão no post já citado acima - e estão aqui. Outra, aqui:

PURA VERDADE

Eu vi um ângulo obtuso
Ficar inteligente
E a boca da noite
Palitar os dentes.

Vi um braço de mar
Coçando o sovaco
E também dois tatus
Jogando buraco.

Eu vi um nó cego
Andando de bengala
E vi uma andorinha
Arrumando a mala.

Vi um pé de vento
Calçar as botinas
E o seu cavalo-motor
Sacudir as crinas.

Vi uma mosca entrando
Em boca fechada
E um beco sem saída
Que não tinha entrada.

É a pura verdade,
A mais nem um til,
E tudo aconteceu
Num primeiro de abril.

Além de seus usos poéticos possíveis, temos que lembrar que a língua e as figuras de linguagem não estão a serviço apenas da poesia, mas da língua, da língua de todo dia...

Por exemplo, é bom reparar que a catacrese tanto pode acontecer ocupando o lugar de uma palavra faltante (como em "embarcar no avião") quanto substituindo um termo exato ou técnico por um menos formal ("barriga da perna" em vez de panturrilha, "céu da boca" em vez de palato). Vê como a linguagem é danada e, no dia a dia dos falantes, vai ganhando asas?!

Então, precisamos não nos apegar ao sentido negativo dessa figura de linguagem.

Acontece que a catacrese, com seus neologismos semânticos, funciona, de todo modo, como um mecanismo de formação de novos sentidos para as palavras, de ampliação do léxico. Hoje usamos "encaixar" com o sentido de colocar algo em um espaço onde ele cabe perfeitamente, mas originalmente, encaixar significava colocar em caixas... Há assim também um enriquecimento da língua, de seu dinamismo, pelos usos “gastos de metáforas esquecidas”!

O que seriam os engarrafamentos se não houvesse a catacrese? E dos pés de galinha, que seriam só rugas como tantas outras... a língua precisa da catacrese... e mesmo a poesia a acolhe de volta! 
Vejam vocês: a catacrese não é matéria bruta para muitas brincadeiras com as palavras e para a poesia? Muitos autores não brincam, justamente, com as catacreses? Falamos de José Paulo Paes, mas ele não é o único.

Eva Furnari, mestra em brincar com as palavras, traz uma lista baseada em catacrese em seu livro “Listas Fabulosas”. É a lista da personagem Olfa, que brinca com essas inutilidades, entre o sentido real e a catacrese. Já postei sobre isso, também aqui.
Outro exemplo é a canção “Composição Estranha”, de Ronaldo Tapajós e Renato Rocha, que usa ao mesmo tempo metáforas e catacreses:


Usei a cara da lua
As asas do vento
Os braços do mar
O pé da montanha
Criei uma criatura
Um bicho, uma coisa
Um não-sei-que-lá
Composição estranha

O coração da floresta
Batia em seu peito
E a sua voz
Boca da noite
Para sua voz
Boca da noite
Para sua voz

Reparem que na primeira estrofe, nos versos 1 e 2, ocorre uma metáfora, pois há aí uma relação de similaridade novidadeira entre os termos "cara" e "lua" e os termos "asas" e "vento". Nos versos 3 e 4, apesar de pressupor o mesmo processo metafórico, as palavras "braços" e "pé" foram empregadas fora de seu contexto próprio a partir de outro recurso, a catacrese. No verso 1, 4 e 6 da segunda estrofe também ocorre a catacrese. 

Tem até cordel para explicar a catacrese! 


Catacrese
De falar de catacrese
chegou a vez afinal:
é palavra usada fora
de seu sentido real,
mas que, por falta dum termo
próprio, se torna usual. 

Uma cabeça de prego
eu encontrei na madeira;
Esse menino se senta
só no braço da cadeira;
Rasgou-se a manga da blusa
vou atrás de costureira.

Ontem na perna da mesa
uma topada levei;
Me tremi de medo quando
no avião embarquei;
Nessa sopa tão gostosa
um dente de alho botei.

É um cordel do livro "As figuras de linguagem na linguagem do cordel", de Janduhi Dantas, Editora Vozes. Já no livro "Crônicas da Norma: pequenas histórias gramaticais", de Blandina Franco e José Carlos Lollo, Ed. Callis, os autores explicam a catacrese assim:

" - Quebrei a catacrese!
Putz, não pode ser! Justo a catacrese? Ela era a minha menina dos olhos!
- Pois é...
- Mas você é desastrado mesmo! Semana passada quebrou o braço da cadeira, na outra o pé da mesa...
- Mas o pé da mesa quebrou porque você não martelou direito a cabeça do prego que prendia ele.
- Ah, então a culpa é minha! E a asa da xícara, você quebrou por quê?
- A asa da xícara eu quebrei porque o chá queimou o meu céu da boca!
E a catacrese? Quebrou por quê?
- A catacrese foi sem querer!  Você acha que eu ia quebrar a catacrese de propósito?
- De propósito não, porque você sabe que se fosse de propósito eu dava um soco na boca do seu estômago!
- Você não teria coragem!
- Teria sim! E quebrava a maçã do teu rosto!
- Duvido!
- Duvida? Eu ainda mordia a tua batata da perna!
- Ah, é? Então vem! Vem!

E os dois se engalfinharam e começaram a brigar e quebraram tudo o que ainda estava inteiro naquele lugar. Não sobrou nem um dente de alho, nem uma orelha de livro, nem uma boca de fogão ou de garrafa pra contar a história."

Acho que agora deu pra entender, né?
...e sigamos brincando com a linguagem...
Abraço,
Lica


P.S. Se não entendeu, precisa de mais um exercício. E se entendeu, mesmo assim, mostre que está sabido(a) em catacrese, marcando todas as que aí aparecem no texto acima.

5 comentários:

  1. Acho que a catacrese é a preguiça do homem em criar palavras. Rsrsrsrs

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  2. ....Ou a preguiça do homem em estudar o dicionário!
    Bjs,
    Ana

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  3. Rsrsrsrsrsrsrs!!!!!
    Que nada, Ana, a catacrese é que é arteira com a linguagem!!! Dá rasteira mesmo em palavras que existem, que estão no dicionário - e o homem sabe disso!!!

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  4. A linguagem é fantástica: dá sempre um jeitinho! :)
    bjs,
    Ana

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