Uni, duni, tê, salamê, minguê...

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Materiais a partir de textos da tradição oral

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Sétima provocação sobre o abecê nordestino

Mais uma provocação sobre o abecê nordestino, mas dessa vez para falar, de novo, mais uma vez...

Já que vejo, mesmo nos compartilhamentos de meus posts, ou em conversas sobre o assunto por aí (onde vou tenho falado disso...rsrsrsrs... virou quase uma militância), comentários que insistem em pontos que quero ajudar a desconstruir...retomo aqui alguns pontos.

O abecê chamado de nordestino - por vezes de baiano, ou do sertão - não é errado. Não, o abecê dito oficial não é o correto...o único correto. As coisas não são postas em termos de certo e errado, nesse quesito, como em vários outros, referentes aos diferentes falares regionais.



Não, ele não é antigo, iletrado e risível. Se está desaparecendo é por conta da "colonização" do outro alfabeto, que por razões não linguísticas, vem se sobrepondo ao nosso.

Sim, ele era falado no Nordeste, e ainda o é em alguns municípios do interior, nessa região. Mas na Bahia, ainda se aprende e se fala, seja no interior ou na capital, embora em muitas escolas e famílias já tenha sido substituído pelo que se considera como "oficial".

Meus avós e meus pais, assim como eu, aprenderam esse abecê. Muitas gerações, desde o fim do século XIX ou início do século XX, quiçá antes, aprenderam esse abecê. São apenas oito letrinhas com nomes diferentes - e nem tão diferentes assim, pois fazem eco com os nomes das outras letras, em que, também "se ouve tanto ê" (como diz a letra de Luiz Gonzaga).

Não, fê, rê, lê, mê, nê...não soam estranho em si mesmas...Se soam (a alguns), é apenas por costume... Não é bê, dê, tê, vê, zê? Então qual a estranheza de fê, rê, mê, lê? Só costume...Não vamos julgar algo como certo ou errado, letrado ou risível, pelo etnocentrismo de nossos ouvidos, não é? Aliás, como eu disse em post anterior, pelos critérios de nomeação das letras, se fosse lógica e não arbitrariedade, vê e zê seriam eve e eze...que soam estranho porque essas não ficaram sendo como as outras: esse, erre, efe...(Em breve vou detalhar mais sobre a origem desses dois modos de designar as letras na história do alfabeto).

E não, não e não...Embora possa parecer uma explicação razoável, seja para criticar, seja para defender o abecê nordestino, ela não é uma explicação precisa. Não! O fê, guê, ji, lê, mê, nê, rê, si não são sons - e muito menos fonemas - são NOMES dessas letras, outros nomes. Nomes usados como tal, além de dicionarizados e indicados como realizações possíveis por gramáticas e pelo Acordo ortográfico. Assim, é preciso duvidar dessa fala de que efe, esse, eme são nomes e fê, si, mê são sons, fonemas... 

Sim, são nomes mais próximos dos "sons" que as letras representam - sem nenhum juízo de valor, nem para criticar seu uso, nem para defendê-lo. Mas são NOMES!

De novo, retomando, insistindo, militando...
Lica

2 comentários:

  1. Olá professora Liane,
    Estou passeando aqui no seu blog buscando informações para uma professora da escola em que estou estagiando (estágio 2). Uma aluna perguntou qual a pronúncia correta da letra M e ela respondeu que é "EME", depois veio perguntar minha opinião e falei sobre a importância de valorizarmos nossos falares e a questão da colonização do outro alfabeto. Ela discordou mas não sabe porque discorda. Vou indicar seu blog para ela. Saudades das suas aulas!
    Bárbara Gama (Aluna da FACED)

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  2. Oi, Bárbara!
    Tudo bem?
    Pois é...esse é um problema frequente...as pessoas acham, opinam, discordam, concordam, afirmam...mas não sabem o porquê.
    Primeiro, precisamos tirar da pauta essa coisa de correto e errado - a questão não pode ser posta nesses termos.
    Depois, é isso aí: se informar para discordar ou concordar com BASE! E não mera opinião, costume, tradição...
    Esses argumentos são do tipo "cobra morde o rabo" sabe? - "está certo porque está na gramática e está na gramática porque está certo...!".
    Indique mesmo!
    Obrigada, querida,
    Abraços,
    Liane

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